A multiplicação do ethos negacionista na crise do tarifaço
O bolsonarismo se apropriou seletivamente da imprensa tradicional para reinterpretar o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil.
Do INQ 4995 ao tarifaço
Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, passou a ter endereço fixo nos Estados Unidos desde março deste ano, quando se licenciou do cargo de deputado federal, supostamente por problemas de saúde.
“Desde o início do ano, o deputado federal vem, reiterada e publicamente, afirmando que está se dedicando a conseguir do governo dos Estados Unidos a imposição de sanções contra membros do Supremo Tribunal Federal […]”, assim começa a peça nº 1 do Inq 4995 no STF. Assinada em 25 de maio pela Procuradoria-Geral da República, a petição abriu investigação contra Eduardo por suspeita de coação.
Quatro dias antes, em 21 de maio, Eduardo comemorou em post que a aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes estava sob análise do governo americano. No vídeo divulgado, o senador Marco Rubio responde ao deputado republicano Cory Mills sobre “grandes possibilidades” de Trump sancionar Moraes; abaixo, aparece a imagem do ministro com a frase: “Moraes próximo de ser sancionado!”. Na legenda, Eduardo agradece a Mills e conclui: “Thank you, Congressman. We will win”.
Dois meses depois, os EUA aplicaram a Lei Magnitsky contra Moraes, bloqueando bens e transações em solo americano. Nesse intervalo, Trump anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros; Jair Bolsonaro foi alvo de medidas restritivas do STF; e Lula passou a ser retratado, no ecossistema bolsonarista, como culpado pela ofensiva da Casa Branca. A apropriação seletiva da imprensa tradicional serviu, assim, para sustentar o ethos negacionista e oferecer respostas simplificadas – como a culpabilização ou mesmo o impeachment de Lula e Moraes – diante da complexidade da crise tarifária.

Cimento do negacionismo
Segundo Nunes (2022), o bolsonarismo não nasce de um partido ou de marcos tradicionais, mas de uma confluência de matrizes discursivas – anticomunismo, libertarianismo econômico, moralismo, anticorrupção, militarismo – aglutinadas por uma gramática moral comum. Essa moralidade articula três eixos centrais: individualismo, punitivismo e valorização da ordem acima da lei.
É nesse terreno que prospera o “Cidadão de Bem”, figura ideal que dá coesão a diferentes estratos sociais do grupo. O bolsonarismo, portanto, ultrapassa a figura de Bolsonaro, configurando-se como um movimento interclasse e contemporâneo, alimentado por crises globais e locais. Tal qual a Hidra de Lerna, o mito grego da serpente que regenerava duas cabeças ao perder uma, quanto mais golpeado por adversidades – pela crise de 2008, pandemia e a emergência climática – mais cresceu o bolsonarismo, precisamente porque originou-se no caos.
Se a gênese do bolsonarismo tem a forma da hidra, o negacionismo é uma das cabeças desse mito, pois, como assinala Nunes (2022) e Demuru (2024), cumpre o papel fundamental no ethos do populismo de extrema-direita mundo afora. Esse ethos combina traumas coletivos e desigualdades sociais crescentes que geram a oscilação entre o “choque de realidade” e o “choque de fantasia” (Demuru, 2020), materializado em narrativas conspiratórias difundidas por figuras como Trump, Milei e Bolsonaro. O resultado é a substituição do abismo real por um abismo fabricado, mais palatável e passível de ser resolvido por soluções simples. Nesse processo, a imprensa ocupa lugar paradoxal: desacreditada como instituição, mas constantemente reapropriada como insumo discursivo.
Análise
É nesse ponto que esta análise se insere. Maingueneau (2001) mostra que a citação direta é uma estratégia de intertextualidade que visa reforçar a verossimilhança daquilo que é citado, ao mesmo tempo em que distancia o enunciador do discurso original.
Exemplo: no mesmo dia em que foi divulgada a carta de Donald Trump sobre as tarifas, em 9 de julho, a deputada federal Júlia Zanatta repostou no X o print de uma reportagem do G1. Zanatta, assim, endossa a veracidade do fato noticiado, com a citação direta, mas também se distancia: quem diz é a imprensa, não ela. Assim, a deputada apenas reconhece a imprensa pelo seu estatuto de autoridade.
