Karim Douieb: “Acres de terra não votam, eleitores sim,” afirma cientista

ELEIÇÕES NOS ESTADOS UNIDOS

“Acres de terra não votam, eleitores sim,” afirma (e desenha) cientista de dados

por Viviane Vaz, de Bruxelas
14 de novembro de 2020
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visualização

Cientista de dados belga Karim Douieb criou mapa que mostra o peso do voto popular nas eleições norte-americanas

Karim Douieb em apresentação sobre visualização de dados em São Paulo (Arquivo Pessoal/Karim Douaieb)

No ano passado, o cientista de dados Karim Douieb aceitou um desafio de Lara Trump, ex-apresentadora de TV e nora do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No Twitter, ela mostrou um mapa majoritariamente vermelho, dividido por condados, para representar os eleitores do partido republicano de Trump sob o título: “Tente dar um impeachment nisso”. Entre milhares de internautas, Karim topou.

Aquele tipo de visualização de dados não correspondia à realidade, uma vez que não avaliava a densidade populacional de eleitores por estado. “Acres de terra não votam; pessoas, sim.” Pensando nisso, o cientista de dados só foi dormir aquela noite depois de desenvolver um novo infográfico das eleições norte-americanas colocando os eleitores no mapa.

O trabalho de Karim viralizou nas redes sociais nos últimos dias —alguns posts o citam como autor, outros anonimizaram seu trabalho. Mas o belga não se importa: inclusive disponibilizou o código para que outros especialistas em visualização de dados possam aplicá-lo em eleições em outras partes do mundo… Para ele é uma questão de serviço público, de fazer “data for good” pelo bem da democracia. Ele já atualizou o infográfico em formato GIF para estas eleições americanas.

O novo mapa mostra os dados como eles são: existe uma onda azul do Partido Democrata nos Estados Unidos. Os eleitores que elegeram Joe Biden são maioria, ainda que Trump e alguns de seus correligionários não queiram ver, apegados ao antigo mapa. Às vezes, é preciso (re)desenhar para fazer entender.

 

Em 1911, o editor norte-americano Arthur Brisbane disse durante uma discussão sobre publicidade: “Use uma imagem. Vale 1000 palavras”. A mesma frase é atribuída ao pensador chinês Confúcio. Até hoje o conceito é bastante difundido, mas nem sempre é simples de ser aplicado, não é? Para você é mais fácil se expressar com palavras ou imagens?

Eu não era bom na escola com palavras, sempre foi difícil me expressar com palavras clássicas. Fico mais à vontade ao me expressar de forma gráfica. Sou uma pessoa visual.

 

De forma geral, o que é a visualização de dados e para que ela serve?

A visualização de dados ajuda as pessoas a entenderem tópicos bastante complexos. Se não desenho quando tento apreender uma ideia, se não faço uma conexão gráfica, tenho dificuldades. Rapidamente percebi que a visualização é a chave para entender e fazer com que as pessoas se lembrem do que você disse.

 

Como surgiu a ideia de criar este infográfico em formato GIF dos eleitores nos Estados Unidos? Ele foi feito no ano passado, mas parece que se tornou viral agora…

No ano passado, houve uma moção de impeachment contra Trump. E vi um tweet de Lara Trump postando um mapa com basicamente todos os condados coloridos em vermelho, com a seguinte frase: “tente dar um impeachment nisso”. A maneira como ela estava usando esse tipo de mapa clássico para dizer que a maior parte da América apoiava Trump me pareceu errada. Encarei isso como um desafio. Olhei para o mapa e pensei: tenho quase certeza de que se olharmos para a população, teremos um ponto de vista diferente. Então, desenhei bolhas para representar as pessoas. Na verdade, é um GIF super simples. Agora, com as eleições, ele reapareceu.

Recentemente um editor de TV nos Estados Unidos afirmou que, em alguns casos, é difícil não usar mapas tradicionais, considerando que muitos telespectadores podem não entender novos formatos. Você concorda com esta ideia?

Muitas vezes, quando tentamos alcançar um público mais amplo, é realmente um argumento apresentar recursos visuais que possam ser facilmente compreendidos. Ao mesmo tempo, acreditamos que mais e mais pessoas estão ansiosas para ver outros tipos de gráficos. A transição de algo com o qual estão realmente familiarizadas para algo que estão menos propensas a entender é possível, contanto que você forneça todas as chaves para o entendimento. Existem outras técnicas como criar rótulos, associar texto a um gráfico… Mas a forma mais eficaz para mim é a transição, pois mantém o contexto.

 

Você acha que há espaço para meios de comunicação, instituições governamentais e não governamentais melhorarem o trabalho de visualização de dados?

O que percebo é que é preciso muito esforço. Você precisa de muito conhecimento e experiência e os profissionais da área são melhor remunerados nas grandes corporações. Mas a grande mídia já entendeu que esse é o caminho a seguir e hoje em dia há equipes completas para fazer visualização de dados. Por exemplo, li que entre os dez principais artigos do jornal Washington Post, sete deles eram histórias visuais. Eles entenderam, eles investem, mas para mídias ou estruturas menores investirem nesse tipo de trabalho ainda é muito mais difícil.

 

Você acha que este seu modelo de visualização de dados poderia ser usado para as eleições brasileiras?

Sim. Quando eu publiquei este mapa, liberei o código de forma imediata e gratuita (em https://observablehq.com/@karimdouieb/try-to-impeach-this-challenge-accepted) para que todos possam refazer o mesmo. Os cientistas de dados da Espanha já o utilizaram para as eleições de lá, os da Suíça… Os principais jornais europeus “pegaram” a ideia…

 

Então a empresa Jetpack.AI, que você co-fundou, não ganhou nada com isso?

Trabalhamos para qualquer tipo de varejo, industrial, bancário, transporte… Não negamos que foi bom ver as pessoas falarem de nós, mas ao mesmo tempo quisemos fazer algo bom para a sociedade. O orçamento dos jornais costuma ser menor, então, para nós foi mais uma forma de mostrar o que fazemos em um tema social que ajuda as pessoas a tomarem consciência… De participar de um movimento de “data for good”, de fazer dados para o bem.

 

Alguns internautas se surpreenderam ao notar que foi um belga o responsável por “consertar” o mapa das eleições nos Estados Unidos…

É verdade, isso foi engraçado…

 

Lembrando que Trump chamou Bruxelas de “buraco do inferno” em 2016, chega a ser uma ironia do destino! (risos)

Sim… Ele merece, de certa maneira (risos).

 

Viviane Vaz é jornalista (Bruxelas).



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