RESENHA

Aos companheiros, essa carta: o sentido e pulsão da vida na poesia de Guilherme Giesta

O que seria essa realidade de uma lacuna que “termina numa cova a sete palmos do chão” de Guilherme?

Caso fosse para escolher os versos que melhor poderiam definir o trajeto do livro Asfalto frio (Editora Folheando, 2025), último lançamento do poeta e historiador carioca Guilherme Giesta, seriam esses. Com pano de fundo de uma carta ao leitor, relacionamentos interpessoais e o urbano, escritor trabalha com temas da memória, identidade e existencialismo, dialogando com seu primeiro livro, publicado em 2024, pela mesma editora.

Crédito: Divulgação

Na mesma esteira desses versos, a alusão que me vem à mente é a de Leyla Perrone Moisés, professora e crítica literária. Para a autora, a falta que aflige o indivíduo se manifesta através do fazer da escrita, que nesse exemplo o lugar resguardado para a literatura movimenta-se como supressão dessa mesma falta, tornando-a dizível, mas nunca suprimindo por completo. A língua é falha, trôpega, mas ainda assim poderosa e com carga suficiente para ser concebida. O que seria, portanto, essa realidade de uma lacuna que “termina numa cova a sete palmos do chão” de Guilherme?

Se temos o real das ruas nas páginas, expressado diante um olhar que percebe o território como ambiente de convívio diário, há também um teor de reclusão no eu lírico em sobrecarga.

Diria mais que essa composição de temas com que entrelaço agora com a escritora Hilda Hist se faz através da dicotomia da vida e morte. Se na poeta há o processo interno em uma relação não de luto, mas fascínio, em Giesta temos algo similar, lembrando a coleção “Da morte. Odes mínimas”. A imagem não se reflete apenas; é um recriar, um ato de fabulação, haja vista a quase ode, cântico das partes da obra que abordam a guerra dos deuses em meio a menções de prédios, cartas, desespero, amores e o ato da escrita em si, em um convocar do recluso após a exaustão das relações sociais.

O repertório de imagens, logo, é um elemento comum da escrita do autor, o que podemos dizer, também, que muitos de seus poemas não devem ser lidos de forma rápida, frenética.

Afinal, se Giesta trabalha justamente com o toque imagético, perder cada verso seria quase uma infâmia, em termos aqui colocados para dialogar com o mundo metafísico entre céu e inferno que o poeta cria; seria o caos da mente humana assim colocado em metáfora?

Por mais que tenha apreço por determinadas palavras que ou são iguais, se repetem, ou carreguem semelhanças, como “fragmento”, sua lírica não funciona em versos avulsos; é impossível ler Guilherme sem passar pela reflexão de que o poema é constituído por uma história. Se o escritor provoca esse mosaico desde o diálogo direto com o leitor e a carta ao camarada, a exatidão com que Giesta realiza o traçar do caminho, digamos, esburacado, é ponto alto do livro.

Talvez seja novamente esse flaneur errático, indiferente a nada, que continua na página em branco, a postos para não sucumbir (novamente).

 

Lorraine Ramos Assis é socióloga e crítica literária. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais como Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). Colabora para São Paulo Review e Revista Caliban, além de integrar o corpo de poetas do portal Faziapoesia. Pesquisa sociologia da literatura e gênero, em particular violência contra a mulher.

Leia mais sobre o tema: