RELAÇÕES COMERCIAIS

Acordo UE–Mercosul: quando exportar só commodities vira armadilha

Depois de 25 anos de negociação, o acordo UE–Mercosul abre um mercado de mais de 700 milhões de consumidores. No entanto, se o Brasil continuar focado em vender basicamente commodities, seguirá vulnerável a tarifas, cotas e barreiras técnicas definidas em Bruxelas, Pequim e Washington

Após um quarto de século de idas e vindas, o acordo UE–Mercosul avançou em Bruxelas como um dos maiores tratados comerciais já firmados pela União Europeia em termos de redução tarifária, envolvendo um mercado de cerca de 700 milhões de pessoas e um PIB combinado estimado em US$ 20 trilhões. Para o agronegócio brasileiro, a mensagem imediata é de oportunidade. Porém, com uma análise mais cuidadosa, o recado é outro: quem continuar vendendo apenas commodities permanecerá na parte mais frágil da cadeia.

Pelo desenho atual, a União Europeia reduzirá tarifas de forma escalonada para uma série de produtos industriais e agrícolas, como frutas, sucos, café solúvel, pescados e óleos vegetais, entre outros itens com maior grau de processamento. Para produtos considerados sensíveis, o modelo adotado é o de tarifa cota. No caso da carne bovina, por exemplo, o acordo prevê uma cota de 99 mil toneladas com tarifa reduzida de 7,5%. Acima desse volume, passam a valer tarifas significativamente mais altas. Situação semelhante deve ocorrer com aves, açúcar e etanol, cada um com cotas específicas.

Há, portanto, espaço para crescer, mas não será uma disputa de volume. Será uma disputa de valor. Ao mesmo tempo, a União Europeia vem vinculando o tratado a uma agenda ambiental mais rigorosa. O Regulamento Europeu de Desmatamento exige que commodities como carne, soja, cacau, café e madeira sejam rastreáveis até a parcela de terra onde foram produzidas, com a apresentação de coordenadas geográficas de cada área produtiva. Na prática, já não basta indicar “origem Brasil” ou “região Centro-Oeste”. Será necessário comprovar, propriedade por propriedade, que aquela carne ou aquele grão não têm origem em áreas desmatadas ilegalmente.

Quando a exigência passa a ser por parcela de terra, e não apenas por país ou região, a lógica muda completamente. Quem tiver a cadeia organizada por propriedade, com

 

dados confiáveis e consistentes, participa do jogo. Quem não tiver, permanece dependente de volume e preço.

Enquanto discute o acordo com o Mercosul, a União Europeia demonstra há anos que sabe capturar valor ao organizar suas cadeias produtivas. Produtos com indicações geográficas, que associam alimentos a território, método e tradição, movimentam cerca de 75 bilhões de euros por ano e respondem por aproximadamente 15% das exportações agroalimentares do bloco. Estudos da Comissão Europeia indicam que esses produtos alcançam, em média, preços cerca de duas vezes superiores aos de equivalentes sem proteção.

Na cadeia da carne, a lógica é semelhante. Em 2024, dados do setor argentino mostram que cortes bovinos resfriados de maior valor foram exportados a cerca de US$ 9.200 por tonelada, enquanto a carne congelada mais básica foi vendida por aproximadamente US$ 3.600 por tonelada. Trata-se de uma diferença próxima de três para um dentro do mesmo animal. Argentina e Uruguai, apesar de suas limitações, vêm há anos se posicionando com cortes premium para a Europa e outros mercados, vendendo não apenas proteína, mas também origem, padrão e história.

Em contrapartida, o Brasil segue majoritariamente ancorado na lógica da commodity, com exportações de carne in natura, grãos e açúcar bruto. Em vez de vender produtos com identidade e valor agregado, exporta toneladas anônimas e permite que o varejo europeu, as indústrias e as marcas capturem a maior parte da margem.

