98 ANOS DE AGNÈSVARDA

A mulher que escreveu cinema como quem escreve poesia

Em 30 de maio, celebramos o nascimento da cineasta que transformou a câmera em voz íntima e revolucionou o olhar feminino nas telas

Há filmes que se habitam. Os de Agnès Varda são assim e ela costumava dizer que sua casa era o cinema. A cineasta belgo-francesa que completaria 98 anos no último 30 de maio deixou uma obra que ainda pulsa, ainda atravessa, ainda revira o espectador do avesso. Falecida em 2019, aos 90 anos, após mais de seis décadas de cinema, ela preferiu se chamar não de cineasta, mas de cinescritora, porque acreditava que se pode fazer um filme com a mesma liberdade com que se constrói um poema.

Nascida ArletteVarda em Bruxelas, em 1928, filha de pai grego e mãe francesa, ela estudou História da Arte no Louvre e começou a vida profissional como fotógrafa. Mas a câmera fotográfica logo lhe pareceu pequena para o que queria dizer. Em 1954, filmou a pequena vila pesqueira de Sète e nasceu La Pointe-Courte, e com ele, uma das vozes mais singulares da história do cinema. Varda tinha três pilares, como ela mesma contava: inspiração, criação e compartilhar o resultado. Simples assim, e ao mesmo tempo, complexo assim.

Foto: Jean-Pierre Dalbéra

Uma tarde com Cleo

Quem descobre Varda, precursora e única mulher do grupo da Nouvelle Vague francesa, muitas vezes descobre por Cleo de 5 às 7 (1962). O filme acompanha uma jovem cantora pelas ruas de Paris durante pouco menos de duas horas de sua vida enquanto aguarda o resultado de um exame médico. Exteriormente, quase nada acontece. O acontecer se dá internamente, na descoberta do mundo pelo de dentro

É impossível não pensar em Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf e não por acaso: críticos de cinema ao redor do mundo comparam Varda justamente à escritora inglesa. Ambas capturam os fragmentos, o acaso, o íntimo, os pequenos não-acontecimentos que, no fundo, são os maiores acontecimentos de uma vida. A cidade deixa de ser mero cenário para se converter em personagem. As duas mulheres entram nela “feito uma lâmina através de tudo”, como diriam Deleuze e Guattari.

O cinema que fala de dentro

Com o tempo, Varda foi se tornando cada vez mais ela mesma nas telas, reinventando-se através dos anos. Nos filmes-ensaios da maturidade: Os Catadores e Eu (2000), As Praias de Agnès (2008) e Visages, Villages (2017), a cineasta aparece em quadro, narra em primeira pessoa, expõe seus pensamentos como quem pensa em voz alta. Não há distância entre quem filma e o que é filmado. A cinescritora é diretora, personagem e narradora de sua própria obra, embaralhando realidade e ficção, objetividade e subjetividade.

Em As Praias de Agnès, ela explica com uma frase que ficou gravada: “Se abrissem as pessoas, encontrariam paisagens. Se abrissem a mim, encontrariam praias.” O filme é um caleidoscópio de memória, com espelhos instalados em frente ao mar, fotografias de família, encenações, instalações e músicas. Uma bricolagem e arqueologia da própria vida.

Uma voz que ainda ecoa

Pioneira no uso de câmeras digitais, Varda enxergou na tecnologia uma aliada para sua estética do desvio, a de fugir das formas cristalizadas e encontrar um caminho próprio. Seu cinema conduziu a mulher para o centro da narrativa numa época em que esse centro quase sempre pertencia a outro.

Com recente exposição de sua obra fotográfica no Instituto Moreira Sales (IMS), em São Paulo, neste aniversário, é imperativo revisitar sua obra como experiência sensível. Porque o cinema de Varda não exige ser um cinéfilo, acadêmico, é preciso só sentir, abrir-se para intensidades outras, e deixar-se ser atravessado. Como ela mesma diria, com uma voz doce, voz cheia de nuances diante do mar do Norte: “Este mar e a areia são meu princípio.”

E para nós, que a descobrimos tarde ou cedo, ela também é um princípio.

 

Ana Karla Farias é potiguar, jornalista (UERN), autora dos livros “À deriva de mim” (Penalux), “Nas frestas da história: Nísia Floresta” (Asa da Palavra) e “Do cine-ensaio à literatura: subjetividades à deriva em AgnèsVarda e Clarice Lispector”, especialista em Comunicação, Semiótica e Linguagens Visuais (USCS), especialista em Produção de Documentários (UFRN), mestra em Multimeios (Unicamp) e doutoranda em Multimeios (Unicamp). Roteirista e co-diretora do documentário “A flor teimosa da Algaroba”.

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