O ESTADO COMO ESPETÁCULO

A prisão de MC Poze e o prazer em punir nas democracias racistas

A prisão de Poze é apenas mais uma entre tantas ações em que o aparato estatal se comporta menos como protetor da ordem e mais como um agente de humilhação 

A imagem de MC Poze sendo preso em casa, sem camisa, de chinelo, algemado diante dos filhos, circulou como um troféu nas redes. Não houve resistência. Não havia urgência. Mas havia uma encenação: o corpo negro reduzido à condição de ameaça, para que o Estado pudesse exibir sua autoridade. Em democracias como a brasileira, a repressão já não se limita ao exercício do controle legal — ela adquire uma forma estética, quase ritualística, marcada pelo prazer em punir. Juliana Borges, em Encarceramento em massa, nos alerta que o sistema penal não opera apenas como instrumento de justiça, mas como mecanismo de reafirmação de desigualdades históricas. 

Crédito: Reprodução/Instagram/@pozevidalouca

A prisão de Poze é apenas mais uma entre tantas ações em que o aparato estatal se comporta menos como protetor da ordem e mais como um agente de humilhação. Isso mostra o modo como o Estado escolhe seus alvos, sua linguagem e sua teatralidade. Em bairros nobres, investigados por corrupção milionária, a regra é o respeito. Nos conjuntos do subúrbio, a regra é a força. A seletividade não é um erro, mas o funcionamento normal da engrenagem. Jessé Souza chama isso de “invisibilidade consentida”: o sofrimento dos de baixo só importa quando serve para reafirmar o poder dos de cima. 

Democracia, afinal, não é sinônimo de justiça. É perfeitamente possível manter eleições livres enquanto se reproduz cotidianamente a lógica da opressão — desde que a violência seja dirigida aos alvos “aceitáveis”: os pobres, os pretos, os marginais. A grande mídia, cúmplice, transmite essas ações com naturalidade. A população, acostumada, aplaude. E o Estado, silenciosamente, goza: porque não há repressão institucional sem uma dose de sadismo — de prazer em fazer sofrer. 

O caso MC Poze precisa ser lido para além do artista ou da operação. Ele é um sintoma. Um espelho. E, talvez, um alerta: se aceitarmos a punição como espetáculo, estaremos abrindo mão da democracia como projeto civilizatório. 

 

Maria Eduarda Soares de Oliveira é graduanda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB). Pesquisa temas relacionados às formas punitivas, controle e violência institucional nas democracias. 

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