África, o futuro presente - Le Monde Diplomatique

FICÇÃO CIENTÍFICA

África, o futuro presente

por Alain Vicky
3 de junho de 2013
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A ficção científica revela as possibilidades escondidas no presente e cristaliza as formas que o futuro pode assumir. Tornando assim sensíveis os medos e as esperanças coletivas, ela é sempre política. Enquanto os anglo-saxões a abandonaram em benefício da fantasia, os artistas africanos a aprendem e põem em práticaAlain Vicky

(Imagem do filme Distrito 9, de Neil Blomkamp -2009)

Longe dos radares midiáticos, um grupo de jovens artistas africanos, netos das independências, negros e brancos, conectados por alguns blogs e por um punhado de novas revistas pan-africanas, provoca uma revolução cultural no continente ao ocupar um território até então reservado às imaginações ocidentais, o da ficção científica. Para parafrasear o filósofo senegalês Souleymane Bachir Diagne, em um continente onde a fábrica do porvir está em crise, o sentido vem do futuro… É o que ecoam os “homens invisíveis” do coletivo 3D Fiction, engajados na “possibilidade de uma escrita compartilhada sobre o futuro de Dacar”, quando afirmam: “O futuro evocado pela narrativa faz nascer um novo tempo presente, que recoloca em questão nosso presente”.1

Até o final dos anos 2000, para o continente africano, a contrautopia, o desenvolvimento de um mundo tal como é temido – uma das dimensões da ficção científica –, realmente não tinha lugar: o presente era suficiente. Mas, de agora em diante, a modernidade sacode o presente: no norte do Mali, recentemente foi possível cruzar com “tipos muito resistentes e armados que, na sua cabeça, vivem como no século VII, mas utilizam uma tecnologia do século XXI”, relatou o Le Mondedo dia 20 de fevereiro de 2013. E, na saída de um shopping center de Johannesburgo, três rapazes, que não têm mais rands para recarregar o celular, desabafam contra a “escravidão digital”…

Ora, “o que se passa quando a juventude do terceiro mundo tem acesso a tecnologias praticamente inimagináveis poucos anos atrás?”, pergunta o ganense Jonathan Dotse em seu blog Afrocyberpunk. E continua: “O que vai acontecer se essa tendência continuar, digamos, nos próximos cinquenta anos? Quem é capaz de responder a essas perguntas? Os escritores de ficção científica, é claro!”. No que talvez seja considerado algum dia um manifesto desse novo cenário, Developing worlds: beyond the frontiers of science fiction[Mundos em desenvolvimento: além das fronteiras da ficção científica], Dotse conta como descobriu esse universo. “Imagine uma criança africana, com os olhos arregalados diante das imagens granuladas de um velho aparelho de televisão sintonizado em um canal VHF, uma criança que, pela primeira vez, descobre as imagens e os sons de um mundo maravilhosamente estranho, muito além dos limites da cidade. É uma de minhas lembranças mais antigas; cresci em meados dos anos 1990, num predinho tranquilo de Maamobi, um enclave nos arredores de Nima, uma das famosas favelas de Acra. Além da companhia de difusão gerida pelo Estado, na época havia apenas duas redes de TV em todo o país, e minha família não tinha meios de assinar a TV por satélite. No entanto, na ocasião, todos os tipos de programas interessantes, que vinham do mundo inteiro, passavam nessas redes públicas. Foi assim que descobri a ficção científica, não por meio das obras de grandes autores, mas graças a aproximações destiladas de suas grandes visões.”

Desde meados dos anos 2000, alguns óvnis começaram a cruzar o céu da criação africana. Les saignantes [no Brasil, Os sanguinários], filme dirigido em 2007 pelo camaronense Jean-Pierre Bekolo, se situa na Yaoundé [capital de Camarões] de 2025. Aux États-Unis d’Afrique [Nos Estados Unidos da África] (Jean-Claude Lattès, 2006), do escritor franco-djibutiense Abdourahman A. Waberi, descreve um mundo invertido, onde a África, em 2033, passaria a ser o centro econômico e intelectual do planeta, enquanto os condenados da terra se concentrariam na Euro-América indigente. Oportunidade para o autor admoestar: “o homem da África se sentiu, muito rapidamente, seguro de si. Ele se viu nesta terra como um ser superior, inigualável porque separado de outros povos e outras raças por uma vastidão sem limites. Criou uma escala de valores em que seu trono fica no ápice. Os outros, os indígenas, os bárbaros, os primitivos, os pagãos, quase todos brancos, são reduzidos às fileiras dos párias”.

Em 2009, foi a vez de o escritor angolano José Eduardo Agualuza se apropriar do futuro. Em Barroco tropical (Métailié, 2011), que se passa em 2020, os lucros do petróleo fazem desabrochar em Luanda, capital econômica de Angola, altos edifícios com paredes refletoras. Mas, em seguida, “o preço caiu (sem rede de segurança, ele despencou) e todo o mundo novo e radioso também sofreu um colapso… As bombas que levavam água aos andares mais elevados pararam de funcionar. Os geradores também. Muitos expatriados foram embora. Os deserdados recomeçaram a ocupar os imóveis”. Mais ao sul, na Cidade do Cabo, a revista Chimurenga publicou, na mesma época, um número especial, que se tornou cult, dedicado à ficção científica, Dr. Satan’s echo chamber [Câmara de eco do Dr. Satã]. Como salienta Waberi, “é realmente um verdadeiro território estético que está se esboçando e que cultiva uma nova geração de jovens artistas africanos. Sem dúvida, é mesmo uma das raras verdadeiras revoluções que estão surgindo na paisagem artística africana”.

