Arábia Saudita, frágil solução - Le Monde Diplomatique

PETRÓLEO

Arábia Saudita, frágil solução

por Michael T. Klare
1 de abril de 2006
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As reservas sauditas, grande esperança dos Estados Unidos para atender à crescente demanda por petróleo, estão mais perto do esgotamento do que se imaginaMichael T. Klare

Enquanto nos Estados Unidos e em outros países a apreensão sobre a disponibilidade futura do petróleo aumenta, na comunidade global de peritos de energia houve um racha, formando dois campos: o dos otimistas, que acreditam que a abundância será a regra por muitos anos ainda, e o dos pessimistas, que consideram que as fontes de petróleo tornar-se-ão cada vez mais escassas. Ambos concordam, contudo, que a Arábia Saudita – primeiro produtor mundial – desempenhará um papel essencial. Para os otimistas, o reino saudita continuará a aumentar sua produção no ritmo da demanda; para os pessimistas, esse país logo verá suas reservas petroleiras declinar, eliminando conseqüentemente qualquer esperança de aumentar o abastecimento de petróleo no planeta. Antes de especular sobre o futuro do abastecimento mundial, é necessário examinar com cuidado o caso da Arábia Saudita.

Nem é preciso demonstrar a importância desse país para a economia petroleira. Não é apenas o primeiro produtor e exportador de óleo bruto, mas é o único fornecedor que dispõe de uma importante capacidade em reserva que lhe permite aumentar rapidamente a produção em caso de crise. Essa particularidade teve importância decisiva em 1990, quando o Iraque invadiu o Kuwait e a produção dos dois países desapareceu do mercado. Com o rápido aumento da produção, a Arábia Saudita preveniu um novo “choque do petróleo” como o que se seguiu ao embargo árabe de 1973-74 e à revolução iraniana de 1979-1980.

A Arábia Saudita – primeiro produtor mundial – desempenhará um papel essencial no futuro do petróleo no mundo

País-chaves

Dada a capacidade única de poder aumentar a produção em caso de crise, a Arábia Saudita há muito tempo é vista em Washington como um elemento-chave da segurança energética dos Estados Unidos. Assim, quando o preço do produto bruto começou sua ascensão meteórica na primavera de 2005, o primeiro gesto do presidente Bush foi receber o príncipe herdeiro Abdallah (tornado rei depois) no seu rancho do Texas para suplicar-lhe aumentar a produção do seu país. “O príncipe herdeiro compreende a importância de manter um preço razoável”, declarou George Bush à imprensa antes do encontro com Abdalhah [1]. À saída da reunião, o príncipe prometeu aumentar a produção saudita, informou seu porta-voz, que acrescentou: “Eis algo que certamente ajudará a queda” do preço do petróleo [2]. Embora as promessas de Abdallah não tenham até agora provocado nenhuma baixa sensível, Washington continua a fazer pressão sobre Riyad para que os sauditas aumentem a produção.

Tão importante quanto esse papel de produtor auxiliar (swing producer) no caso de crise, a questão do futuro do petróleo saudita é mais decisiva ainda. “Com um quarto das reservas mundiais provadas” – afirmou em 2004 o ministério americano da Energia -, “a Arábia Saudita provavelmente será o principal exportador do mundo num futuro previsível” [3]. Todas as estimativas publicadas por esse ministério prevêem que a produção saudita aumentará constantemente durante os próximos anos e que o reino terá papel essencial na satisfação do desejo planetário de ouro negro. O reino saudita deverá contribuir sozinho com mais de um quarto do crescimento do abastecimento mundial entre 2001 e 2025.

