Aruká Juma: a morte de um povo - Le Monde Diplomatique

A era do necroceno

Aruká Juma: a morte de um povo

por Renan Pinna
5 de março de 2021
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Se aliar aos povos indígenas, não somente na solidariedade pela dor dos parentes que morrem, mas também no aprendizado dos seus conhecimentos, se faz ainda mais urgente em tempos de necroceno

Muitos de nós ainda não tínhamos escutado falar do povo Juma até semana passada, quando o último ancião do seu povo, Aruká Juma, veio a falecer por complicações da covid-19, o que na prática significa a extinção do seu povo. Os Juma, moradores da Terra Indígena Juma, em Roraima, eram 15 mil pessoas no começo do século XVIII, e se tornaram apenas 5 pessoas no começo do século XXI, segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), restando na década de 60 apenas os sobreviventes do último massacre que vitimou mais de 60 indígenas, entre eles, Aruká Juma, desde então foram drasticamente reduzidos a sua família.

Essa morte, no entanto, não se trata de mais um episódio que evidenciaria a negligência em relação à saúde dos indígenas, mas sim, o sistemático etnocídio ao qual os povos indígenas são submetidos, historicamente, pelo poder do Estado. Para aqueles sensíveis às causas indígenas, parceiros e aliados da luta pela recuperação dos territórios tradicionais, essa morte se trata de mais um capítulo do que os povos indígenas sempre passaram. Porém, no último ano as coisas se agravaram com a emergência mundial do novo coronavírus e, ainda que os indígenas tenham resistido por anos em situação bem semelhante, o que vemos se trata de uma verdadeira “era da morte”, que assola a todos, contudo, com mais ênfase aos povos indígenas no Brasil.

Aruka Juma (Crédito: Gabriel Uchida)

Em uma conversa com um chamõi – nome dado aos anciãos do povo Guarani, com quem há anos desenvolvo pesquisa na área da etnologia -, ele me explicou como o humano surgiu no mundo e como, com a sua morte, retorna a mesma matéria com que foi feito pelos deuses. Segundo essa versão colhida entre os Avá Guarani, que vivem no oeste do Paraná, a pessoa foi criada a partir da terra, sendo o corpo de todo humano, em suma, terra. Após a sua morte, ao ser enterrado, o corpo retorna ao seu estado de origem, se materializando e misturando na própria terra, aquilo que seria denominado como mbae tete, corpo terrificado.

Interessante notar o desenvolvimento desta interpretação da morte relacionado ao futuro, cada vez mais próximo, e há bastante anunciado, fim deste mundo. Segundo contam os rezadores, esse corpo que se mistura a terra teria a mesma qualidade de um fermento quando em contato com a massa do bolo, quanto mais fermento, mais a massa tende a crescer. E assim acontece também com o nosso mundo, quanto mais corpos são enterrados, mais a terra se eleva e cresce em direção ao sol. Nessa perspectiva, o que nós, não negacionistas da crise climática, compreendemos enquanto aquecimento do sol, para eles, se trata de uma elevação da própria terra. O próprio chamõi, em nossa conversa, arriscou fazer um cálculo próprio, de quanto a terra já cresceu com tantas mortes na humanidade. Cálculo que inflacionou bastante no Brasil da gestão de Jair Bolsonaro, responsável pelas políticas de destruição e genocídio que tem impulsionado o necroceno.

A partir dessa leitura de mundo, os Ava Guarani nos atentam para o cuidado e o valor que devemos dar à vida das pessoas para que possamos, ao mesmo tempo, cuidar da nossa terra. Nesse caso, não há causa e efeito nisso, uma está diretamente relacionada e articulada com a outra, ou seja, há uma interdependência. Já bastante atordoado com nosso presente, o perguntei qual seria a saída, o que poderíamos fazer para evitar a elevação da terra. Sem hesitar, ele disse que, a única coisa que evitaria o ritmo acelerado com que a terra vem subindo em direção ao sol, são as raízes das árvores, que, de tão fortes, seguram a terra para baixo, mantendo assim, a terra na terra. Isso explicaria o porquê a terra cresceu tanto no último século, já que a maior parte da Mata Atlântica, que cobria o território tradicional Guarani, foi quase completamente devastada, e o pouco que restou, os Guarani não têm acesso. Sendo assim, a elevação da terra se trata de um etnocídio e um ecocídio. Nessa visão de mundo, as pessoas são tão importantes quanto as florestas para manter o equilíbrio da terra. Poderíamos elencar outras perspectivas dos povos originários, como as dos Yanomami, Munduruku, Krenak, e dos próprios Juma, entre outras etnias que utilizam uma linguagem própria de estar no mundo. A decadência dos humanos está nos levando ao fim de toda forma de vida.

Neste estado das coisas, o futuro se mostra inevitavelmente pessimista. A tendência, com a produção desenfreada de mortos, é que em algum momento a terra alcance o sol, diminuindo a distância que os povos indígenas, a partir de seus modos de vida, tentam manter. O resultado será um planeta cada vez mais quente para se viver, rios e arroios secos, e uma terra mais árida, infértil, onde não há condições de se brotar mais nenhuma vida, uma terra que existirá por ela sem fim, mas inabitável.

Podemos denominar isso como sendo a era do necroceno, na qual a promoção de morte de seres e florestas impulsionam a crise climática que vivemos. Nessa visão, as mortes geram mais mortes, não tendo uma distinção entre a vida das pessoas e as das florestas, estando as duas interdependentes. São muitos os exemplos que mostram a aceleração colonialista do fim do mundo, seja pela ampliação do acesso às armas – o que potencializa conflitos de terras envolvendo comunidades indígenas, além da violência estrutural que afeta principalmente as comunidades negras -, seja pela extinção de florestas e etnias indígenas que ainda nos restam neste Brasil, cada vez mais infértil para se viver. Mas aprendemos, para além de todo esse mal, que o luto pode e deve se converter em luta. Desse modo, se aliar aos povos indígenas, não somente na solidariedade pela dor dos parentes que morrem, mas também no aprendizado dos seus conhecimentos, se faz ainda mais urgente, para que assim possamos encontrar modos de reconstruir um futuro em que as vidas em suas mais variadas formas, sejam bem mais apreciadas.

 

Renan Pinna é antropólogo e escritor.



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