RESENHA

Armonía Somers e a reinvenção do corpo feminino

Mais de setenta anos depois do lançamento do original no Uruguai, o Brasil recebe a obra de Somers, A mulher nua, em um momento crítico. Nos últimos anos, o país tem registrado números recordes de feminicídios e agressões sexuais contra mulheres 

À meia-noite, no trigésimo aniversário que chegou como um “tedioso dia de verão”, Rebeca Linke se despe e começa a vaguear nua pela casa de campo que acabara de adquirir. Sentindo-se, pela primeira vez, livre de amarras, ela toma uma adaga e decepa a própria cabeça, deixando-a rolar como um fruto pesado. É com esse gesto, chocante e difícil de sustentar como imagem, que se abre A mulher nua, romance publicado originalmente em 1950, na Revista Clima, Uruguai, e agora disponível ao leitor brasileiro em tradução de Mariana Sanchez, com capa e projeto gráfico de Ana C. Bahia e arte de Efe Godoy, pela Relicário Edições. 

Crédito: Divulgação

Como esperado, o lançamento na época causou grande escândalo. A ousadia do texto era tão desconcertante que a própria autoria virou enigma: muitos supunham que tratava de um coletivo ou, sobretudo, de um homem. Era impensável, aos olhos da sociedade uruguaia de então, que uma mulher escrevesse com tamanha liberdade, misturada a fortes pinceladas de horror. Por trás do livro estava Armonía Liropeya Etchepare Locino, pedagoga nascida em Pando, Uruguai, em 1914, que se refugiou no pseudônimo Armonía Somers, provavelmente como escudo contra a censura de uma sociedade acostumada a podar o que escapava dos limites. Os poucos dados biográficos que restam dela, aliás, se confundem com as lendas que a própria autora teceu sobre si própria. 

Para entender a violência e a paradoxal lucidez desse gesto inaugural, vale recorrer a três pensadores que, cada um a seu modo e tempo, teorizaram a relação entre corpo e norma. Em Crepúsculo dos Ídolos (1889), Nietzsche recorre ao mito de Procusto, o bandido da Ática que levava os viajantes a pernoitar num leito de ferro: quem excedia a medida era mutilado, quem não a alcançava era torturado até o alongamento. A história funciona como motor para a crítica nietzscheana a uma moral ajusta os indivíduos a um tamanho “ideal”, ainda que, para isso, seja preciso amputar o “corpo-identidade” e suas pulsões naturais. 

Por sua vez, Michel Foucault leva essas concepções ao campo da sexualidade: para ele, as práticas humanas não decorrem de uma natureza dada, mas de discursos e regimes de verdade que definem, historicamente, o que será reconhecido como normal, desviante ou saudável. O poder não opera apenas pela proibição, mas por saberes e formas de subjetivação que moldam a própria textura de nossos corpos e afetos, enclausurando sujeitos em princípios antinaturais. Já Rita Laura Segato, em La guerra contra las mujeres (2016), acrescenta às noções de Nietzsche e Foucault que essa engrenagem normativa nunca foi igualitária: tem o gênero como “eixo de gravidade de todos os edifícios do poder”, e a violência da moral historicamente constituída se inscreve de modo assimétrico nos corpos, sendo os femininos seus alvos preferidos. 

É esse arcabouço teórico que permite ler o gesto de Rebeca como algo além de um horror gratuito que precisaríamos tolerar em vão. A personagem e sua trajetória também revisitam Procusto, mas o desconstroem à sua maneira: em vez de vítima da norma, antecipa-a e a desmonta, transformando a mutilação em fundação de um território existencial novo. A decapitação parece menos um fim do que um começo, menos uma destruição do que uma desobediência criadora. 

Ao longo do romance, Rebeca resgata fragmentos do próprio eu como quem sabe que o todo é feito de partes: células, tecidos, órgãos, sistemas, todos contidos num “corpo-identidade” que só pode existir nessa pluralidade. O corpo está em todas as suas partes, e há presença do todo em cada órgão, mas é pela fração que essa identidade corporal se constitui e mobiliza as energias de sua autonomia, reivindicando compreensão a partir do fragmento (aqui, não por acaso, a cabeça, órgão que controla as funções vitais). 