Para estimar um valor exato do papel atribuído ao reino saudita, podem-se citar as projeções anuais publicadas pelo ministério americano da energia sobre o futuro da oferta e da procura. Em 2004, o ministério previu que a demanda mundial aumentaria em 57%, entre 2001 e 2025, passando de 77 milhões para 121 milhões de barris por dia (bpd). Para responder a esse aumento da demanda, a produção saudita deveria crescer 120% durante o período, passando de 10,2 milhões para 22,5 milhões bpd. Trata-se de uma taxa de crescimento incomum, considerando-se aquela que se espera dos outros países ou grupos de países produtores. A Rússia e as antigas repúblicas soviéticas do mar Cáspio se aproximariam mais, com aumento esperado de 8,5 milhões bpd entre 2001 e 2025. Para o Irã, o Iraque e o Kuwait, o aumento esperado seria de 7,6 milhões bpd, enquanto no principal produtor africano, a Nigéria, supõe-se ganhar apenas 1,6 milhão. Na maior parte das outras regiões do mundo, o ministério americano previu estagnação ou declínio da produção, de modo que a contribuição saudita prevista, de 12,3 milhões bpd, é absolutamente essencial para satisfazer a demanda mundial [4].

Dada a capacidade de aumentar a produção em caso de crise, a Arábia Saudita é vista nos EUA como chave para a segurança energética do país

Polêmica explosiva

Mas a Arábia Saudita está realmente em condições de aumentar sua produção para 12,3 milhões de bpd em 25 anos, ou qualquer quantia que seja? Aí está a pergunta que incomoda os analistas mundiais. A polêmica explodiu em fevereiro de 2004, quando o New York Times assinalou que numerosos analistas chegaram à conclusão que os principais campos petrolíferos sauditas estão mais perto do esgotamento do que geralmente se supõe. Coloca-se em dúvida a capacidade do reino de aumentar sua produção para além do nível atual de 9 a 10 milhões bpd. Se a produção saudita seguisse a demanda internacional, afirma o jornal nova-iorquino, “os campos petrolíferos do país hoje estariam em declínio, de modo que os responsáveis da indústria e do governo se perguntam: o reino estará em condições de satisfazer o desejo mundial de petróleo nos próximos anos?” [5].

Inútil dizer que o artigo suscitou cólera e apreensão em Riyad. Nos dias seguintes, Mahmoud Abdoul-Baqi, vice-presidente da Aramco e responsável pela prospecção da Saudi Aramco, assegurou: “Temos capacidade de pôr no mercado mais petróleo que qualquer outro(…) Continuaremos a fornecer petróleo durante pelo menos 70 anos” [6]. O ministro do petróleo, Ali Al-Naimi, mostrou-se ainda mais afirmativo [7]: se a demanda internacional continuar a aumentar, “estaremos em condições de satisfazê-la”.

Essas promessas foram retomadas pelos responsáveis americanos. Assim, no Internacional Energy Outlook de 2004, o ministério americano da energia afirmou que os responsáveis sauditas “têm confiança na sua capacidade de manter níveis de produção sensivelmente mais elevados até a metade do século ou além [8]”.

A maior parte dos principais campos petrolíferos sauditas já entrou em declínio e será impossível aumentar a produção nos próximos anos

Crepúsculo no deserto

Mas isso não pôs um fim à controvérsia. Em maio de 2005, um banqueiro de Houston, Matthew R.Simmons, publicou um livro que teve o efeito de uma bomba, Twilight in the Desert: The Coming Saudi Oleo Shock and the World Economy (Crepúsculo no deserto: a futura crise petrolífera saudita e a economia mundial). Simmons afirma categórico que a maior parte dos principais campos petrolíferos sauditas já entrou em declínio e que, portanto, será impossível aumentar a produção nos próximos anos. “É pouco provável que a Arábia Saudita esteja em condições de entregar as quantidades de petróleo que se espera dela”, afirma. “A produção saudita aproxima-se do pico de produção durável… e está suscetível de entrar em declínio num futuro próximo” [9].

Matthew (“Matt”) Simmons não é, no entanto, nem um ecologista militante nem um adversário das companhias petroleiras. Presidente e diretor geral de um dos bancos de investimento petroleiro mais importantes do mundo, o Simmons & Company Internacional, investe, há décadas, bilhões no setor energético e financia a prospecção e o desenvolvimento de novas reservas de petróleo no mundo inteiro. Assim, ficou amigo de numerosas personalidades de primeiro plano nos meios petroleiros, incluindo George W. Bush e seu vice-presidente, Richard Cheney. Acumulou igualmente uma vasta quantidade de dados relativos aos principais campos petrolíferos do planeta e é, certamente, uma das pessoas melhor informadas sobre esse assunto no mundo. É por isso que a sua avaliação pessimista deve ser considerada seriamente.

