ABANDONO LEGITIMADO

A necropolitica do Sul Global

Um sistema internacional que naturaliza a morte quando ela se dá em territórios esquecidos do Sul global

O conflito no Sudão, país africano que possui 49 milhões de pessoas, grande parte vivendo abaixo da linha da pobreza, se aprofunda sob o véu do silêncio e da crueldade. O mais recente relatório de Médicos Sem Fronteiras (MSF), intitulado Vozes de Darfur do Sul, publicado em 2025, rompe o esquecimento que o país está imerso. O documento é um testemunho ético e de denúncia política da falência de um sistema internacional que naturaliza a morte quando ela se dá em territórios esquecidos do Sul global. 

Desde 2023, quando a luta entre facções militares rivais mergulhou o país em guerra aberta, Darfur do Sul, um dos estados do Sudão, se tornou uma paisagem de devastação. A violência armada, os estupros sistemáticos, a destruição de infraestruturas e a fome extrema compõem um quadro de sofrimento prolongado e invisibilizado. A cidade de Nyala, outrora um polo regional, viu seu sistema de saúde colapsar por completo. Hospitais foram destruídos ou abandonados; profissionais de saúde fugiram ou deixaram de ser pagos; suprimentos cessaram. 

O que emerge do relatório de MSF não é apenas o registro de uma catástrofe humanitária, mas a evidência de um sistema global de hierarquização das vidas. Crianças desnutridas, mulheres estupradas, camponeses mortos e famílias que jejuam por dias seguidos não mobilizam as potências ocidentais, tampouco seus aparatos diplomáticos. Como afirmou uma jovem de 23 anos em Nyala: “ouvimos dizer que as organizações internacionais ajudam as pessoas, mas nunca nos trazem nada”. Essa ausência não é acidental, mas o resultado de uma geografia da indiferença. 

No âmago da crise está a fome — não como fenômeno natural, mas como dispositivo político. O acesso à terra, aos mercados e aos alimentos foi interrompido pela violência, e a chegada da estação chuvosa agrava o cenário. A necropolítica, conceito formulado por Achille Mbembe para descrever a gestão das populações por meio da exposição à morte, encontra aqui uma de suas expressões mais cruéis: um povo mantido à margem, sobrevivendo dia após dia sob o jugo da insegurança, da fome e da invisibilidade. 

Crédito: rawpixel/African Union Mission

No país, há também violências de gênero, exercidas como estratégia de guerra. Entre janeiro de 2024 e março de 2025, A MSF atendeu 659 sobreviventes de violência sexual, mais da metade agredidas por agentes armados. Trata-se de uma violência não apenas corporal, mas simbólica e política, que visa desorganizar laços comunitários, aterrorizar populações e consolidar formas de poder pela dominação dos corpos femininos. 

Nesse cenário, a resposta internacional se revela não apenas tardia, mas estruturalmente disfuncional. Dois anos após o início da guerra, as Nações Unidas sequer estabeleceram presença significativa em Darfur do Sul. A assistência humanitária permanece restrita, esparsa e, em muitos casos, inoperante. A letargia das organizações multilaterais diante da catástrofe sudanesa evidencia a seletividade da comoção internacional, orientada por interesses geoestratégicos e não pela universalidade dos direitos humanos. 

Contudo, mesmo diante desse quadro de abandono, emergem formas de resistência comunitária que desmentem a narrativa da passividade. Jovens removem escombros e artefatos explosivos, professores seguem lecionando sem salário, cozinhas coletivas alimentam crianças em escolas saqueadas. A MSF tem apoiado essas iniciativas locais, demonstrando que, quando há disposição para ouvir e investir nas capacidades autônomas dos povos, é possível salvar vidas e reconstruir laços de solidariedade. 

Essas experiências indicam uma alternativa ao modelo hegemônico do humanitarismo internacional, frequentemente marcado por práticas verticalizadas, burocratizadas e centradas em intervenções externas. Dar voz e recursos às redes locais — muitas vezes criminalizadas ou negligenciadas — pode ser o caminho mais ético e eficaz para enfrentar crises complexas. 

O Sudão não é exceção. Ele é espelho de uma ordem global que se recusa a ver o que não convém, que transforma certas geografias em zonas de abandono legitimado, onde a morte em massa é apenas um ruído distante. É urgente reverter essa lógica. Escutar as vozes de Darfur do Sul não é apenas um exercício de empatia, mas um imperativo político. Porque onde a escuta falha, triunfa a barbárie. 

 

Este artigo foi produzido em colaboração com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras. 

Roger Flores Ceccon é Professor da Universidade Federal de Santa Catarina. 

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