Apoiar a Grécia - Le Monde Diplomatique

CONTRA A AUSTERIDADE PERPÉTUA

Apoiar a Grécia

por Serge Halimi
5 de março de 2015
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Respaldada pela maior parte das capitais europeias, a Alemanha não aceita a chegada ao poder em Atenas de um governo de esquerda que quer aplicar seu programa. Ela pretende utilizar seu domínio econômico e financeiro para forçar a Grécia a manter o rumo de uma política de austeridade que a arruinouSerge Halimi


Não é preciso explicar aos gregos o significado do termo “democracia”. No entanto, as lições chovem sobre sua cabeça desde que eles colocaram no poder uma força de esquerda decidida a virar as costas às políticas de austeridade que há seis anos os atormentam. As admoestações são ministradas por professores que sabem do que estão falando: já impuseram a seus povos tratados rejeitados pelo sufrágio popular e negaram seus compromissos de campanha tão logo ganharam as eleições. A partir de agora, uma prova de força os opõe àqueles que procuram manter aquilo que prometeram e no que creem. A disputa será ainda mais rude pelo fato de que estes últimos poderão difundir para terceiros, até então resignados à impotência, ideias de resistência. Para além da sorte da Grécia, esse enfrentamento envolve o destino da democracia europeia.1

Tão logo se ficou sabendo da vitória do Syriza, todos pareceram ter chegado a um acordo no Velho Continente. De modo arrogante, Berlim – mas também Madri, Haia, Lisboa e Helsinque – explicou que a alternância política em Atenas não mudava nada, já que a política rejeitada pelos gregos deveria ser seguida. Com um tom mais adocicado, sussurrava-se a mesma coisa em Roma, Bruxelas e Paris: “É preciso”, arriscou, por exemplo, o ministro das Relações Exteriores francês, Laurent Fabius, “conciliar o respeito ao voto do eleitor e o respeito aos compromissos da Grécia em matéria de reforma”. No entanto, todos os governos da União Europeia parecem só se preocupar com o segundo termo da equação. E ficam embaraçados quando Alexis Tsipras insiste em lembrar o primeiro.

Ainda que isolado no seio da União Europeia, submetido à perseguição de seus credores e confrontado com contas que se degradam, o Syriza se empenha de fato em reabilitar palavras tornadas insólitas na vida democrática, como “soberania”, “dignidade”, “orgulho”, “esperança”. Mas como ele pode chegar a isso numa situação de aflição financeira permanente na qual, negociação após negociação, a Grécia se afunda mais? E como se resignar ainda mais dolorosamente quando os instrumentos destinados a amordaçar a vontade de um povo indócil são exibidos aos olhos de todos, e aqueles que o atormentam se deliciam a cada vez que detalham a última de suas façanhas?

Tsipras entendeu: espera-se que ele capitule de ponta a ponta. Porque, a partir do momento em que reage e mobiliza o entusiasmo da população, ele desafia uma ordem política e sua camisa de força, pondo de cabeça para baixo os hábitos políticos mais consagrados. Afinal, François Hollande não precisou de mais de 24 horas para ir até Berlim, pisar em suas promessas de campanha – a renegociação do pacto de estabilidade europeu, o combate contra seu “verdadeiro adversário”, o mundo financeiro – e endossar sem reação a política de seu predecessor.

Menos de dez dias após a vitória do Syriza, os diretores de bancos centrais da zona do euro enviavam sua primeira onda punitiva, privando subitamente os bancos gregos de seu principal canal de financiamento. Era um meio de eles obrigarem Atenas a negociar com urgência um acordo com seus credores, essencialmente os Estados europeus e o FMI, e retomar o programa de austeridade no ponto em que o governo anterior havia deixado. Hollande logo julgou “legítima” a demonstração de força do Banco Central Europeu (BCE). Assim como o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi. Se nunca sabemos onde está o presidente francês, pelo menos compreendemos onde ele não está: com o povo grego.

Enquanto o arrocho europeu aumenta e os mercados financeiros acentuam sua pressão sobre o governo de Atenas, os termos do jogo se tornam terrivelmente claros. A Grécia está submetida a um diktat. Em troca dos financiamentos de que ela necessita, deseja-se que assuma imediatamente uma avalanche de exigências dogmáticas e ineficazes, todas contrárias ao programa de seu governo: reduzir uma vez mais as aposentadorias e os salários, aumentar ainda mais a taxa do imposto de valor agregado (TVA, que incide sobre o consumo), começar a privatização de catorze aeroportos, enfraquecer ainda mais o poder de negociação dos sindicatos, alocar os excedentes orçamentários crescentes para o pagamento de seus credores enquanto a agonia humanitária de seu povo é imensa. “Os ministros [do Eurogrupo]”, esclareceu Pierre Moscovici, comissário europeu de assuntos econômicos, “estavam todos de acordo sobre o fato de que não existe alternativa para o pedido de uma extensão do programa atual.” Antes de repetir o célebre slogan de Margaret Thatcher, Moscovici, lembrando-se talvez de que era membro de um partido socialista, preocupou-se em explicar: “O que nós queremos é ajudar o povo grego”.2 Ajudá-lo, mas proibindo-o de se desviar da política de austeridade que o arruinou.

