A Rússia e suas raízes muçulmanas - Le Monde Diplomatique

A Rússia e suas raízes muçulmanas

por Jacques Lévesque
1 de dezembro de 2008
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Mais de 15% da população da Federação Russa é muçulmana e 8 de suas 21 repúblicas autônomas adotam
o Islã como religião oficial. É com esses argumentos que Moscou reivindica uma relação política privilegiada com
o conjunto do mundo árabe, sob o objetivo declarado de “reforçar a multipolaridade global”Jacques Lévesque

Apesar da repressão impiedosa que
acabara de impor aos rebeldes da
Chechênia, em 10 de outubro de
2003 o então presidente russo Vladimir
Putin tornou-se o primeiro
chefe de um Estado com maioria não-muçulmana
a tomar a palavra na cúpula da
Organização da Conferência Islâmica, que
reúne 57 Estados muçulmanos. Um sucesso
político e diplomático. Valorizando o fato
de que a Federação da Rússia conta com
mais de 15% de muçulmanos [1]
e que os povos
originários de oito de suas 21 repúblicas
autônomas adotam a religião islâmica [2]
, a
Rússia obteve o status de membro observador
dessa organização internacional. E isso
graças ao apoio um tanto paradoxal da Arábia
Saudita e do Irã.

Antes dos cristãos

Desde então, Putin e outros dirigentes
russos, entre eles o ministro de Relações Exteriores,
Serguei Lavrov, fazem questão de
afirmar que a Rússia, “de certa forma, integra
o mundo muçulmano”. Numa entrevista
concedida à Al Jazeera, em 16 de outubro
de 2003, Putin ressaltou que, contrariamente
aos muçulmanos que vivem no Leste Europeu,
os que moram na Rússia são autóctones.
Ele afirmou até mesmo que a presença
do Islã no território russo é anterior à do
cristianismo [3]…

É sobre essa base que Moscou reivindica
uma relação política privilegiada com o conjunto
do mundo árabe e muçulmano. As lideranças
russas parecem acreditar que seu
país, considerado um Estado principalmente
europeu, tem uma missão histórica a
cumprir como mediador entre dois mundos,
o ocidental e o muçulmano.

Três grandes razões podem explicar o
sentido e o alcance dessas reivindicações e
das políticas relacionadas a elas. Antes de
tudo, a pretensão russa visa enfrentar os
efeitos deletérios da guerra da Chechênia,
tanto em seu próprio território como no resto
do mundo. O objetivo é o de evitar, ou pelo
menos limitar, a polarização entre a maioria
étnica russa e os muçulmanos que moram
no país, reforçando o sentimento destes últimos
em pertencer ao Estado. “É preciso
impedir a islamofobia”, afirmou Putin na
mesma entrevista. Uma tarefa difícil quando
se decide empreender uma caça – não só
na Chechênia – a todos os fundamentalistas
muçulmanos, ainda que alguns sejam considerados apenas suspeitos. “O terrorismo
não deve ser identificado com nenhuma religião,
cultura ou tradição”, garantiu ele. Se
antes e pouco depois dos ataques de 11 de
setembro de 2001 Putin designava os rebeldes
chechenos sistematicamente como “terroristas
fundamentalistas muçulmanos”,
agora ele fala de “terroristas ligados a redes
internacionais de traficantes de droga e armamentos”,
evitando assim a freqüente referência
ao Islã.

A busca de uma ligação privilegiada com
o mundo árabe e muçulmano tem, em segundo
lugar, o objetivo oficial da política externa
russa de “reforçar a multipolaridade
no mundo”. Leia-se: sustentar e desenvolver
pólos de resistência à hegemonia e ao unilateralismo
dos Estados Unidos. Trata-se de
tirar vantagem da hostilidade geral diante
da política externa de Washington no conjunto
do mundo árabe e muçulmano. Desde
a URSS os russos já se apresentavam como
aliados naturais dos Estados árabes antiimperialistas
e de “orientação socialista”. E,
após a queda do Muro de Berlim, procuraram
estabelecer relações políticas fortes não
apenas com o Irã e a Síria, mas também com
a Arábia Saudita, o Egito e a Turquia, havia
muito tempo próximos dos Estados Unidos.

Armamento de alta performance

As considerações econômicas pesam
bastante, principalmente no setor de
energia, locomotiva que propiciou o retorno
da Rússia no cenário internacional.
O Kremlin vê na energia nuclear e na exportação
de centrais um importante
campo para o futuro, capaz de dar ao país
competitividade mundial nas áreas de alta
tecnologia e de torná-lo algo mais do
que um mero exportador de matérias-primas
energéticas. O mesmo vale para as
remessas ao exterior de armamentos de
ponta, setor de alta performance da economia
soviética e que enfrentou graves
dificuldades nos anos 1990.

Não são mais as alianças formais que o
Kremlin busca. Assim como na Organização
de Cooperação de Xangai (Rússia, China,
Casaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e
Uzbequistão), são as relações políticas fortes,
mas não restritivas, que Moscou quer,
sem que para isso faça oposição direta aos
Estados Unidos. É significativo que o Irã seja
mantido num status de observador da Organização
de Xangai, quando gostaria de tornar-
se membro.

Por fim, a terceira ordem de explicação
dessa nova política dirigida ao mundo muçulmano
inclui a tortuosa busca de identidade
da Rússia pós-soviética, tanto no planointerno como no internacional. Nesse sentido,
ela não traz apenas um otimismo político
circunstancial. Em 2005, o acadêmico
Sergei Rogov escreveu na revista oficial do
Ministério de Relações Exteriores que “o fator
islâmico na política russa era antes de tudo
uma busca de identidade [4]. Essa é uma
das razões pelas quais a Rússia não pode ser
um Estado-nação no sentido europeu do
termo”. E complementa: “Nossas relações
com o mundo islâmico concernem diretamente
nossa segurança”.

