A pandemia pelo olhar de uma médica de família e comunidade do SUS

Nossos mortos têm nome e sobrenome

A pandemia pelo olhar de uma médica de família e comunidade do SUS

por Caroline Massami Oka
5 de junho de 2020
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Depois de mais de dois meses de pandemia neste lugar tão peculiar, entendi que o adoecer e o morrer pelo Covid-19 são processos extremamente solitários e os rituais de luto – tão importantes para passarmos pela perda inesperada de quem amamos – não estão podendo ser realizados de maneira adequada pelas restrições sanitárias, o que torna o processamento mais complexo para quem fica

“31 de março de 2020

É assim que começo esse diário sobre meus dias na pandemia de coronavírus: só eu, o papel, a caneta e todo o mundo de preocupações e angústias que carrego comigo.

Desde que nos reorganizamos para atender os casos suspeitos de COVID-19, não trabalhamos mais como equipes de saúde da família propriamente ditas. Acabaram as reuniões, os grupos, os planejamentos que tínhamos feito pra este ano. As Agentes Comunitárias de Saúde recém contratadas e os novos residentes mal conhecem o território das equipes, a maioria dos pacientes agendados foram desmarcados, os que continuam provavelmente não vão ser atendidos pelas suas equipes. Cadê a longitudinalidade? Que acesso é esse que estamos fazendo?

O processo de ensino também se foi. Os residentes de medicina de família e comunidade estão aprendendo a manejar pacientes graves quando deveriam estar estudando abordagem familiar e cuidados da atenção primária. O que vai ser da formação deles?

O que vai ser da saúde pública depois que a pandemia passar? Ainda teremos SUS? Como fica o orçamento da saúde? Teremos equipamentos de proteção individual suficientes? Quantos dos nossos pacientes iremos assistir morrer? De quantas famílias desmanteladas iremos cuidar? Quando irei ver e cuidar da minha família novamente? Será que vamos voltar ao normal? O que é o normal? Vou me infectar?
Vou perder alguém? Vou cuidar de muitas pessoas enlutadas? Como vai ser depois que tudo isso passar?

Eu só preciso sobreviver. Sobreviver à saudade, ao isolamento, à sobrecarga mental, de trabalho e de afazeres domésticos. Preciso me acostumar à estar sozinha em casa e me adaptar à nova rotina de limpeza incessante dos objetos, das minhas mãos e da minha roupa. Preciso encarar ao desafio de ir ao mercado com medo, de ir ao trabalho com medo e de viver com esse medo. Como seremos depois que isso acabar? Quem serei? Não sei. Me resta respirar fundo e tentar encarar um dia de cada vez.”

Essas ansiosas palavras foram escritas há aproximadamente dois meses, quando o dia-a-dia da unidade básica de saúde onde eu trabalho foram drasticamente modificadas para se adequar ao atendimento de casos suspeitos e confirmados de Covid-19. Eram pouco mais de cinco mil infectados e duzentos mortos pela doença no país. Semanas antes delas serem escritas, eu iniciava o trabalho como preceptora do programa de residência médica em medicina de família e comunidade, estávamos recebendo novos residentes e planejando as atividades dos meses seguintes nas equipes de saúde da família e na especialização médica. De uma hora para outra, a pandemia se instaurou aqui no Brasil e precisamos modificar as nossas vidas pessoais e os processos de trabalho.

Desde antes desse 31 de março, estou longe de quem amo. Vi amigos, família, colegas, conhecidos e pacientes adoecerem por COVID-19 e eu mesma adoeci. Me ver na situação de paciente, em isolamento total para não ser vetor da doença por longos quatorze dias, sentir falta de ar e o medo de morrer associados à culpa de estar sobrecarregando meus colegas de trabalho com a minha ausência foi penoso.
Passado esse momento de paralisia e inquietude inicial que ouso compartilhar com os leitores, me sinto hoje resignada e resiliente. No trabalho, fomos nos reorganizando e hoje estamos conseguindo nos adaptar aos problemas que a situação atual nos impõe. No entanto, ainda mais depois de recuperada da infecção, carrego como maior sequela desses dias uma maior frustração e cólera por aqueles que chamam a doença de “gripezinha” e minimizam a gravidade e complexidade do momento atual.

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O outro da linha de frente

A atenção primária à saúde – porta de entrada e base da organização do SUS – é composta majoritariamente por mulheres. Somos médicas, enfermeiras, técnicas de enfermagem, agentes comunitárias de saúde e mulheres de outras categorias profissionais que dedicam suas vidas e carreiras ao cuidado das pessoas sob nossa responsabilidade.
Como médica de família e comunidade, atuo na Estratégia de Saúde da Família, modelo preconizado para a organização da atenção primária à saúde há mais de uma década. Mais especificamente, trabalho há pouco mais de três anos em uma clínica da família da zona norte do Rio de Janeiro, cidade que tem vivido de maneira bastante intensa a pandemia do novo coronavírus.

O trabalho por aqui é bastante peculiar e diferente do que é visto no âmbito hospitalar por atribuições como acesso, vínculo, territorialização, longitudinalidade e outros termos que talvez não sejam tão usuais aos olhos de quem está lendo. Nossa forma de organização e princípios tornam o nosso front de batalha contra o coronavírus mais multifacetado do que os dos hospitais e emergências e, em certos aspectos, mais complexo também.

