Amazônia sem data center
Um data center, projetado para Belém, no coração da Amazônia, durante um super El Niño
O empreendimento BEL1, um data center, em Belém, é apresentado pela Elea Data Centers, em parceria com a Axia Energia. A estrutura está prevista para ser instalada em uma área privada da Axia, próxima à subestação de Miramar, no bairro do Barreiro.
A Elea, empresa que atua no setor de infraestrutura digital, foi adquirida pelo fundo de investimentos norte-americano I Squared Capital, empresa que gestora global de infraestrutura, tendo em seu portfólio outras empresas pelo mundo todo, cujas atividades contribuem para o aquecimento global e emergências climáticas que temos testemunhado nos últimos anos.
Uma rápida análise que poderíamos fazer sobre os anseios sociais em relação às novas tecnologias, sem o julgamento geopolítico que envolveria a decisão de adotar a IA em nosso cotidiano desde a entrada do ChatGPT em nossas vidas. O aplicativo tornou-se o serviço de internet com o crescimento mais rápido entre os consumidores, alcançando 100 milhões de usuários em apenas dois meses após seu lançamento, no final de 2022.
Esse crescimento expressa a dimensão da demanda social por ferramentas de inteligência artificial, mas também precisa ser observado a partir de seus impactos materiais.
Por trás de cada interação, há uma infraestrutura que depende da construção de estruturas de data centers, de muita energia, toneladas de litros de água e de uma ampla gama de minerais e metais críticos indispensáveis à fabricação de servidores, chips, equipamentos de transmissão e sistemas de armazenamento.
Nesse sentido, é preciso analisar o consumidor de IA também como parte de uma cadeia que alcança territórios destinados à mineração e à exploração de recursos hídricos. As zonas de sacrifício, locais onde moram pessoas que são subtraídas da operação para que a inteligência artificial possa trafegar entre nós como se não existisse materialmente.
Essa relação ganha ainda mais importância diante dos recentes desdobramentos geopolíticos envolvendo a disputa pelo domínio do desenvolvimento da inteligência artificial e pelo controle dos minerais críticos necessários à construção dessa infraestrutura tecnológica, especialmente no contexto da rivalidade entre Estados Unidos e China pelas terras raras no Brasil.
No meio dessa disputa, está a sociedade: uma mãe de quatro filhos do bairro do Barreiro, em Belém do Pará, que nunca incorporou a IA ao seu cotidiano para descobrir como seria sua aparência nos anos 80 nem simulou sua fotografia em uma ilustração inspirada nos estúdios Ghibli.
Esse indivíduo, desconhecedor de privilégios básicos, mas ainda privilegiados, como acesso à água, energia, alimentação e, na maioria das vezes, um simples banheiro, será sacrificado para que a inteligência artificial possa continuar funcionando 24h.
O desafio aqui é compreender que essa conveniência digital possui uma dimensão territorial que trabalha com a exclusão social para a manutenção de um privilégio.
À medida que a demanda por IA cresce, também cresce a pressão sobre territórios onde estão os minerais, a energia e a água necessários para sustentar essa infraestrutura.
Sem essa análise sobre os impactos e os processos apresentados como inovação tecnológica e desenvolvimento, não é possível compreender como eles podem contribuir para o deslocamento e, em alguns casos, para a expulsão de populações e comunidades tradicionais de seus territórios, como já é padrão.
Antes de discutir o que um data center pode representar para a economia digital brasileira, existe uma pergunta básica: esse empreendimento está sendo licenciado a partir de um estudo ambiental? Um EIA/RIMA?
A resposta encontrada durante uma investigação do Ministério Público levanta uma questão grave. Não havia, até o momento, processo de licenciamento ambiental para o BEL 1.
E isso acontece enquanto a empresa já apresenta o empreendimento como parte da expansão da infraestrutura digital, em Belém, com anúncios nas redes sociais e matérias em blogs de pouca repercussão regional.
A falta de informações públicas sobre o projeto também deixa em aberto perguntas fundamentais sobre seus impactos: Qual será o consumo de energia? Qual será a infraestrutura necessária? Haverá impactos sobre o sistema elétrico? Como será tratado o calor produzido pela operação? Que estruturas serão necessárias para refrigeração? E, principalmente, quando e como a população de Belém será informada e poderá participar dessa discussão? Porque um empreendimento pode estar dentro de um terreno privado e, ainda assim, produzir impactos muito além dos limites desse terreno.
Belém não é qualquer lugar
O BEL1 chega a uma cidade que já enfrenta enormes desafios ambientais e de infraestrutura. Belém está entre as cidades mais quentes do mundo e projeções climáticas apontam que poderá estar entre as mais quentes do planeta nas próximas décadas.
É um lugar que convive com problemas de abastecimento de água, desigualdade urbana e deficiência de infraestrutura. Existe ainda uma contradição particularmente incômoda.
Enquanto grandes empreendimentos buscam na Amazônia território e infraestrutura para funcionar, parte da população ainda enfrenta dificuldades básicas de acesso a esses serviços.
