A soberania em tempos de guerra
Enquanto o Velho Continente perde influência política e vê o avanço de grupos nacionalistas, na América do Norte a retórica do “nós em primeiro lugar” ganha força como lema político
Se existisse um marcador que indica a chance de uma terceira guerra mundial, provavelmente ele estaria em seu ponto mais alto desde a crise dos mísseis de Cuba, no meio da década de 60.
A guerra da Ucrânia e a Guerra entre Israel e Irã são apenas manifestações de uma abrupta alteração no tabuleiro geopolítico internacional, em que a hegemonia do Ocidente foi posta em xeque, seja pelo dinamismo econômico chinês, seja pela capacidade bélica Russa, que não mais aceita a posição de coadjuvante no cenário mundial.
Com isso, algumas noções que vinham se consolidando perdem fôlego nesse início de século XXI.

A partir dos anos 90, e mais fortemente no início deste século, a hegemonia quase total do Ocidente lançou ao mundo muito de sua cultura, valores e forma de viver. Órgãos internacionais chamavam para si a normatização internacional, e a ideia de soberania estava sendo flexibilizada, para que órgãos multipolares organizassem as complexas relações entre os países e seus cidadãos.
Ocorre que a generosa ideia de um mundo sem fronteiras, que se auxiliaria mutuamente, está fora de moda, especialmente na Europa e Estados Unidos. Enquanto o velho continente perde força política e grupos nacionalistas começam a se erguer, na América do Norte, a ideia de que “eles em primeiro lugar”, se torna lema político.
Tudo leva a crer que haverá uma militarização geral no mundo, conjugado com protecionismo econômico, ao estilo das antigas ditaduras. As fronteiras voltarão a se erguer, econômica e socialmente.
Ao que tudo indica, o espírito generoso que informou a ideia de um multiculturalismo e integração econômica só foi um jogo válido enquanto os seus criadores estavam ganhando. Quando outros passaram a jogar melhor, acharam por bem mudar o jogo.
Luís Frederico Balsalobre Pinto é ex-delegado da Polícia Civil de São Paulo, mestre em Direito Penal pela PUC-SP, doutorando em Direito Penal pela PUC-SP, ex-secretário municipal de Canoas (RS) e advogado.

