A poesia que resiste ao expediente: uma conversa com o poeta Caio Martim sobre o livro “dia útil”
Entre planilhas e versos, obra publicada pela editora Mondru revela a tensão entre trabalho corporativo e criação artística
Em uma realidade em que o trabalho toma praticamente todas as horas de nossos dias, muitas vezes deixamos de lado a arte e a poesia. Na contramão disso, os poemas de dia útil, livro de estreia do poeta e turismólogo Caio Martim, nos convida a encontrar a poesia nas frestas do cotidiano, propondo uma imersão na fricção entre produtividade e subjetividade.
A obra é estruturada como um vira-vira, sem começo ou fim fixos, permitindo que o leitor adentre por dois lados – “corpo_ativo” ou “poemática” – e vivencie a mesma tensão central de perspectivas diferentes. Nela, um eu-lírico múltiplo traz suas experiências e reflexões sobre a tensão entre trabalho e arte, produtividade e subjetividade, o grito e o silêncio.
Caio Martim é turismólogo e poeta, nascido em Cajamar (SP) e atualmente vivendo em Taubaté. Formado em Lazer e Turismo pela Universidade de São Paulo, sempre atuou na área do turismo, dividindo a rotina corporativa com a escrita. Começou a escrever ainda na infância e, durante a pandemia, aproximou-se definitivamente da poesia, encontrando nela um espaço de expressão direta e íntima.
Confira abaixo uma entrevista com o autor
Por que você escolheu temas como trabalho e produtividade, em contraposição à arte e à criação, para trabalhar nos seus poemas?
Escolhi esses temas porque foram exatamente o ponto de ruptura que vivi nos últimos anos. Durante a pandemia, trabalhei sozinho numa área da empresa que eu estava como assistente, em um setor (o turismo) que foi profundamente abalado. Essa combinação de isolamento e incerteza profissional desencadeou uma crise identitária forte. Ao mesmo tempo, convivia com o discurso de que arte “não levava a nada”, repetido por muitas pessoas ao meu redor – incluindo uma ex-chefe, a quem dedico o livro de maneira silenciosa – que dizia que escrever era uma perda de tempo, uma “bobagem infantil” que só atrapalharia minha carreira no turismo. Um aspecto importante é que eu mesmo reforçava essas ideias dentro da minha cabeça: Eu tinha medo de parecer ingrato com a carreira que vinha construindo e carregava aquela preocupação típica de quem já viveu com pouco dinheiro: o receio de arriscar tudo por algo que tantos ao meu redor chamavam de supérfluo, passageiro ou “apenas uma fase”. Esse questionamento constante sobre o valor do que eu produzia foi o motor do livro. A partir desse conflito com o trabalho, passei a me enxergar como artista pela primeira vez, de uma forma romântica e idealizada.
Então, esses questionamentos sobre o trabalho e a criação foram o motivo da escrita do livro?
O livro nasceu desse processo de entender qual é o meio termo entre esses dois polos, o que significa ser artista enquanto preciso trabalhar para pagar as contas – e de como minha cabeça oscilou: às vezes conformado, outras vezes revoltado, algumas desistindo do artista, outras desistindo do trabalhador (sem poder desistir de nenhuma das duas). Quis registrar essa oscilação de forma honesta. Por isso, o dia útil tenta refletir exatamente essa balança: a tensão entre o que eu precisava ser e o que eu queria ser. A estrutura gráfica do livro, que é uma obra vira-vira sem começo fixo, também traduz esse movimento. O leitor decide por onde entrar e, independentemente do lado, encontra as mesmas questões: os dois mundos não são tão diferentes quanto parecem, e navegar entre eles é parte da experiência que o livro busca compartilhar.
E o livro foi escrito durante a pandemia, certo? Você poderia contar um pouco mais sobre o processo de escrita e criação dele?
O processo de escrita foi bastante tranquilo e até inesperado. O livro começou a partir de um poema antigo, escrito em 2021, no meio da pandemia. Quando me inscrevi na oficina da Mondru, a proposta era desenvolver um livro de poesia do zero, e cada participante precisava enviar três projetos. Eu tinha duas propostas muito bem estruturadas, cheias de referências e conceitos, mas faltava a terceira. Revirando textos antigos, encontrei esse poema e, quase de improviso, escrevi uma proposta simples sobre trabalho, exaustão e vida adulta. Enviei sem grandes expectativas, e foi justamente essa a proposta escolhida pela editora. A partir daí, a escrita fluiu naturalmente porque eu tinha a validação e a ajuda da editora. Comecei a desenvolver o livro de fato em novembro e finalizei em fevereiro de 2025. O projeto cresceu de forma orgânica, sem grandes travas, como se já estivesse esperando para ser escrito.
Os temas de trabalho e produtividade são bastante densos, geralmente trabalhados na prosa… Por que você escolheu trabalhá-los com poesia? Quais foram os principais desafios na utilização dessa linguagem?
Escolhi a poesia porque era o formato mais honesto para o que eu queria dizer. Não teria como ser de outro jeito. Eu precisava de um gênero que comportasse contradição, interrupção, cansaço, respiro – e a poesia permite justamente essa síntese entre fragmento e intensidade. Além disso, depois da pandemia, foi o gênero que melhor traduziu meu estado mental: textos curtos, diretos, muitas vezes nascidos no intervalo entre uma tarefa e outra.