Essencialmente, os argumentos de Simmons abrangem quatro pontos:

1) a maior parte do petróleo saudita é extraída de um pequeno número de campos gigantescos;
2) esses campos iniciaram a exploração há 40 ou 50 anos e para a maior parte deles não há mais petróleo fácil de extrair;
3) para manter níveis de produção elevados nesses quatro ou cinco jazigos, os sauditas recorrem cada vez mais à injeção hidráulica e de outros métodos de recuperação secundária a fim de compensar a queda de pressão nos poços;
4) com o tempo, a proporção água/petróleo nos jazigos subterrâneos tornará a exploração difícil, senão impossível.

Apesar de os sauditas insistirem na capacidade de aumento da produção, cada vez menos os especialistas acreditam nela

Promessa sem futuro

Twilight in the Desert não é um livro fácil de ler. Trata-se de uma descrição detalhada da imensa infra-estrutura petrolífera do reino saudita, a partir de documentos de serviço, essencialmente redigidos por técnicos sauditas, e trata dos diversos aspectos da produção em cada campo. Há muito da questão do envelhecimento dos jazigos e o emprego cada vez mais freqüente da injeção de água para manter a pressão subterrânea – técnica que pode conduzir à deterioração das reservas cuja exploração não foi iniciada. Baseando-se nesses estudos técnicos, Simmons está em condições de mostrar que os campos sauditas mais importantes estão rapidamente se aproximando do fim da vida produtiva.

Eis porque aborreceu e preocupou ao mesmo tempo os responsáveis sauditas. Em um colóquio em Washington, o ministro do petróleo Al-Naimi contestou as alegações de Simmons e continuou a afirmar que o seu país é completamente capaz de aumentar a produção em resposta à demanda mundial. “Venho tranqüilizá-los solenemente: as reservas sauditas são ricas e estamos prontos para aumentar a nossa produção de acordo com as exigências do mercado”, declarou em 17 de maio de 2005. Em uma reunião em Paris, Al-Naimi comunicou o projeto de aumentar o nível de produção de 10 para 12 milhões bpd e ainda mais – até 15 milhões se necessário – se a demanda mundial continuar a aumentar [10].

Dessa vez, no entanto, constatou-se maior ceticismo dos peritos. Muitos analistas notaram que o petróleo suplementar atualmente extraído na Arábia Saudita tem elevado teor de enxofre. Tomando a palavra durante um encontro Bush-Abdalhah no Texas, Jason Schenker, da Wachovia Corporation, observou: “Nenhuma mudança substancial sairá desta reunião” [11].

Em nenhum momento a discussão atingiu outro fator importante, o impacto eventual do contexto político na produção saudita

Política interna

O indicativo mais significativo dessa evolução das percepções apareceu no Internacional Energy Outlook de julho de 2005. É necessário lembrar que, no ano anterior, essa publicação havia previsto aumento da produção saudita de 12,3 milhões bpd durante o primeiro quarto deste século, para um total de 22,5 milhões bpd em 2025 [12]. Em 2005, ao contrário, viu-se apenas um aumento de 6,1 milhões bpd para uma produção total que atingirá apenas 16,3 milhões bpd em 2025 – uma queda considerável em relação aos números de um ano atrás. Nenhuma explicação a essa reversão foi fornecida, mas supõe-se que as análises de Simmons e de outros céticos começaram a alterar o pensamento oficial em Washington.

É provável que as previsões do ministério para 2025 vão se revelar ridiculamente otimistas. O mesmo Al-Naimi, em seus desabafos volúveis, nunca se comprometeu explicitamente em exceder os 12 milhões bpd. E se Simmons tem razão, mesmo este nível poderia revelar-se fora de alcance.

Em nenhum momento essa discussão atingiu outro fator importante, o impacto eventual do contexto político na produção saudita. Uma perturbação como a que se produziu quando da queda do xá do Irã em 1978-1979 provocaria certamente uma queda da produção, podendo durar vários anos. Um ataque terrorista d

Michael T. Klare é professor de Relações Internacionais no Hampshire College e autor de Rising Powers, Shrinking Planet: The New Geopolitics of Energy (Metropolitan Books, 2008).



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