LITERATURA

Ana Victoria Almeida transforma o parkinson em narrador do seu romance de estreia

Em Me abrace antes da queda, escritora parte do diagnóstico do avô, José Carlos, para criar uma narrativa em que o próprio parkinson conduz a história 

Crédito: Divulgação

O Parkinson está sendo generoso com seu avô. Está chegando aos poucos”. A avó da escritora Ana Victoria Almeida, Maria Stella, costuma falar sobre a doença do marido, José Carlos, como quem descreve a chegada de alguém à família. O parkinson não foi apenas um diagnóstico: tornou-se uma presença que se aproxima devagar, ocupa espaços e transforma, pouco a pouco, a rotina da casa inteira. Foi dessa maneira, particular e afetiva, de enxergar a doença que nasceu Me abrace antes da queda, romance de estreia de Ana Victoria, pela Editora Oficinar. 

No livro, Maria Stella e José Carlos ganham novos nomes, Dona Mirtes e Seu Zé, e o parkinson deixa de ser apenas aquilo que acomete o corpo de um personagem e assume a narração da história. Sem rosto, mas cheio de personalidade, ele acompanha a relação do casal e a presença da neta bailarina, enquanto também descobre os afetos, as memórias e as transformações provocadas por sua própria chegada. 

A ideia surgiu das conversas entre Ana Victoria e a avó. Durante o processo de diagnóstico e progressão da doença, a escritora passou a frequentar ainda mais a casa dos avós e a ouvir os relatos de Maria Stella. Ela diz que às vezes sente que meu avô está sendo abduzido pelo parkinson, como se estivesse conversando de forma íntima com a doença”, conta Ana.  

Em vez de construir uma narrativa exclusivamente sobre os sintomas, o diagnóstico ou as dificuldades impostas por uma doença neurodegenerativa, Ana Victoria escolheu olhar para aquilo que acontece com os vínculos quando uma nova realidade passa a fazer parte de uma família. Escrevi esse livro para homenagear meus avós, e também na tentativa de dar nome ao indizível. Foi uma forma de me relacionar melhor com a doença”, explica. O parkinson não deixava de ser um corpo que se mudou para a casa dos meus avós.” 

Essa doença-narradora não possui um contorno humano tradicional, mas observa, interfere, provoca e também é afetada pelo que acontece ao seu redor. Como se relacionar com algo que não se vê, que não possui rosto algo que é caracterizado apenas por um diagnóstico?”, questiona a escritora. Para ela, uma doença também é uma presença e, como toda presença, pode adquirir características próprias. 

A partir dessa perspectiva, o parkinson chega à casa de Mirtes e Zé com uma função determinada, mas acaba se envolvendo com aquela família de uma maneira que nem ele próprio poderia prever. Criei uma doença que precisa executar um trabalho, e uma obrigação, mas que no processo acaba se afeiçoando profundamente a um casal e sua neta”, explica Ana. 

A experiência de acompanhar os avós também fez com que a escritora percebesse que a evolução de uma doença não se resume à progressão dos sintomas. Há também uma transformação nas relações, na maneira como as pessoas cuidam umas das outras, lidam com a memória e encontram novas formas de permanecer próximas. É daí que surge o tom agridoce do romance. 

Embora Me abrace antes da queda seja seu primeiro romance, Ana Victoria é uma estreante na literatura. Além de roteirista e pesquisadora, em 2024, publicou Lascas, seu primeiro livro de poesia, pela editora 7Letras. O romance, portanto, é uma nova etapa em uma trajetória que já transitava entre diferentes formatos de contar histórias. 

Como sua relação familiar moldou sua carreira? 

Para além de escritora e roteirista, o que mais me define é ser filha dos meus pais e neta dos meus avós. Minhas raízes são muito fincadas nesse chão graças a cumplicidade que tenho com a minha família. Meu avô me presenteou com um poema do poeta britânico William Ernest Henley quando eu era ainda adolescente e que guardo comigo até hoje. O encerramento do poema inclui duas frases: I am the master of my fate, I am the captain of my soul”. Uma afirmação que carrego ao longo da vida. Acredito que as palavras que escrevo são responsáveis pela construção do barco no qual navego minha vida.  

Me abrace antes da queda nasceu a partir do diagnóstico do seu avô com parkinson. Como e por que você decidiu transformá-lo em livro? 

Eu decidi transformar o diagnóstico do meu avô em livro por causa das conversas que tive com minha avó neste processo. Eu passava todos os finais de semana na sua casa e seus relatos foram informando muito do que se tornou o livro. Minha avó sempre dizia que o parkinson estava chegando de fininho na nossa casa e sendo generoso com meu avô. Os sintomas não chegaram abruptamente. Minha avó enxergava aquela situação de forma positiva, até na dificuldade. Ela sempre dizia que às vezes sentia que meu avô estava sendo abduzido pelo parkinson, como se estivesse conversando de forma íntima com a doença. Ela contava que quando meu avô fechava os olhos, ela permanecia segurando suas mãos, esperando que meu avô voltasse pra ela. Escrevi esse livro para homenagear meus avós, e também na tentativa de dar nome ao indizível. Foi uma forma de me relacionar melhor com a doença. O parkinson não deixava de ser um corpo que se mudou para casa dos meus avós.  

Como foi encontrar uma linguagem que desse conta da dor, mas também da vida que existe para além do diagnóstico? 

Acredito que busquei dar voz ao que não tem nome. Como se relacionar com algo que não se vê, que não possui rosto – algo que é caracterizado apenas por um diagnóstico? Uma doença não deixa de ser uma presença, e toda presença tem personalidade, características únicas. Qual seria a experiência dessa presença ao se alastrar em um corpo desconhecido? Acredito que bebi muito da doçura da minha avó – criei uma doença que precisa executar um trabalho, e uma obrigação, mas que no processo acaba se afeiçoando profundamente a um casal e sua neta. Nesse processo, a doença percebe como essa família encontra novas formas de preservar a memória e o afeto.  

Você trabalha como pesquisadora e roteirista. O que a pesquisa te ensinou sobre escutar histórias antes de tentar contá-las? 

A pesquisa me ensinou que a vida real é bem melhor do que a ficção. Ou melhor dizendo, a ficção é uma releitura da realidade, a maior fonte de material pra criação. Utilizo muito do meu bloco de notas para anotações do meu dia a dia e muitas vezes gravo as conversas que tenho com amigos, familiares, como fiz com minha avó nesse livro. Meu trabalho como roteirista informa muito do que eu escrevo na literatura.  

 

Gabriel Dias é jornalista e doutorando na Universidade Federal Fluminense. Pesquisa samba e branquitude. 

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