Isso é particularmente verdade na África anglófona e mais ainda na África do Sul, país muito impregnado pela cultura de massa anglo-saxônica e que dispõe da mais importante indústria do espetáculo do continente. Oulimata Gueye, curadora no âmbito das artes visuais, relembra: “Em 2009, Neill Blomkamp, diretor de origem sul-africana, pequeno prodígio da cultura digital e ‘protegido’ de Peter Jackson [diretor da trilogia O senhor dos anéis], decidiu voltar à terra em que passou sua infância, mais precisamente a Chiawelo, um dos bairros mais pobres do distrito de Soweto, para rodar seu primeiro longa-metragem. Mesclando, com habilidade, a estética da reportagem de guerra, do documentário televisionado e da ficção científica, dirigiu o filme que, por seu sucesso mundial, marcaria a entrada oficial da África no universo da ficção científica: District 9” [no Brasil, Distrito 9].2

Esse filme, que vendeu mais de 1 milhão de ingressos na França, revisitou com muita sutileza as problemáticas da África do Sul contemporânea e, antes de mais nada, sua xenofobia. Encenou refugiados extraterrestres estacionados em reservas e controlados por uma multinacional que tenta se apropriar de seus segredos tecnológicos. Em seguida, o romance Zoo City, da escritora e jornalista sul-africana Lauren Beukes, teve repercussão internacional semelhante. Inicialmente publicadas no próprio país pela Jacana Media, depois no Reino Unido [pela Angry Robot], as aventuras de Zinzi September, detetive particular de Johannesburgo dotada de poderes extralúcidos, foram coroadas em 2011 pelo prestigioso prêmio Arthur C. Clarke, que recompensa o melhor romance de ficção científica publicado no Reino Unido.

É também na África do Sul que acaba de surgir o e-book Afro SF,3 primeira compilação de contos africanos de ficção científica. Na origem dessa antologia encontra-se o zimbabuano Ivor Hartmann, atualmente instalado em Johannesburgo. Os vinte textos encomendados a autores nigerianos, ganenses e sul-africanos mesclam viagem no tempo, megalópoles gangrenadas por gangues, pandemias incontroláveis, planeta colonizado por uma tripulação africana, administração regida por robôs infelizmente disfuncionais… Hartmann salienta na Introdução: “A ficção científica é o gênero literário que permite aos autores africanos abordar o futuro partindo de seu próprio ponto de vista. Se você não pode oferecer e retransmitir sua própria visão do futuro, ela será proposta por alguma outra pessoa, que, em sua opinião, não necessariamente será bem-intencionada. Esse é o motivo pelo qual a ficção científica é de importância crucial para o desenvolvimento do futuro de nosso continente”.

Entre os autores escolhidos, encontram-se Ndedi Okorafor, norte-americano de origem nigeriana. Marcado pela cosmogonia e pelo pensamento mágico de seus ancestrais da etnia ibo, seu primeiro livro, Who fears death4 [Quem tem medo da morte], descrito como um par africano de O senhor dos anéis, foi premiado em 2011 pelo World Fantasy Award e, como Zoo City, sua adaptação para o cinema está em curso. Quem vai rodá-lo é Kenyane Wanuri Kahiu, diretora de um curta particularmente badalado nos festivais, Pumzi, situado numa África atormentada pelo aquecimento climático.

Em Zoo City, Beukes dá grande importância às músicas urbanas de Johannesburgo. Aliás, sua heroína é encarregada, por um produtor, de procurar um cantor desaparecido. A trilha sonora com uma banda alucinada e no meio de muita fumaça, que mistura hip-hop, música eletrônica, kwaitoe dubstep, foi gravada pelo selo sul-africano African Dope para acompanhar a leitura. Por outro lado, um jovem músico, bem real, é citado pela autora: Nhato Mokgata, também chamado Spoek Mathambo, sem dúvida um dos artistas mais inovadores que surgiram nos últimos anos no continente. “Eu não saberia dizer se existe efetivamente uma família de pensamento africano que se desenvolve em torno da ficção científica”, disse ele em 2012. “O que é certo é que William Gibson e Philip K. Dick fazem parte de meus autores preferidos.” Em dois discos (Mshini wam, de 2010, e Father creeper, de 2012), Mathambo foi projetado pela crítica do rock ocidental e africana como o herdeiro africano do afrofuturismo. Nascido nas margens da great black music, corrente musical que mistura mitologia e tecnologia, músicas tradicionais e eletrônicas, foi teorizado, em 1975, nas colunas do New York Timespelo crítico Mark Dery, antes de ressurgir, em meados dos anos 1980, no cenário techno de Detroit.

Da América à África, fechou o círculo. “O afrofuturismo constitui uma genealogia cultural. O pianista de jazz Sun Râ é quem pode aparecer como minha influência mais forte, porque ele criou um universo inteiro. Ele vem de Saturno, o que me encanta. Enquanto africanos, por causa de nosso sistema de ensino, não somos alimentados por nossa história e nossa cultura. E as pessoas não vão obrigatoriamente buscar aprofundá-las. Os afrofuturistas propõem uma história alternativa. Se o homem branco diz que saímos da selva e que antes dele não éramos nada, nós vamos criar uma genealogia alternativa feroz, baseada em nossa história, mas também em tudo o que nos parecer conveniente. E que terá muito a ver com a ferocidade e com nossa própria construção enquanto povo”,5 explica Mathambo.

Ainda não há primavera política na África. Mas o futuro já é agora.

Alain Vicky é Jornalista.



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