Mas junto da imagem, Zanatta acrescenta o comentário: “O PT é uma arma de destruição em massa”. Com efeito, o fato noticiado serve apenas para servir à narrativa desejada: a de que a tarifa resultaria da ação do PT e de Lula, e não da agenda de política externa de Trump. E aqui entra o negacionismo. Isso porque a deputada reconfigura a factualidade originária do tarifaço. Na outra face da mesma estratégia, a seletividade do recorte também subverte os sentidos da própria imprensa dentro do ecossistema bolsonarista.
Esta seletividade fica ainda mais evidente quando contrastada com editoriais publicados, na mesma data, por outros veículos de primeira ordem: o Estadão classificou o trumpismo – e, por tabela, o bolsonarismo – como “daninho”; O Globo lembrou que dezenas de países receberam cartas semelhantes, tratando a menção a Bolsonaro por Trump como mera retórica.
Convém assinalar que, no próprio 9 de julho, Trump anunciou tarifas também ao Sri Lanka, e nos dois dias seguintes a Canadá, México e União Europeia, com taxas entre 30% e 35%. Ainda que o Brasil tenha sido alvo da sobretaxa mais alta, caberia perguntar até que ponto a serialização dos anúncios não esvazia, logo de saída, a narrativa negacionista construída por Zanatta: afinal, Lula e o PT também seriam responsáveis pelas tarifas impostas a outros países?
Ironia como deslocamento de sentido
À medida que o tarifaço ganhava repercussão, pesquisas já indicavam sua gravidade na percepção pública: 89% acreditavam que ela prejudicaria a economia nacional (Datafolha). Nesse cenário, a disputa discursiva concentrou-se na atribuição de responsabilidades: para 35% dos entrevistados, a culpa era de Lula; para 22% e 17%, de Jair e Eduardo Bolsonaro, respectivamente (Datafolha).
Diante desse quadro, líderes bolsonaristas recorreram a prints e trechos de matérias jornalísticas como estratégia de apropriação discursiva. Isso porque, o uso da citação direta, como descreve Maingueneau (2024), confere ao enunciador uma aura de seriedade e objetividade, que em casos de instabilidade tornam-se recorrentes. No caso de Nikolas Ferreira, ao compartilhar um vídeo do portal Metrópoles que lista dez críticas de Lula a Trump antes do tarifaço, o deputado acrescenta apenas a frase: “Mas a culpa é do Bols- Ops”.
Aqui, o recurso da citação preserva a autoridade jornalística como garantia da verossimilhança, mas desloca seu sentido original com uma legenda irônica. Mantida como dado factual, a notícia sustenta, contudo, uma operação implícita de ordem negacionista. O abismo é reconhecido, mas sua responsabilidade é direcionada a Lula – e sua solução, simplificada: o fim de Lula.
Sarcasmo como banalização
Em registro ainda mais satírico, o vereador Pablo Almeida, do PL de Minas Gerais, compartilhou uma matéria da Folha de S. Paulo intitulada, acrescentando a legenda: “E se o Lula enviar muita jabuticaba?”. O comentário faz alusão ao vídeo em que Lula, logo após o anúncio do tarifaço, ofereceu uma jabuticaba a Trump em tom de leveza e descontração – gesto que foi recebido por seus apoiadores como sinal de serenidade diante da crise. No ecossistema bolsonarista, porém, a cena foi ressignificada como símbolo de inépcia: a gravidade do impacto econômico é reduzida a uma piada, que circula apoiada na credibilidade da imprensa. Como nos exemplos anteriores, o jornalismo é recortado seletivamente, não para informar, mas para zombar, reinterpretar e reforçar a gramática política que atribui a Lula a responsabilidade pela crise.
Conclusão
Nos três casos analisados, a apropriação da imprensa tradicional opera menos como mediação de fatos e mais como matéria-prima para reinterpretar a partir de recortes seletivos, embotados por ironia e negação. O resultado é a conversão sistemática de Lula em polo de responsabilidade pela crise, reforçando a gramática moral e o ethos negacionista do bolsonarismo.
Pedro Madeira do Nascimento é Mestrando em Comunicação, do Curso de Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo da Escola Superior de Propaganda e Marketing – ESPM. E-mail: [email protected].
Referências bibliográficas:
NUNES, Rodrigo. Do transe à vertigem: ensaios sobre bolsonarismo e um mundo em transição. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
DEMURU, Paolo. Políticas do Encanto: extrema direita e fantasias de conspiração. São Paulo: Elefante, 2024.
MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação [livro eletrônico] / Dominique Maingueneau ; tradução Maria Cecília Souza-e-Silva, Décio Rocha. — São Paulo: Cortez, 2024. ePub.