A tradução brasileira opera cooperando para que tenhamos essa leitura. O desafio de Mariana Sanchez estava em preservar os registros variados do original: do cotidiano ao poético, do sensual ao grotesco, o hilário ao sinistro. A prosa de Somers não é linear, muito menos homogênea. Mesmo assim, mantém-se em português essa tensão entre a fluidez descritiva e a secura dos momentos de violência, entre o lirismo das passagens oníricas e a crueza dos atos brutais, e é em grande medida essa flutuação de registros que confere à obra sua potência perturbadora. Há ainda uma escolha significativa diante da densa teia intertextual que atravessa o romance: referências bíblicas, mitológicas e literárias surgem sem aviso, como se o texto presumisse um leitor já iniciado. Mantidas sem notas explicativas, essas alusões preservam em português a opacidade deliberada do original. O leitor é levado a construir sentido por associação, a reconhecer ecos sem que o texto lhe ofereça de antemão as chaves para decifrá-los. Nesse sentido, a própria tradução reproduz o movimento que está no centro do romance: desestabilizar o que parecia dado para, a partir dos fragmentos, produzir novas relações. 

O nome da personagem não parece ser casual. Rebeca, cujo significado em hebraico remete à ideia de união ou laço. Na mesma senda, o sobrenome, Linke, remete a link, ligação, em inglês, e pode ser lido como o elo entre mulheres de uma vasta intertextualidade: Semíramis, Maria Madalena, Eva e tantas outras. Cada uma tem uma carga moral dramática, marcada pela transgressão, pela culpa ou pelo silenciamento. Rebeca, num gesto drástico, rompe com esses arquétipos, convoca-os e, ao mesmo tempo, corta o “rosário” de mulheres que a precedem. Vale destacar também que não existe versão masculina para seu nome, e isso tampouco parece ser casual: sua jornada é intransferível, íntima e exposta simultaneamente, um ritual que só pode ser vivido por um corpo feminino. Ao cortar a própria cabeça, sede das histórias, regras e imposições que a ligam a essa linhagem, Rebeca opera uma dupla ruptura, tanto com as mulheres dos mitos históricos e religiosos quanto com os desfechos trágicos sentenciados a cada uma delas. Decapitar-se é, assim, afirmação de pertencimento e alteração da ordem estabelecida à força. 

Aliás, sobre este ponto, em vários momentos a jornada de Rebeca desarticula o que se apresenta como ordem biológica natural. A cabeça decapitada é comparada a um fruto pesado que amadurece, cai, apodrece e depois brota como flor. A metamorfose sugere uma alteração do que a natureza impõe à mulher: o ciclo reprodutivo, a maternidade, a senescência e o subsequente descarte social do corpo. Ao transformar o corte em germinação, Rebeca reivindica uma biologia alternativa, uma temporalidade que não pretende seguir aquilo que se impôs como único destino possível. 

Por fim, a mulher, neste romance, ora é desejo, ora provoca revolta nas figuras masculinas que encontra por suas andanças. E eles muitas vezes não hesitam em usar armas próprias, como a violência sexual, ou ferramentas cotidianas, qualquer coisa pungente, para contê-la ou destruí-la. É nesse ponto que o romance inverte outro mito, o da Gradiva de Jensen: Norbert não se casa com uma curadora compreensiva nem parte em busca da mulher ideal, tanto que a destrói quando ela lhe escapa. A Gradiva, que era a figura a ser admirada ou interpretada, torna-se aqui um alvo de aniquilação. O ataque masculino deixa de ser acidente, anomalia ou exceção para se tornar a própria estrutura da relação. 

Mais de setenta anos depois do lançamento do original no Uruguai, o Brasil recebe a obra de Somers em um momento crítico. Nos últimos anos, o país tem registrado números recordes de feminicídios e de agressões sexuais contra mulheres, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O dado não ilustra o romance de fora: confirma, na estatística fria, o que esta ficção trouxe à tona: a corporeidade feminina foi e segue sendo um campo de batalha, longe de ser um resíduo do passado, mas uma estrutura que vem em ondas intermitentes. É por isso que A mulher nua não é uma obra datada, mas um espelho que devolve ao leitor de hoje uma imagem de si mesmo. Talvez esse seja o ponto mais perturbador do livro: o que deveria pertencer a uma época passada se revela aterradoramente atual. 

 

Fedra Rodríguez, nascida em Curitiba, em 7 de março de 1978, é tradutora, crítica de arte e escritora. Possui doutorado em Estudos da Tradução e atua no campo da literatura e da cultura desde 2006, com mais de 30 obras traduzidas, além de livros e artigos publicados em diversos veículos e países. Entre suas conquistas, destaca-se o 65º Prêmio Jabuti de Melhor Tradução (2023), obtido junto ao Coletivo Finnegans (Editora Iluminuras), pela tradução de Finnegans Wake, de James Joyce. Atualmente, é colaboradora em diversos jornais brasileiros e participa das atividades da Fundación PROA de Buenos Aires. 

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