A Elea afirma que o BEL1 não utilizará água para o resfriamento de seus equipamentos. Mas e a energia? Quanto o BEL1 vai consumir? De onde virá essa energia? Qual será a demanda sobre o sistema elétrico? Quais estruturas precisarão ser construídas ou ampliadas para atender ao empreendimento? Essas respostas ainda precisam ser apresentadas de forma transparente à sociedade.
REDATA: o Estado quer datacenters.
A notícia da chegada do BEL1 acontece no mesmo momento em que o governo brasileiro cria um mecanismo conveniente para acelerar a instalação desses empreendimentos.
Em 1º de setembro, o Senado aprovou o Projeto de Lei 278/2026, que cria o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o REDATA. O texto foi encaminhado à sanção presidencial, em 4 de setembro. O projeto cria incentivos fiscais para empresas que instalarem ou ampliarem Datacenters no Brasil. A desculpa para isso é nossa soberania. Basicamente, o governo quer tornar mais barato para as empresas instalarem esses centros de armazenamento de informação no Brasil.
Entre os benefícios estão a suspensão de tributos sobre equipamentos de tecnologia da informação e comunicação, incluindo Imposto de Importação, IPI, PIS/Pasep, Cofins e contribuições de importação. Posteriormente, esses benefícios poderão ser convertidos em alíquota zero. O Estado brasileiro quer oferecer incentivos para atrair Datacenters, mas também estabelece contrapartidas.
Empresas beneficiadas deverão disponibilizar ao mercado interno apenas 10% da capacidade de processamento, armazenamento e tratamento de dados. O REDATA também estabelece critérios de sustentabilidade, prevê que a demanda elétrica seja atendida por fontes limpas ou renováveis, determina limites de eficiência hídrica e estabelece investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação.
Uma das obrigações previstas é a destinação de 2% do valor dos produtos adquiridos no mercado interno ou importados com os benefícios do regime para projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação relacionados à cadeia produtiva da economia digital. É aqui que o discurso da modernização encontra a realidade do território que se torna a Zona de Sacrifício. Quanto mais benefícios as empresas ganham, maior será o interesse em fincar bandeira em nossos territórios já afetados pelos megaempreendimentos.
O que Belém ganha?
Questionada sobre possíveis contrapartidas sociais do BEL1 para Belém, a Elea informou que identificou uma demanda por formação técnica e profissional na indústria digital e que pode contribuir para essa formação, mas disse que o tema ainda está sendo avaliado junto às esferas governamentais.
Questionada sobre quantos empregos serão gerados, a ELEA afirma que ainda não existe estimativa definitiva porque o projeto precisa ser finalizado antes do início das obras. A empresa afirmou, porém, que existe preferência por fornecedores locais. Mas isso também é obrigatório de acordo com o REDATA.
A empresa citou um estudo da Fundação Getúlio Vargas, segundo o qual um data center de 100 MW poderia acrescentar R$ 1,5 bilhão ao PIB brasileiro, gerar aproximadamente R$ 590 milhões em renda do trabalho e movimentar cerca de 12,6 mil empregos diretos e indiretos durante os 18 a 36 meses de implantação.
O estudo foi encomendado pela Scala Data Centers e a Norgás. A Scala Data Centers é a principal plataforma latino-americana de data centers sustentáveis focada no mercado de hiperescala, cuja sede é no Brasil. A empresa fornece infraestrutura de ponta para grandes provedores de nuvem, inteligência artificial e empresas de tecnologia de grande porte. A Energisa responde na justiça ações civis públicas por crimes ambientais.
A Amazônia como infraestrutura
Essa discussão não começa com o BEL1. A Amazônia há décadas fornece território, energia, água, minérios, madeira, alimentos, mão de obra barata e corpos para os grandes projetos. Os benefícios sempre são anunciados como desenvolvimento, e seus porta-vozes são empresários e políticos. Os impactos são violentos e ficam no território.

A floresta convive com mineração, garimpo, agronegócio, exploração de petróleo, gás, minerais críticos, grandes obras de infraestrutura, queimadas, desmatamento, grilagem, agrotóxicos, censura/ameaças ao jornalismo local e especulação imobiliária oriunda de terras e recursos minerais.
Todos esses setores usam o “desenvolvimento” como desculpa. Agora, a nova fronteira que o capital quer cruzar é digital. A disputa global por inteligência artificial, armazenamento e processamento de dados está criando uma corrida por energia, território e infraestrutura. E a Amazônia protagoniza isolada no mapa.
É o velho modelo de exploração chegando com uma nova aparência. O investimento chega. Os benefícios são anunciados como nacionais. Os impactos ficam onde o empreendimento foi instalado.
A luta contra os data centers chegou à Amazônia. E, talvez essa seja uma oportunidade para inverter a pergunta que normalmente acompanha os grandes projetos na região. Não perguntar apenas quanto a Amazônia pode oferecer, mas perguntar, antes de tudo: O que a Amazônia ganha com isso?
João Paulo Guimarães é jornalista, fotojornalista e escritor, vencedor do Prêmio Vladmir Herzog 2026, vencedor da Bolsa Defensores Ambientais da Abraji 2024 e Becas ColaborAcción Gabo 2024. Sua atuação é voltada para a Amazônia, direitos humanos, povos e comunidades tradicionais e justiça socioambiental.

