A Venezuela e a ofensiva Imperialista em tempos de Trump
A ofensiva imperialista de Trump contra a Venezuela é um perigo para toda a América Latina
A reunião convocada por Donald Trump com o Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos na primeira semana de dezembro não é um evento isolado. É mais um capítulo gritante de uma longa e intervencionista saga norte-americana na América Latina, que encontra na Venezuela de Nicolás Maduro seu alvo contemporâneo mais persistente.
A mobilização do maior porta-aviões do mundo para o Caribe, a declaração de um “espaço aéreo totalmente fechado” sobre um país soberano e a retórica belicosa que emana de Washington não são “operações contra o narcotráfico”, como pretende o discurso oficial. São, sim, os instrumentos clássicos de uma campanha de coerção, um “terrorismo psicológico” em escala geopolítica, como corretamente denunciado pelo presidente Maduro, que busca quebrar a vontade de um povo e derrubar um governo que desafia sua hegemonia.
O contexto histórico é inescapável. Há décadas, os Estados Unidos tratam o Hemisfério Ocidental como seu “quintal”, um espaço onde a Doutrina Monroe, mesmo em sua roupagem moderna, justifica intervenções políticas, econômicas e militares. De Guatemala (1954) e Chile (1973) à invasão do Panamá (1989) e ao apoio a golpes no século XXI, o roteiro é familiar: demonizar um líder, asfixiar economicamente sua população para fomentar o descontentamento, apoiar uma oposição interna alinhada e, se necessário, escalar para ameaças militares.
A Venezuela, detentora das maiores reservas de petróleo do mundo, tornou-se o epicentro dessa ofensiva após a ascensão do chavismo, um projeto político que, apesar de seus erros e crises internas complexas, priorizou a soberania nacional e uma redistribuição de renda que desagradou profundamente às elites locais e aos interesses corporativos internacionais.
A atual escalada sob a administração Trump representa um nível particularmente perigoso de agressividade. A declaração de fechamento do espaço aéreo é um ato de guerra não declarada, uma violação flagrante do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, que garante a soberania e integridade territorial dos estados. O deslocamento de um grupo de ataque naval com milhares de tropas para águas próximas não é uma medida de segurança, mas uma intimidação calculada. É a “diplomacia do porta-aviões” em sua forma mais crua, destinada a criar um estado de sítio midiático e psicológico, paralisar a economia ainda mais e forçar uma rendição.
Quando Maduro afirma buscar “paz com soberania, paz com igualdade, paz com liberdade”, ele está expondo o verdadeiro cerne do conflito: os EUA não oferecem paz, mas submissão. A “paz” que impõem é a dos vassalos, a “paz das colônias”, onde as decisões nacionais são tomadas em Washington.
A narrativa sobre “narcotráfico” é uma cortina de fumaça desgastada, um pretexto usado historicamente para justificar a intervenção. A alegação de legalidade das ações, afirmada por porta-vozes como Hegseth, é uma farsa jurídica. Não há base no direito internacional para que um país unilateralmente feche o espaço aéreo de outro, muito menos mobilize forças para seu derredor, sem uma autorização do Conselho de Segurança da ONU ou uma legítima defesa contra uma agressão iminente – situação que simplesmente não existe. Esta é a lei do mais forte disfarçada de procedimento.
É crucial, no entanto, uma análise crítica que não romantize o governo venezuelano. A Venezuela enfrenta uma crise humanitária profunda, com hiperinflação, escassez e uma migração significativa, problemas derivados de uma complexa combinação de fatores: a dependência extrema do petróleo, erros de política econômica, corrupção interna e, de forma incontornável, o impacto brutal das sanções econômicas unilaterais e extraterritoriais impostas pelos EUA e seus aliados. Essas sanções, condenadas por relatores da ONU como punitivas contra a população civil e violadoras dos direitos humanos, são uma ferramenta de guerra híbrida projetada para estrangular a economia e tornar a vida insustentável, criando o caos que depois serve de justificativa para uma “intervenção humanitária” ou mudança de regime.

A morte de sobreviventes em incidentes obscuros, mencionada nas notícias, e o silêncio sobre detalhes são um lembrete sombrio do custo humano real dessas operações de alta tensão. Cada vida perdida na turbulência dessa confrontação é uma tragédia que pesa sobre a consciência dos arquitetos da desestabilização.
Portanto, a defesa da soberania e da autodeterminação da Venezuela não é um endosso cego a Maduro ou a seu governo. É, acima de tudo, uma defesa intransigente de um princípio fundamental do direito internacional: o de que os povos têm o direito de decidir seu próprio destino, sem interferência, coerção ou ameaça de potências estrangeiras.
A solução para os graves problemas da Venezuela deve ser construída pelos venezuelanos, por meio do diálogo político interno e de mecanismos pacíficos. A comunidade internacional pode e deve oferecer apoio humanitário e incentivar negociações, nunca impor soluções à força ou através de bloqueios criminosos.
A ofensiva imperialista de Trump contra a Venezuela é um perigo para toda a América Latina. Ela reacende os fantasmas das ditaduras apoiadas pelos EUA e ameaça mergulhar a região em um novo ciclo de instabilidade e violência. Resistir a essa ofensiva não é uma questão ideológica, mas de soberania e de paz. Como disse Maduro, “nascemos para vencer e não para ser vencidos”.
Neste contexto, a vitória a ser buscada é a da razão, do direito e da capacidade dos povos de serem os únicos autores de sua própria história, livres do jugo de um imperialismo que se recusa a aceitar que os tempos da dominação colonial, em qualquer forma, devem ficar para trás. O mundo deve estar atento e repudiar veementemente mais esta agressão. A paz verdadeira só pode florescer quando a soberania for respeitada.
Carlos Bauer é professor do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE), da Universidade Nove de Julho (UNINOVE).