Os dirigentes russos,
tendo Putin e Medvedev à
frente, parecem muito
inquietos ao ver a idéia de
“choque de civilizações”
tornar-se uma profecia
auto-realizadora

É preciso entender o que isso quer dizer.
Em setembro de 2003, Igor Ivanov, então ministro
de Relações Exteriores, afirmava que
a guerra do Iraque tinha provocado o aumento
do número de atentados terroristas
no território russo – como, aliás, no mundo
todo. E isso foi antes da tragédia em Beslan [5].
As conseqüências previsíveis do conflito no
país árabe explicam a posição de Moscou.
Todos se lembram da oposição combinada
de França, Alemanha e Rússia no Conselho
de Segurança das Nações Unidas, fato que
privou de legitimidade internacional o conflito
iniciado pelos Estados Unidos. Por meio
dessa aliança, Moscou esperava então ver
emergir um novo vetor de multipolaridade.

Os dirigentes russos, tendo Putin e
Dmitri Medvedev à frente, parecem realmente
inquietos ao ver a idéia do “choque
de civilizações” tornar-se uma profecia
auto-realizadora. Pouco depois da guerra
do Afeganistão, da guerra do Iraque e do
apoio incondicional e sem precedentes de
Washington às políticas mais intransigentes
de Israel, os líderes da Rússia classificaram
como uma catástrofe nos negócios
mundiais o possível ataque americano ao
Irã. Segundo eles, uma ação desse tipo teria
conseqüências desestabilizadoras
enormes nessa vasta região, inclusive em
várias antigas repúblicas soviéticas e na
própria Rússia.

Essa é uma das chaves para entender a
relação complexa e difícil que a Rússia mantém
com o Irã. De um lado, Teerã conta com
um parceiro geopolítico importante, além
de ser o terceiro principal cliente das indústrias
de armamento russas, depois da China
e da Índia, assim como uma vitrine para a
exportação controlada de centrais nucleares.
Justamente por isso, seus dirigentes
sempre se abstiveram de expressar apoio à
rebelião chechena. Da mesma forma, dois
países cooperaram para apoiar ativamente
as forças de oposição armadas aos talibãs no
Afeganistão, bem antes que os Estados Unidos
o fizessem – é preciso lembrar que o Afeganistão
dos talibãs foi o único Estado no
mundo a reconhecer a independência da
Chechênia, sem falar na ajuda que prestou
aos combatentes chechenos.

De outro lado, Moscou denuncia os propósitos
do presidente Mahmoud Ahmadinejad
sobre Israel, qualificados como “vergonhosos”
pelo governo russo, e exerce
pressões significativas sobre Teerã, principalmente
votando com Washington, no
Conselho de Segurança da ONU, sanções
econômicas aos parceiros.

Correndo o risco de uma deterioração
das relações com o Irã, o Kremlin quer mostrar
aos Estados Unidos e aos outros países
ocidentais que a Rússia se comporta como
ator responsável no regime de não-proliferação
do armamento nuclear. Ao mesmo
tempo, tenta convencer Teerã a encontrar
um modus vivendi com a Agência Internacional
da Energia Atômica (AIEA). Participando
de sanções limitadas e graduais, a
Rússia espera afastar o máximo possível o
espectro de uma ação armada contra o Irã.
Não há dúvidas de que o Kremlin tampouco
deseja ter um país munido de armas nucleares
próximo a suas fronteiras. Também é
claro que preferiria viver com um Irã nuclear
em vez de ter de encarar as conseqüências
desestabilizadoras de um ataque americano
sobre Teerã.

Desestabilização à vista

A ambivalência dessas posições contribuiu
para aproximar politicamente os russos
de países como Turquia e Arábia Saudita,
aliados tradicionais dos Estados Unidos.
Essas duas nações, rivais do Irã, evidentemente
temem o acesso deste país ao armamento
nuclear. No entanto, assim como a
Rússia e pelas mesmas razões, se opõem a
uma ação militar de Washington por acreditarem
que as conseqüências para a região
seriam imediatas.

Como resultado da guerra do Iraque, a
Turquia viu aparecer em suas fronteiras
um Curdistão independente. Esse problema,
por si só, seria seriamente agravado
por uma desestabilização do Irã. E a Rússia pretende tirar vantagem disso num
momento em que os turcos se vêem dependentes
das trocas econômicas realizadas
entre as duas nações. Nada surpreendente,
já que o intercâmbio de produtos
entre turcos e russos têm se mantido desigual
há mais de 200 anos.

Num nível evidentemente inferior, acontece
o mesmo na relação com a Arábia Saudita,
que se opôs à guerra do Iraque apesar
de sua hostilidade em relação a Saddam
Hussein – e de ter deixado os Estados Unidos
utilizarem as bases de que dispunham ali.
Em fevereiro de 2007, Putin fez a primeira visita
de um chefe de Estado rus

Jacques Lévesque é professor da faculdade de Ciências Políticas e Direito da Universidade de Québec, em Montreal, e autor, entre outros livros, de 1989, la fin d’un empire: l’URSS e la libération de l’Europe de l’Est. [1989, o fim de um império: a URSS e a libertação do Leste Europeu], Paris, Presses de Sciences Po, 1995.



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