A Terceira Guerra Mundial - Le Monde Diplomatique

CHÉRI À PARIS / CRÔNICAS FRANCESAS

A Terceira Guerra Mundial

por Daniel Cariello
11 de março de 2008
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O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera. A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma.Daniel Cariello

— Quais são os pontos que delimitam a Avenida de Champs-Elysées? perguntou Monsieur Gérard.

— O Arco do Triunfo e a Praça de La Concorde, respondeu rapidamente um argelino que entrou na turma não faz muito tempo e logo se revelou um metido a sabe-tudo.

— Très bien! E alguém sabe quantas ruas chegam ao balão do Arco do Triunfo?

— Seis, com certeza! Afirmou o sujeito.

Todo mundo conhece um sabe-tudo. É aquele chato que se acha mais esperto que os outros e fala sem parar. Principalmente quando ninguém pergunta nada. O dito-cujo é um engenheiro, no alto de seus 60 e poucos anos, que mora em Paris há muito tempo e fala um francês mais fluente do que Napoleão. Não tenho idéia do que faz naquela sala.

Animado com a atenção de todo mundo, ficou de pé e começou a enumerar as ruas, enquanto ia fazendo a conta nos dedos das mãos.

— Tem a Avenida do Champs-Elysées, a Wagram, a Mac Mahon… Seus olhos brilhavam de felicidade, e ele passou a desfilar comentários.

— Sabe, eu trabalhei em La Grande Armée, nas obras do metrô.

— Na Avenida d’Iéna tem uma padaria maravilhosa, bem do lado de um bar super simpático.

— Ah, a Marceau chega pertinho do Sena.

Quanto mais fornecia informações não solicitadas, mais enchia o peito. E a sua voz saía mais firme e forte.

— São doze ruas. Alguém interrompeu.

— Hein?

— São doze ruas, com certeza.

Como num jogo de tênis, todo mundo virou ao mesmo tempo a cabeça para o outro lado da sala, para ver quem desafiava. Era uma russa, que até então eu não sabia que falava. Não só falou como abriu um baita sorriso, revelando uma meia dúzia de dentes de ouro. Tinha cara de vilã de filme de 007, mas todo mundo passou a torcer por ela.

A aula começava a ficar mais interessante, e até uns dois que cochilavam acordaram para acompanhar o embate.

— A senhora está completamente enganada.

— São doze ruas.

— Tem a Champs-Elysées, a Wagram, a Mac Mahon, a La Grande Armée, a d’Iéna e a Marceau.

— São doze ruas.

— Eu trabalhei lá durante anos. Tem a Champs-Elysées, a Wagram…

O sujeito começou a se embolar nos próprios dedos. E a russa, monocórdica, repetia a mesma frase. De súbito, sacou um mapa da bolsa.

— Vamos contar, decidiu Monsieur Gérard, naturalmente alçado ao posto de juiz.

— Un, deux…

O argelino suava. Sua hegemonia estava em jogo. Se tivesse razão, teria o ego tão inflado que voltaria voando pra casa. Se estivesse errado, perderia o posto de professor de Deus, que ele mesmo se concedera.

— Trois, quatre…

A russa só ria, mostrando sua milionária arcada dentária para a turma.

— Cinq, six…

A voz de Monsieur Gérard ecoava no mais profundo silêncio em que a sala se encontrava. Dava pra ouvir as respirações.

— …onze, douze. São doze mesmo. Madame Galina tem razão.

O argelino desabou. Sentou. Levantou. Pediu pra ver o mapa. Contou. Recontou. Passou a mão na cabeça. E percebeu que realmente tinha perdido a batalha. Mas, provavelmente lembrando do passado de seu país, viu que ainda podia ganhar a guerra. E desferiu um rápido contra-golpe.

— Madame Galina, eu ainda acho que tenho razão. A senhora não quer ir lá comigo depois da aula pra gente contar juntos?

— Oui, vamos…

Tímida, a russa mostrou todos os dentes e exibiu o sorriso mais dourado que já vi. Mas fez questão de deixar claro que pelo menos aquela peleja na sala de aula já estava decidida.

— Mas que são doze, são doze.

Mais:

Daniel Cariello assina a coluna Chéri à Paris. Também mantém o blog Chéri à Paris e edita a Revista Brazuca.

Edição anterior:
Procura-se pão francês
? É o pão do dia-a-dia no Brasil.
? E vocês o chamam de pão francês? Olha, acho que ele não existe na França.
? Quer di



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