As cidades de São Paulo e Cali, dois corações da América Negra
Entre o concreto e a memória, São Paulo e Cali revelam a geografia racial da pobreza e a potência criadora das periferias negras latino-americanas
Nasci na periferia de São Paulo, no bairro da Brasilândia, filha de migrantes nordestinos que deixaram o sertão em busca de vida digna. Meu pai, homem negro vindo de Juazeiro do Norte, cresceu entre o barro e o rio, em um cotidiano marcado pela ausência de escola e pela necessidade de trabalhar desde a infância. Minha mãe, nascida em Garanhuns, aprendeu cedo a trocar o estudo pela sobrevivência, colhendo macela ao amanhecer para garantir o sustento da família. Suas histórias, atravessadas pela fome e pelo trabalho precoce, ecoam as trajetórias de tantas mulheres e homens latino-americanos que transformaram a carência em resistência. Foi a partir dessas memórias – e da experiência de uma infância vivida nas margens – que aprendi a olhar o mundo e a compreender que a pobreza, mais do que um destino individual, é uma construção histórica e social.
Quando cheguei a Cali, em março de 2024, reconheci nas ruas algo que me era familiar. Na Galería Alameda, uma mulher afrocolombiana descascava chontaduro sob o sol de domingo. O gesto simples – mãos negras transformando o fruto em alimento, temperado com sal e mel – condensava séculos de memória e saber. Nesse instante compreendi que, nas periferias de Cali e de São Paulo, a comida é mais que sustento: é uma forma de linguagem e de resistência. O sancocho preparado nas cozinhas caleñas e o pastel, o caldo de cana, a cocada das feiras paulistanas narram a mesma história de luta e continuidade, construída por mulheres vulnerabilizadas que alimentam, curam e reinventam a vida com o que dispõem. Nesses sabores, o cotidiano se transforma em território de sobrevivência e de liberdade – uma tecnologia social ancestral que resiste à fome e à exclusão.
No Brasil, as mulheres negras escravizadas transformaram a rua em espaço de criação e liberdade. Vender cocadas, acarajés e quitutes não era apenas sobreviver, mas afirmar existência e autonomia em meio à escravidão. Com o que arrecadavam, compravam a própria alforria de outros – gesto inaugural de uma economia da liberdade, fundada no cuidado e na solidariedade. Séculos depois, nas ruas de Cali, mulheres afrodescendentes mantêm viva essa herança ao preparar o sancocho em grandes panelas comunitárias, alimento que reúne corpos, histórias e esperanças.
Essa engenhosidade persiste nas periferias contemporâneas. Nas feiras paulistanas, nas cozinhas coletivas e nos mercados populares de Cali, o alimento segue sendo uma forma de resistência e de comunhão. Cada prato partilhado, cada receita transmitida, cada gesto de cozinhar traduz a política silenciosa de quem sustenta a vida com as próprias mãos. O cuidado, nesses territórios, não é apenas afeto: é estratégia de sobrevivência.
As mulheres que encontrei em Cali me lembraram as da Brasilândia, Jardim Elisa Maria e Itaquera: lideram associações, cultivam hortas, criam filhos e constroem redes de apoio mútuo. Em ambas as cidades, a vida cotidiana é também um campo de luta. Durante o estallido social de 2021, as mulheres negras de Cali mostraram ao mundo que a pobreza não as define, mas as convoca à resistência. Em São Paulo, cozinhas solidárias e coletivos culturais reinventam o comum e provam que o cuidado é uma forma de insurgência. Essa é a política das margens: transformar a escassez em partilha, a dor em força coletiva e o cotidiano em possibilidade de futuro.
Cali e São Paulo podem se caracterizar, em muitos aspectos, como cidades-espelho: crescem sobre feridas coloniais, mas delas brotam ritmos, saberes e formas de vida. O sal e o mel – mais que temperos – simbolizam o que significa existir nas margens e ainda produzir beleza. O sal guarda o suor das que lutam; o mel, a doçura das que, mesmo exaustas, continuam semeando esperança. Nas periferias dessas duas cidades, a vida tem o sabor agridoce do chontaduro e da jabuticaba – frutos firmes por fora, doces e resistentes por dentro, como as mulheres que os cultivam. Cada mercado, cada viela, cada rua, conservam traços de uma história negra latino-americana que se recusa a morrer.