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, recebe a presidente da Comissão Européia(CE), Ursula van der Leyen, para reunião no Palácio do Itamarati antes da assinatura do acordo Mercosul – União Européia.
Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Essa dependência não se restringe à Europa. A China anunciou que, a partir de 1º de janeiro de 2026, imporá uma tarifa adicional de 55% sobre as importações de carne bovina que excederem uma cota global de 2,7 milhões de toneladas, com o objetivo declarado de proteger sua indústria doméstica. Em 2024, o país importou mais de 2,8 milhões de toneladas de carne bovina, das quais cerca de 1,34 milhão tiveram origem no Brasil, que liderou as exportações para o mercado chinês.

Na prática, isso significa que Pequim, assim como Bruxelas, pode abrir ou fechar o acesso por meio de cotas e tarifas conforme o cenário político e a situação da indústria local. O risco de uma armadilha da China é concreto. Concentrar quase metade das exportações de carne bovina em um único comprador implica aceitar que, de um ano para o outro, parte relevante desse volume possa se tornar economicamente inviável.

Do lado dos Estados Unidos, a recente ameaça de impor uma tarifa adicional de 25% sobre o comércio com países que mantêm relações econômicas com o Irã acendeu outro sinal de alerta. Em 2025, o Brasil registrou um superávit de cerca de US$ 2,9 bilhões no comércio bilateral com Teerã, impulsionado sobretudo pelas exportações de milho, que responderam por aproximadamente 68% do total, e de soja, com cerca de 19%, além de açúcar e derivados. Em contrapartida, o país importa do Irã fertilizantes, como a ureia, e outros insumos relevantes para a produção agrícola. O risco, portanto, não se limita à eventual perda de mercados para grãos ou carne halal, mas inclui possíveis choques na oferta de insumos estratégicos e impactos negativos sobre a competitividade do setor agroindustrial brasileiro.

Diante desse cenário, a pergunta deixa de ser se o acordo UE–Mercosul é bom ou ruim para o agronegócio brasileiro e passa a ser outra, mais incômoda: Até quando o Brasil vai se contentar em vender basicamente commodities, depender de tratados e se adaptar, posteriormente, às decisões tomadas na Europa, na China e nos Estados Unidos?

A resposta não está em abandonar as commodities, mas em mudar de posição dentro da cadeia. Enquanto o país atuar apenas como fornecedor de volume, continuará reagindo a cotas, tarifas e ameaças de sanções. O próximo passo é pensar os produtos com uma visão de cadeia completa, considerando cada propriedade, cada sistema de produção, os riscos envolvidos e o valor gerado. É o que se pode definir como uma visão integrada da cadeia.

Essa visão integrada não é um slogan, mas uma abordagem de gestão. Significa saber exatamente de quais propriedades vêm a carne, o café, os grãos, o cacau e a madeira, além de compreender como esses produtos são gerados. Implica também entender para quem se vende, de quem se compram insumos críticos e como transformar essas informações em vantagem competitiva, seja para acessar uma cota de carne na Europa, seja para negociar melhores condições diante de mudanças tarifárias na China ou de crises geopolíticas envolvendo parceiros comerciais.

O acordo UE–Mercosul pode representar um marco positivo para o agronegócio brasileiro, mas só se tornará uma verdadeira virada de jogo se vier acompanhado dessa mudança de mentalidade. Caso contrário, o país seguirá repetindo o mesmo roteiro: exportar muito, agregar pouco e torcer para que o próximo tratado continue permitindo a venda do que tem menor valor agregado.

Valmir Rodrigues é fundador da My Trusted Source (MyTS) focada em transparência, rastreabilidade e gestão de cadeias de suprimentos no setor de alimentos, conectando empresas, produtores e serviços de auditoria para transformar exigências de conformidade em valor real no campo. Também fundou a WQS, grupo de certificação

 

com atuação no Brasil, Estados Unidos, México e outros países, adquirido pela QIMA em 2019.

 

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