Explicando breve e superficialmente, cada equipe de saúde da família é responsável pelo cuidado da comunidade, pessoas e famílias que residem em determinado território geográfico. Esse cuidado passa por todos os períodos, fases e ciclos de vida e precisa levar em consideração as especificidades e características daquele local e daquela população. Enquanto profissional alocada em uma determinada equipe, sou corresponsável pela saúde de todos, independente do que tragam e de sua fase de vida, inclusive quando há pandemias, epidemias e surtos de doenças. Esse cuidado através do tempo é chamado de longitudinal. Vínculo é a relação de proximidade e confiança que a pessoa, a família e a comunidade tem com o profissional.

Por estarmos nesse local privilegiado de proximidade de quem atendemos, conseguimos perceber de maneira mais vívida as iniquidades da sociedade e o agravamento destas durante os meses de pandemia. Fazemos o cuidado de pessoas que precisam se aglomerar em filas para conseguir o auxílio emergencial ou uma cesta básica doada, de pessoas que não têm escolha senão rodar quilômetros de bicicleta e não respeitar o distanciamento social entregando delivery para não faltar comida na mesa, de mulheres domésticas que não foram dispensadas por seus patrões enquanto todos sabemos (ou deveríamos saber) que ficar em casa é fundamental para frear o avanço da pandemia. Entendemos que situação socioeconômica, cor da pele, gênero, orientação sexual estão estritamente relacionadas com o processo de saúde e adoecimento e não é à toa que a que quem mora em locais periféricos têm mais chance de morrer de covid-19 do que os moradores das zonas nobres.

Nesse período, enquanto convivemos com o aumento da procura e com todas os desafios dos atendimentos dos casos da covid-19, precisamos também fazer malabarismo organizacional e nos reinventar para continuar garantindo a confiança da comunidade, o acompanhamento dos nossos pacientes e famílias, o controle de condições crônicas, além de pré-natal, puericultura, vacinação, planejamento reprodutivo e outros serviços que não podem parar.

Ainda, o vínculo com a comunidade faz com que as vidas perdidas tenham suas histórias entrelaçadas com as nossas e que o cuidado e apoio dos seus sejam nossa responsabilidade. Nossos mortos e mortas – ouso dizer que mais do que em outros serviços de saúde – têm nome e sobrenome, endereço e história de vida e perde-los é mais difícil do que se fossem apenas desconhecidos em um plantão. E, depois, quando a pandemia passar, nós é que continuaremos aqui, cuidando de quem ficar.

Pessoas sobreviventes, famílias em luto, pessoas com ansiedade, depressão, desemprego, pobreza, descompensação de doenças crônicas, mulheres vítimas de violência doméstica e com seus direitos ameaçados são alguns exemplos do que aparecerá com maior frequência nas histórias que escutaremos nos consultórios e nas visitas domiciliares.

Saúde da Mulher no contexto da pandemia

No dia 28 de maio é celebrado o Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher e Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna e um tema de debate é proposto anualmente. Em 2020, “Saúde da Mulher AINDA importa!” foi a pauta escolhida pela Women’s Global Network for Reproductive Rights, entendendo que as ações em saúde globais estão voltadas para o novo coronavírus e há ainda uma maior ameaça a retirada de direitos e diminuição do acesso das mulheres à assistência à saúde e à garantia de seus direitos sexuais e reprodutivos, principalmente àquelas em situações de maior vulnerabilidade socioeconômica. É o nosso papel, na atenção primária, atentar para a manutenção do acesso à educação sexual e reprodutiva, aos métodos contraceptivos disponíveis e ao pré-natal de qualidade das nossas mulheres assistidas (o que, por sua vez, diminui a mortalidade materna por causas evitáveis, como hipertensão e infecções), principalmente para as mais vulneráveis.

Precisamos tratar também como prioridade o combate à violência contra a mulher no período da pandemia visto a escalada de casos que tem acontecido, tema abordado posteriormente neste Especial. Por conta disso, neste dia 28 de maio a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade lançou um manual de abordagem da violência contra a mulher no contexto da Covid-19, que orienta os profissionais a terem um olhar atento e a abordar de forma empática e acolhedora as mulheres vítimas de violência e fornece materiais de apoio para este tipo de abordagem.

Presente e futuro

Depois de mais de dois meses de pandemia neste lugar tão peculiar, entendi que o adoecer e o morrer pelo Covid-19 são processos extremamente solitários e os rituais de luto – tão importantes para passarmos pela perda inesperada de quem amamos – não estão podendo ser realizados de maneira adequada pelas restrições sanitárias, o que torna o processamento mais complexo para quem fica.

Para as mulheres, acredito que as sequelas desse momento vão bem além da fisiopatologia da infecção pelo Sars-Cov-2. É a intensificação da pandemia invisível da violência doméstica, é a restrição de direitos, é o aumento do desemprego e do abismo social. Além do acompanhamento e acompanhamento dos casos suspeitos e confirmados de Covid-19 precisamos ter o olhar atento e planos de ação para essas questões que urgem de maneira expressiva dentro dos lares de quem cuidamos.

Para a vida, ainda não consegui responder a todos os meus questionamentos de dois meses atrás e a saudade e o medo do que será do SUS e da formação dos residentes ainda me ronda, mas escolhi ser médica de família e comunidade e estar ali para e com meus pacientes e minha equipe e pretendo continuar com eles e elas. Não há maneira de trabalhar como antes, se as vidas e as perspectivas mudaram. Acredito que o mais duro da minha ação ainda está por vir, na reinvenção dos processos e no acolhimento das dores e sequelas físicas, sociais e psicológicas que virão. Então, vou sendo como posso, um dia de cada vez.

Caroline Massami Oka é médica formada pela UFF, médica de família e comunidade pela UERJ e atualmente preceptora do programa de residência de Medicina de Família e Comunidade da UERJ.



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