A pesquisa como criação em “Furacão Tornado”, de Letícia Miranda
Em publicação pela editora orlando, a obra da escritora, artista e pesquisadora do Distrito Federal se centra nos eixos de memória, ancestralidade e invenção; a escrita como modo de coleta e o livro como montagem

Quando criança, a escritora, artista visual e pesquisadora Letícia Miranda pedia para os pais contarem tudo sobre suas avós. Queria saber de cada pequeno detalhe, imaginando o que eles não conseguiam precisar. Seu maior desejo era ter tempo com elas, ouvir o que tinham a dizer. “Essa ausência sempre me custou muita coisa.” afirma. Em 2020, esse sonho infantil passou a guiar a escrita do seu projeto de pesquisa de Mestrado na UnB e, agora, transforma-se no livro Furacão Tornado, que está sendo publicado pela editora orlando.
Nascida no Distrito Federal em 1996, Letícia Miranda é professora, poeta, artista visual e pesquisadora. A escritora transita entre a literatura e as artes plásticas, com obras presentes em acervos institucionais e exposições em diferentes estados brasileiros. É autora de A suspensão de Tomie Ohtake e do mais recente Furacão Tornado (2026), além de integrar coletivos artísticos como o Clube de Colagem, Coletivo Zarafas e Grupo Antiquário.
Quais são os principais temas de Furacão Tornado? Por que escolhê-los?
O livro se desdobra em três eixos principais:
– Memória, ancestralidade e invenção
Desde a infância busco saber como eram minhas avós, do que gostavam e como agiam. Tudo o que pude coletar, meus ouvidos guardaram. Desde a infância tento me aproximar de quem elas foram, uma vez que não tive a chance de conviver com nenhuma das duas. Dessa forma, a invenção é uma forma de inscrever nossa história no mundo.
– A escrita como modo de coleta
Ao longo da minha trajetória enquanto artista, pude perceber a insistência em ver pela fresta, em tentar avistar o que não está dado, o que precisa ser escavado. Assim, pude compreender a coleta (de imagens e de palavras) como um procedimento dentro do meu trabalho. Escrevo para guardar o que foi ignorado, o que tentaram apagar. Os itens descartados se apresentam como janelas, são pequenos espaços por onde se pode ver, mesmo que de forma embaçada.
– O livro como montagem
Cada palavra e cada imagem registrada nesse livro são fruto de uma investigação. A forma como se organizam na página não é mera escolha estética; suas posições contam de um desejo. Às vezes ocupam todo o espaço, às vezes se apresentam com moderação. Seja como for, o livro passou a ser um lugar inaugural, ali, em meio às páginas, uma história se abre. O livro é parte da contação dessa história, portanto, montagem. O livro também é um modo de ver.
O que motivou a escrita do livro? Como foi o processo de escrita? Quanto tempo levou para escrever o livro?
Esse livro é fruto da minha pesquisa de mestrado. Dito isso, o projeto/a ideia teve seu início em 2020, ainda na escrita do projeto de pesquisa. Mas a motivação é mais antiga. Ainda criança pedia para meus pais me contarem tudo sobre minhas avós. Eu queria guardar cada pequeno detalhe. O que eles não conseguiam precisar eu imaginava. Tudo o que eu queria era ter tempo com elas e ouvi-las. Essa ausência sempre me custou muita coisa. Portanto, ouso dizer que o meu processo de escrita começou com esse sonho infantil e tem levado a minha vida inteira.
Em sua análise, quais as principais mensagens que podem ser transmitidas pelo livro?
O resgate e a legitimação de corpos, nomes e vozes esquecidas que não podem mais contar o que viveram; a consciência de que reescrever uma história custa uma vida, exigindo entrega, escavação e afeto profundo e a valorização do trabalho do artista e do poeta enquanto investigador, capaz de transformar restos, sobras e lacunas em matéria poética e visual.
O que esse livro representa para você? Você acredita que a escrita do livro te transformou de alguma forma? Por quê?
Esse livro representa a busca por caminhos e meios de tornar uma história possível. Muitas são as famílias que não possuem vestígios de suas histórias; em se tratando de pessoas racializadas, isso se torna ainda mais discrepante. Esse livro me deu espaço para inventar minha própria história. Há um poder nisso. Minhas avós são minha alegria mais difícil. É a partir dessa lacuna que construo quem sou e quem desejo ser, tentando fazer reverberar as vozes já caladas de duas mulheres negras que fundaram o meu mundo.
Como a bagagem dos livros anteriores que você escreveu ajudou na construção da obra?
Curioso perceber que A suspensão de Tomie Ohtake (2022) nasce quase ao mesmo tempo que Furacão Tornado (2026). Ambos os livros perseguem a morte. De um lado, o fascínio por uma artista centenária, do outro, o desejo de ver além do que foi abandonado. Porém, o primeiro livro carrega a ingenuidade de uma estreia. O segundo está fincado no desejo. Sendo assim, o que me atinge em cheio é a passagem do tempo que me permitiu olhar com mais clareza para os processos de publicação.
Quais são as suas principais influências artísticas e literárias? Quais influenciaram diretamente a obra?
Há muitas referências na construção de Furacão Tornado. Ao longo do percurso, busquei observar como os livros de que tanto gostavam eram apresentados, como as músicas que ouvia poderiam me ajudar a ver. Nesse sentido, posso dizer que Ana Martins Marques, Marília Garcia, Carlito Azevedo, Adélia Prado, James Baldwin, Jards Macalé e Milton Nascimento foram nomes importantes nesse caminho.
Como você definiria seu estilo de escrita? Que tipo de estrutura você adotou ao escrever a obra?
Eu diria que meu estilo de escrita passa pelo ato de insistir. Mesmo que não haja, em um primeiro momento, uma palavra a ser escrita, o ato de abrir o caderno e encarar a folha em branco me faz desejar, logo, me faz escrever. Para esse projeto, a estrutura da escrita foi se transformando conforme o tempo corria. A princípio, busquei mapear e anotar todas as histórias que ouvi dos meus pais sobre minhas avós. Depois, vieram as fotografias, compradas no Mercado Livre. Foi assim que encontrei o Furacão Tornado. Com a chegada dessas imagens, passei a escrever sempre mirando o mar. Por vezes, sorteava uma foto e escrevia a partir dela. Fui criando procedimentos ao longo do tempo, buscando por palavras nas imagens e vice-versa.
Você escreve desde quando? Como começou a escrever?
Na graduação, o impulso ficou mais forte, mas desde o Ensino Médio andava com um caderno embaixo do braço. Sempre que era possível, escrevia uma história ou arriscava um verso. Com o passar do tempo, as leituras foram se aprofundando e o encanto pela escrita também. Assim, comecei a visualizar as palavras como uma estrada a ser desbravada.
Laura Redfern Navarro é poeta, jornalista e pesquisadora.

