TRILHOS DO FUTURO, RAÍZES DO PASSADO

A reXistencia subterrânea de São Paulo a Tessalônica

Sítios arqueológicos em obras de metrô podem ajudar a refazer a nossa rota histórica, na Grécia ou no Brasil: no bairro paulistano do Bixiga, movimento que luta pelo legado do Quilombo do Saracura faz quatro anos

Caminhões, guindastes, concretos, barulhos que por vezes adentraram a noite. A obra segue incessante em busca do cumprimento do prazo. Mas, como diria o querido poeta Carlos Drummond de Andrade, “tinham pedras no caminho”. A alguns metros de profundidade, arqueólogos encontraram significativos achados. Ruínas que possibilitariam conhecer, recontar e perpetuar histórias daqueles que nos permitiram estar aqui hoje, da forma como somos. Além das ruínas, milhares de artefatos: passou da ordem dos 100 mil aqui, chegou a mais de 300 mil noutro lugar.

O conhecimento acerca da existência histórica já se fazia presente há muito tempo, mesmo antes de qualquer escavação iniciar. A oralidade é uma das estratégias de manutenção do conhecimento, mas a cientificidade também o é, e são diversas as áreas do saber que buscam romper a linha cronológica do passado e presente, reconstroem socialmente a permanência das existências, revelando o passado no presente e como este pertinente movimento é marcador de futuro.

Foto: Mobilização Saracura/Vai-Vai

A sociedade se mobiliza e organiza, pois é imprescindível preservar. Há um oceano que distancia realidades, mas a história as coloca par a par. A cidade de Tessalônica, na Grécia, já é continuamente habitada há mais de 2.300 anos, o que fez com que arqueólogos já soubessem, de antemão, que seu subsolo abrigava camadas arqueológicas. É o segundo maior município em população do país, ficando atrás apenas de Atenas, concentrando em sua área metropolitana um pouco mais de 1 milhão de habitantes. No entanto, a confirmação oficial e a revelação do sítio arqueológico subterrâneo no traçado exato das linhas ocorreram em 2006, quando as escavações e a construção do metrô local foram oficialmente iniciadas.

Atravessando o oceano, a cidade de São Paulo. É a capital do estado homônimo e o principal centro financeiro, corporativo e mercantil da América do Sul. Tendo uma população superior a 11 milhões de habitantes, a metrópole é um grande polo cultural global, reconhecido por sua rica diversidade e efervescência urbana. Apesar de sua fundação datar de 1554, a cidade anteriormente era ocupada por povos indígenas do tronco linguístico Tupi, entre eles os Guaianás e outros grupos associados aos Tupiniquins. Com a nefasta colonização do território brasileiro, a ocupação indígena foi atacada, um morticínio posto a cabo e a escravização de povos (indígenas e africanos) duramente implementada.

São Paulo, como outras cidades brasileiras, foi palco para este cenário trazendo em sua caminhada, histórias de luta e reXistência, onde resistir e existir são faces da mesma moeda. E em seu solo, marcas intangíveis desta permanência. Também aqui, exatamente no bairro do Bixiga, na região central da cidade, onde acontecem escavações para as obras do metrô da Linha 6 – Laranja do Metrô, um sítio arqueológico foi prospectado. Sua existência já fora conhecida e memoriada, por acadêmicos (jornalistas, historiadores, arqueólogos, urbanistas, antropólogos, entre outros), pelo samba, por terreiros e capoeiras, bisavós, avôs e avós, pais e mães que contam e recontam as trajetórias dos seus, muito antes de qualquer obra de metrô cavar buraco no chão.

Neste contexto, nasce o Movimento Mobiliza Saracura Vai-Vai. Ele surge assim que a comunidade fica sabendo da existência de um sítio arqueológico exatamente no local onde era a quadra da Escola de Samba Vai-Vai e onde, no século XIX, existiu o Quilombo do Saracura. A proposição foi a de exigir a devida escavação, preservação e musealização dos achados, além de defender a permanência no território do Vai-Vai, desapropriado pelas obras.