Um dos principais desafios foi tratar temas muito concretos, como trabalho e produtividade, sem cair em um tom excessivamente explicativo, que não cabe na poesia. O gênero exige condensação, sugestão e silêncio, enquanto esses temas, muitas vezes, pedem análise direta. O processo, então, foi encontrar imagens e estruturas capazes de transmitir essa tensão de forma sintética, fazendo com que o leitor se enxergue. Também houve o desafio de equilibrar simplicidade e densidade, para que os poemas permanecessem acessíveis, mas ainda carregassem as camadas de reflexão que o tema exige.
O que você gostaria que o leitor levasse consigo após a leitura do livro? Quais mensagens você visa transmitir em seus versos?
O livro transmite sobretudo a ideia de que o cotidiano, especialmente o cotidiano do trabalho, molda profundamente a subjetividade. Ele evidencia como produtividade, pressão e rotinas aceleradas podem apagar partes importantes de quem somos, ao mesmo tempo em que abre espaço para refletir sobre identidade, desejo e frustração. A obra também comunica que existe valor no conflito: a tensão entre ser artista e ser trabalhador, entre querer criar e precisar cumprir demandas, não é um erro, mas um território legítimo de existência. Outro eixo central é o reconhecimento da vulnerabilidade como força: admitir cansaço, dúvida e contradição não diminui ninguém; ao contrário, permite enxergar camadas que o dia útil normalmente encobre. Por fim, o livro sugere que essas duas dimensões, arte e trabalho, não são opostas por natureza: elas se atravessam, se contaminam e, muitas vezes, se sustentam, mesmo sob tensão.

Como enxerga o papel da poesia hoje, em meio a um mundo obcecado por produtividade?
Vejo a poesia quase como um gesto de desaceleração. Em um mundo que valoriza velocidade, desempenho e resultado imediato, a poesia propõe outra lógica: a da pausa, da atenção e da escuta. Ela cria um espaço onde nem tudo precisa ser útil ou mensurável. Nesse sentido, escrever e ler poesia também é uma forma de resistência, porque permite olhar para a experiência cotidiana com mais profundidade, questionando justamente essa ideia de que tudo precisa ser produtivo o tempo todo.
Você nasceu em Cajamar e passou por várias mudanças de cidade, para estudar na USP e agora para morar em Taubaté. Como essas mudanças impactaram na sua poesia?
Essas mudanças influenciaram bastante a forma como observo os lugares e as pessoas. Cada cidade tem um ritmo, uma paisagem e uma maneira diferente de organizar a vida cotidiana, e isso inevitavelmente atravessa a escrita. Também existe uma sensação constante de deslocamento, de estar sempre entre lugares, que aparece nos poemas como uma tentativa de entender onde se está e como se pertence a cada espaço.
Além disso, meu trabalho com viagens também acabou ampliando muito esse olhar. Estar em contato frequente com outras culturas faz com que a observação do cotidiano fique ainda mais atenta. Viajar, muitas vezes, é perceber detalhes muito simples como os gestos, as rotinas e as paisagens, que acabam aparecendo na escrita. Isso também aparece na forma dos poemas. Acabei chegando a uma poesia bastante híbrida, que mistura diferentes registros e estruturas, às vezes mais narrativos, às vezes mais fragmentados ou próximos de uma anotação do cotidiano. Essa variedade de formas surge justamente desse trânsito entre lugares, ritmos e experiências diferentes. Assim como viajar coloca a gente em contato com múltiplas paisagens e modos de vida, a escrita também passou a experimentar formatos diversos, sem ficar presa a um único modelo. A própria ideia de deslocamento acaba se refletindo na linguagem e na estrutura dos poemas.
Você escreve desde quando? Como você começou a escrever e quando realmente se ver como um autor?
Escrevo desde os 10 anos. Comecei de maneira bem intuitiva, criando histórias inspiradas em novelas e coisas que eu assistia na época. Mas passei a me ver como autor a partir da escrita deste livro pois, embora escreva desde criança, nunca achei que esse lugar fosse para mim; parecia reservado a pessoas de outra realidade, mais estáveis, mais seguras do que eu. Sempre soou distante, quase proibido para alguém com a trajetória que eu tive.
Então a escrita desse livro teve bastante impacto na sua afirmação como autor, certo? O que o livro representa para você?
O livro representa, antes de tudo, um ponto de virada pessoal. Ele marca o momento em que finalmente me permiti assumir a escrita como parte essencial de quem eu sou, e não como um passatempo secundário ou algo “menos sério”. Durante muitos anos, internalizei a ideia de que arte não era um caminho legítimo – especialmente depois de ouvir, repetidas vezes, que escrever era uma perda de tempo. Esse livro rompeu com essa lógica. E ter este como um livro de estreia é ainda mais potente: discutir a escrita, a produtividade e a utilidade das nossas vidas é imperativo.
E a escrita de dia útil te transformou de alguma forma? Qual impacto ela gerou em você?
A escrita me transformou porque me obrigou a olhar de frente para minhas contradições: o conflito entre trabalho e criação, o medo de não ser bom o suficiente, a culpa de dedicar tempo àquilo que sempre me disseram para abandonar. Ao longo do processo, percebi que a identidade artística que eu evitava há anos já existia, só precisava de espaço para aparecer. O livro registra esse deslocamento interno e, ao mesmo tempo, o consolida. Representa um grande amadurecimento pela minha coragem em discutir um tema tão presente na minha vida e a possibilidade de me reconhecer em um lugar que nunca me coube.
Ana Ferrari é uma jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduanda em Edição e Gestão Editorial pelo Núcleo de Estratégias e Políticas Editoriais (NESPE). Sempre teve forte ligação com a literatura e às vezes se aventura a escrever textos ficcionais.