A estrutura racializada da pobreza descrita por Milton Santos encontra expressão concreta nas grandes metrópoles latino-americanas. Em São Paulo, segundo o Censo Demográfico de 2022, 43,4% da população se identifica como negra – sendo 10,1% preta e 33,3% parda –, enquanto 54,3% se declaram branca. Em números absolutos, a capital paulista concentra o maior contingente de pessoas pretas do país, o que desmente a imagem de uma cidade majoritariamente branca e revela a centralidade da população negra em sua configuração social. No entanto, essa presença é marcada pela desigualdade territorial: o estado de São Paulo abriga 3,6 milhões de pessoas vivendo em 3.123 favelas, cerca de 22% do total nacional. Nessas áreas, a maioria dos moradores é parda (52,2%), seguida por branca (34,4%) e preta (13,2%), o que significa que os negros correspondem a 65,4% da população favelada, embora representem 43,4% da população total. O espaço urbano, assim, materializa a segregação: a cor define o acesso à moradia, à infraestrutura e à própria possibilidade de viver com dignidade (IBGE, 2022).
Em Cali, o Censo Nacional de População e Habitação de 2018, conduzido pelo DANE, registra 2.172.527 habitantes na área urbana, sendo 51,2% mulheres e 48,8% homens. A cidade abriga o maior contingente de população NARP (Negros, Afrocolombianos, Raizales e Palenqueros) da Colômbia e constitui a segunda maior concentração urbana afrodescendente da América Latina, depois de Salvador. Essa densidade demográfica não é acompanhada por igualdade de condições: a pobreza se concentra nas encostas e no distrito de Aguablanca, onde se acumularam, ao longo de décadas, os efeitos de uma urbanização excludente. A população afrodescendente, relegada às margens, convive com déficit de infraestrutura, moradias precárias e alta vulnerabilidade ambiental – sinais de uma geografia planejada da desigualdade.
A comparação entre São Paulo e Cali mostra que a segregação não é efeito colateral da modernização, mas um de seus pilares. Em ambas as cidades, o espaço urbano funciona como instrumento de gestão da pobreza: administra a distância entre o centro e a periferia, entre a abundância e a escassez, entre o privilégio e a sobrevivência. A cor da pele e o lugar de moradia seguem sendo marcadores decisivos da cidadania possível.
As periferias não são territórios da falta, mas de invenção. Nelas, mulheres negras e jovens transformam a carência em criação e o cotidiano em política. Em São Paulo, hortas comunitárias, cozinhas solidárias e coletivos culturais reinventam o comum; em Cali, o luto das juventudes negras se converte em movimento, canto e resistência. Essas experiências mostram que a pobreza não é silêncio: é campo de disputa e reconfiguração da vida.
Durante o estallido social de 2021, quando as ruas de Cali foram tomadas por vozes negras e populares, o mundo viu que a insurreição nasce onde a exclusão se naturaliza. O mesmo acontece nas periferias brasileiras, onde a ausência do Estado dá lugar a redes de cuidado, saberes compartilhados e economias do afeto.
É preciso escutar o que esses territórios dizem – não apenas sobre a dor, mas sobre as possibilidades de outros horizontes epistemológicos. Nas margens, onde o mercado exclui, nascem economias solidárias, pedagogias do cuidado e modos de existir que descolonizam o presente. Cali e São Paulo revelam que a periferia é o coração vivo da cidade. As mulheres negras, com sua força cotidiana, sustentam esse pulso. O que delas nasce – entre o sal e o mel – é mais do que resistência: é a promessa de um futuro tecido com as próprias mãos.
Yoná dos Santos é doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (PROLAM-USP) e autora da tese “O lócus fraturado da pobreza: uma crítica à feminização e à mensuração da pobreza de mulheres periféricas em São Paulo e Cali a partir de epistemologias críticas e decoloniais”.