O coletivo é formado por moradores do Bixiga, pesquisadores, sambistas e integrantes de movimentos negros. É uma articulação comunitária que tem enfrentado vários desafios na implementação do direito à participação social preconizada pela Constituição Brasileira, mas que chega ao seu quarto aniversário com conquistas importantes. Uma mesa de diálogo com os atores envolvidos (Governo Estadual, Governo Federal, Empresa de Arqueologia e Empresa Concessionária); a articulação para adição no Plano Diretor do município de uma cláusula que define a criação de estratégias de garantia do perfil racial negro do bairro; a realização de inúmeras ações de educação patrimonial (roteiros com escolas, exposições, jornada do patrimônio, evento musical) que cuidaram de apresentar o Bixiga negro, outrora apagado pela narrativa única de bairro italiano; a inclusão de “Saracura” no nome da estação, inicialmente chamada apenas “14 Bis”; a conquista de concordância da concessionária responsável pela linha em tematizar a estação com a história do Quilombo e os achados. E o movimento ainda segue na luta pela criação de um museu no Bixiga que possibilite a educação patrimonial, fruição e pesquisa dos achados históricos do Sítio Arqueológico; além da inclusão de “Vai-Vai” junto a Saracura no nome da linha. Quatro anos de muita intensidade, com inúmeras pessoas, voluntariamente, reunindo-se todas as segundas-feiras para construir estratégias de permanência e memória.

Já em Tessalônica, na Grécia, seguem 20 anos de intensas discussões e lutas encabeçadas, principalmente, pela Associação dos Arqueólogos Gregos (AGA). Foram organizadas manifestações públicas, abaixo-assinados e greves de arqueólogos e funcionários do Ministério da Cultura. Foram paralisações que fecharam museus temporariamente e chamaram a atenção da mídia internacional para o descaso com o patrimônio público. Uma das principais reivindicações era a preservação in situ (no local) dos achados, e não o desmonte e a realocação. O governo indicava o alto custo e o aumento do tempo de construção da estação para negar e a associação, juntamente à população mobilizada, indicava o exemplo da estação Hagia Sophia, em que o reposicionamento não pôde ser feito na íntegra, frisando o quanto isso é tecnicamente difícil.

Nos dois territórios uma batalha se iniciou. A luta silenciosa, ou talvez nem tanto, entre a história e a memória versus a acumulação de capital. Esse encontro de desejos de preservação, separado pelo oceano, revela, porém, a globalidade da lógica do desenvolvimento capitalista: a cidade não é planejada para o bem-estar social, mas sim para maximizar o lucro e escoar os excedentes econômicos do sistema produtivo.  Nesse sentido, Milton Santos cunhou o termo globalitarismo:  um sistema econômico perverso que aprofunda desigualdades e dita o uso do território a favor das corporações.

Foto: Rodrigo Bastos

Em Tessalônica e em São Paul, o movimento social se organizou. Ambos ouviram sobre altos custos e inviabilidades de preservação. Ambos insistiram na necessidade do conhecimento para preservação da existência no mundo. Essa dupla insistência na preservação encontra eco no pensamento filosófico contemporâneo. Achille Mbembe, por exemplo, em suas obras mais recentes têm abordado a ideia de que o conhecimento serve para “curar” os traumas históricos da violência. O saber não é apenas técnico, ele deve ser uma força engajada na criação e na manutenção da vida. Sob outra ou similar perspectiva, em A Condição Humana (1958), Hannah Arendt desenvolve a ideia do conhecimento e da ação como fontes de permanência no mundo, discutindo como os seres humanos lutam contra a efemeridade da vida construindo um mundo que sobrevive a eles.

Em Tessalônica, a estação foi construída preservando as ruínas in situ e hoje as pessoas que adentram a estação entram em contato com os achados, a cidade que ali outrora existiu. Em São Paulo as áreas, que foram reconhecidas por autoridades religiosas como um espaço sagrado de terreiro, foram desconstruídas. E seguem as obras que, agora em fase de monitoramento, continuam a descobrir ruínas, registros de nossa história. No entanto, os responsáveis não se comprometem a alterar o projeto da estação para incluir, in situ, as descobertas que insistem em existir.

São duas histórias paralelas, mas congruentes. E aqui, não se trata de comparar grandezas ou tamanhos, pois significâncias históricas são conferidas única e exclusivamente por seus territórios e o essencial é que cada comunidade e a sociedade como um todo restabeleça outras possibilidades para o viver. Trata-se sim, de evidenciar a existência, no mundo, de caminhos alternativos que busquem sentidos outros para a humanidade. Modos que ultrapassem a exploração capitalista e que efetivamente contribuam para o florescer da Humanidade.

Recuperar a ancestralidade, o caminho percorrido pelos antigos, as estradas e os celeiros que alimentaram o nosso estar hoje no mundo tem se tornado vital para a posteridade. Nisso, a filosofia africana tem muito a nos ensinar e não é coincidência que o Movimento Mobiliza Saracura Vai-Vai tenha como símbolo o Sankofa, afinal, “nunca é tarde para voltar atrás e resgatar o que ficou para trás ou foi esquecido”. De igual modo, nunca será cedo para refazer a rota histórica da humanidade e recolocar o Bem Viver como meta e fim.

 

Rosemeire Almeida é socióloga e integrante do movimento Mobiliza Saracura Vai-Vai.

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