A resistência dos movimentos sociais e o drama de famílias removidas por hidrelétrica: Lincoln de Barros fala sobre “Terras Submersas”
Em romance de estreia, autor mistura ficção e relatos reais para retratar injustiças sociais pouco visibilizadas no país
O autor mineiro Lincoln de Barros estreia na literatura com o romance Terras Submersas, livro que expõe a perversidade da expropriação de comunidades inteiras em nome de grandes obras públicas. Ambientada na região da Usina Hidrelétrica de Cana Brava, entre os municípios de Minaçu e Cavalcante (GO), a narrativa escancara a negligência com que moradores e trabalhadores das áreas alagadas foram tratados.
Misturando ficção e relatos reais, o autor constrói um romance contundente que indigna ao retratar injustiças sociais pouco visibilizadas no país.
A obra nasce diretamente da trajetória profissional do autor: Lincoln foi auditor em um processo envolvendo a própria Hidrelétrica de Cana Brava, exercendo função semelhante à de seus personagens centrais
Mineiro de Belo Horizonte, o autor é formado em Filosofia (1978), especialista em Análise de Sistemas (1978) e mestre em Administração Pública (1997). Atuou durante quatro décadas no setor de tecnologia da informação e comunicação, na maior parte na administração pública.
Paralelamente à carreira corporativa, Lincoln construiu um sólido trabalho como consultor em projetos socioeconômicos, tendo trabalhado vários anos em projetos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
Confira na íntegra a entrevista com o autor:
Terras Submersas mistura ficção e realidade. Como surgiu a ideia para o livro?
Terras Submersas é um romance baseado em fatos reais, os impactos da construção de uma hidrelétrica na vida da população local. O livro aborda as perdas e o drama das pessoas a partir dos relatos dos atingidos; a resistência do movimento social e a crueza da expansão capitalista mudando o modo de vida e a cultura de um lugar.
A obra é resultado de um processo muito longo. A origem foi um trabalho de auditoria no qual participei, coordenando o trabalho de campo feito na hidrelétrica de Cana Brava, auditoria que ocorreu por pressão do MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens, em reação aos prejuízos causados pela empresa construtora, ao deixar mais de 800 pessoas sem a indenização adequada. Isto me marcou fundo, pois o relato das pessoas era de que tinham perdido tudo, suas terras, suas casas, seu trabalho, seus sonhos, tudo. Foi o que me motivou a relatar a tragédia.

Você chegou a utilizar documentos e depoimentos para compor a narrativa?
A escrita foi desenvolvida a partir de alguns documentos que guardei sobre a auditoria: registros de depoimentos, fotos que fiz e arquivos de trabalho, além de pesquisa posterior sobre os acontecimentos. Isso permitiu estruturar o trabalho, destacando principalmente as vozes dos atingidos, ao passo com o relato da evolução da auditoria e os textos ficcionais, dando forma de romance ao livro.
Embora foque na Usina Hidrelétrica de Cana Brava, acredita que o romance também fala sobre outras tragédias ocorridas recentemente no Brasil?
O livro retrata uma forma agressiva de expansão capitalista, que se reproduz com frequência no Brasil, haja vista as recentes tragédias de Mariana e Brumadinho, a partir do ponto de vista de quem sofreu as perdas. Essa é a mensagem principal, condensada na frase de encerramento: uma história contada por quem ainda não venceu.
A maior parte do trabalho foi feita durante a pandemia. Foi nesse período que passou a escrever ficção?
O livro representou a concretização de uma intenção que permaneceu como intenção por muitos anos, mesmo tendo a estrutura e a base da escrita já definidas. O mergulho no processo disciplinado de escrita durante a pandemia me fez capaz de escrever ficção. Imagino que o mesmo tenha ocorrido com muitos autores iniciantes. A partir daí, recuperar rabiscos antigos me permitiram materializar outros dois livros de gêneros diferentes, poesia e contos, o primeiro destes a ser lançado ainda neste primeiro semestre.
Como foi o processo de escrita do livro?
Em Terras Submersas, os textos foram escritos aleatoriamente, segundo a inspiração, o trabalho de pesquisa e a revisão dos arquivos da auditoria que ficaram comigo, buscando manter, nos diferentes trechos, as características de sua forma ficcional mais livre ou mais perto dos registros da tragédia. Posteriormente, esses textos foram organizados em blocos e, por fim, dispostos sequencialmente para formar o enredo. Uma das ideias para a feitura do romance foi a de um roteiro cinematográfico, isto é, a composição de cenas, descrições de cenários, falas e acontecimentos que fossem progressivamente desvelando o drama dos atingidos.
Acredita que a sua experiência com outros tipos de escrita contribuiu para a construção da narrativa?
Na ficção, antes do primeiro romance escrito na pandemia, tinha apenas escritos esparsos não publicados na juventude. Na área técnica-política, já fui editor de jornal de sindicato e de revistas técnicas na administração pública, ou seja, tinha algum treino em me fazer entender nos textos.
Quais são os seus novos projetos na literatura?
Além do lançamento do um livro Do reaprendizado da paixão, ilustrado por Carlos Wolney, com lançamento previsto para 2026, pela Mondru, venho trabalhando em um livro de contos que remete ao prazer da filosofia, que já tem título e estrutura, em fase de término: A Terceira Metade e Outras Pequenas Metafísicas. Além disso, estou começando a pesquisar, ainda no éter, para um segundo romance, esse intimista.
Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na editora orlando e na com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.


Adorei a leitura. Livro fluido, que nos emociona, toca e conscientiza.