A Grécia, sublinha seu ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, está “determinada a não ser tratada como uma colônia da dívida cujo destino é sofrer”.3 A questão ultrapassa, assim, o direito do povo de escolher seu destino, ainda mais quando um árbitro das elegâncias democráticas tão delicado quanto o ministro das finanças alemão, Wolfgang Schäuble, considera que esse povo “elegeu um governo que age de maneira um pouco irresponsável”.4 A questão colocada trata também da possibilidade de um Estado de sair com grande esforço de estratégias destrutivas, em vez de ter de endurecer a cada vez que elas fracass

Os 27 assassinos da esperança

Desde que as instituições europeias escolheram a Grécia e submeteram a economia mais enfraquecida da União Europeia à política de austeridade mais rigorosa, em que balanço eles podem se apoiar? Aquele que se podia esperar e que foi, aliás, anunciado: uma dívida que não para de inchar, um poder de compra que entra em colapso, um crescimento sem vitalidade, uma taxa de desemprego que vai às alturas, um estado sanitário degradado. Mas pouco importa, o gramofone europeu não para de repetir: “A Grécia deve respeitar seus compromissos!” (ler artigo na página a seguir). Esclerosada em suas certezas, a Santa Aliança recusou-se até a ouvir o presidente dos Estados Unidos quando ele explicou, encorajado em sua análise por um exército de economistas e historiadores: “Não se pode continuar a pressionar países em depressão. Num dado momento, é preciso uma estratégia de crescimento para poder pagar as dívidas”.5

O colapso econômico que a Grécia sofreu há seis anos é comparável àquele que quatro anos de destruições militares e uma ocupação estrangeira infligiram à França durante a Primeira Guerra Mundial.6 Compreende-se então que o governo de Tsipras desfrute, inclusive à direita, um enorme apoio popular quando ele se recusa a prolongar uma política tão calamitosa. E a se resignar a sobreviver “como um drogado que espera sua próxima dose”.7 Infelizmente, o Syriza tem menos apoios em outros lugares. Um pouco à maneira do romance de Agatha Christie, Assassinato no Expresso Oriente, fazer uma investigação sobre os assassinos potenciais da esperança grega obrigaria a interrogar a totalidade dos governos europeus. Porque, no caso da Alemanha, as regras disciplinares que fracassaram são as dela, e ela pretende esmagar os povos que se recusam a sofrê-las indefinidamente, sobretudo quando eles são mediterrâneos.8 No caso da Espanha, de Portugal e da Irlanda, o que a move é ainda mais sórdido. As populações desses Estados teriam todo interesse em que a mão de ferro da austeridade cessasse por fim de reduzi-las a pó. Mas seus governos têm medo, em particular quando entre eles uma força de esquerda os ameaça, quando um Estado demonstra enfim que é possível recusar-se a tomar o “caminho balizado, um caminho conhecido, um caminho conhecido dos mercados, como instituições e do conjunto das autoridades europeias”, aquele mesmo que Michel Sapin, ministro das Finanças francês, continua a querer que seja “explorado até o fim”.9 Porque isso seria demonstrar que esses governos incorrem em erro ao fazer sofrer o povo.

Todos sabem que a dívida grega jamais será paga a não ser que seja preciso chegar a “tirar leite de pedra”. Como não compreender também que a estratégia econômica do Syriza, que consiste em financiar despesas sociais graças a uma luta contra a fraude fiscal, possa enfim se apoiar numa jovem força política, popular, determinada, desembaraçada dos compromissos do passado? Na falta de ser “balizada”, a via está, portanto, traçada. E o futuro faz pensar naquilo que escrevia a filósofa Simone Weil a propósito das greves operárias de junho de 1936 na França: “Ninguém sabe como as coisas vão acontecer. […] Mas nenhum temor apaga a alegria de ver aqueles que sempre, por definição, abaixam a cabeça erguê-la. […] Eles se afirmaram, afinal. Eles finalmente fizeram que seus patrões sentissem que eles existiam. […] Seja o que for que aconteça na sequência, sempre teremos tido isso. Enfim, pela primeira vez, e para sempre, flutuarão em torno dessas pesadas máquinas outras lembranças que não o silêncio, o constrangimento, a submissão”.10 O combate dos gregos é universal. Não basta apenas que nossos votos os acompanhem. A solidariedade que eles merecem deve se exprimir na Europa e em outros lugares. O tempo está se esgotando.

 

Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).



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