As ciências sociais hoje - Le Monde Diplomatique

Entrevista / Marcelo Ridenti

As ciências sociais hoje

por Maíra Kubík Mano
4 de dezembro de 2008
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Meio ambiente, cidades, justiça, violência e partidos políticos. “Se for verdade que não se propõem senão os problemas que podem ser resolvidos, estamos num bom caminho”, analisa um otimista Marcelo Ridenti acerca dos principais temas discutidos durante o 32º Encontro Anual da Anpocs

Desigualdade. De acordo com o professor Marcelo Ridenti, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, esta é uma das questões que deixam inquietos os cientistas sociais brasileiros. Para ele, trata-se de um incômodo quase óbvio, que “expressa a preocupação da sociedade brasileira – uma das mais desiguais do mundo – em romper com essa realidade”.

Sua conclusão é fruto de uma análise sobre o 32º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), organização da qual Ridenti é secretário executivo. Fundada há 31 anos, a Anpocs congrega 87 centros de pesquisa e programas de pós-graduação em antropologia, ciência política e sociologia e promove, anualmente, uma reunião acadêmica reconhecida como a mais importante da área.

Na entrevista abaixo, o professor Ridenti comenta o encontro deste ano, que ocorreu em Caxambu (MG) entre os dias 27 e 31 de outubro:

Diplomatique – Como o senhor definiria o 32º Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais?

Marcelo Ridenti – Pode-se dizer que nos encontros da Anpocs são debatidas as questões fundamentais de nosso tempo. Neste ano, houve um recorde de atividades e os temas abordados abrangeram um vasto universo: ambiente, cidades, justiça, violência, segurança pública, forças armadas, educação, saúde, cultura, instituições e partidos políticos, desenvolvimento, desigualdades, migrações, relações internacionais, religião, sociedades indígenas, sexualidade, gênero, esporte, trabalho e sindicalismo, ruralidade, teoria e pensamento social, patrimônio e museus, relações raciais e ações afirmativas e conjuntura política. Ressalto aqui também o projeto dos 20 anos da Constituição de 1988: a Anpocs realizou um simpósio especial e lançou um livro sobre este tema durante o próprio encontro.

Diplomatique – Quais foram as pesquisas que mais se destacaram neste último encontro da Anpocs?

Ridenti – É difícil apontar objetivamente alguns dentre mais de mil trabalhos expostos. Mas não vou me esquivar de dar um palpite. Para citar pesquisadores em particular, lembro dos três que deram depoimentos sobre o conjunto da obra durante o encontro: Gilberto Velho, Gabriel Cohn e Renato Ortiz – este último acaba de lançar um livro sobre o uso do inglês como idioma universal. Num universo mais abrangente, destacam-se as pesquisas que geraram o balanço dos 20 anos da “Constituição Cidadã”. E ainda o conjunto de investigações sobre as desigualdades, seja de classe, raciais, de gênero e de condições de vida nas metrópoles, entre outras que foram apresentadas sob os mais diversos ângulos em vários grupos de trabalho. A desigualdade tem sido estudada em seus aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais, o que expressa a preocupação da sociedade brasileira – uma das mais desiguais do mundo – em romper com essa realidade. Se for verdade que não se propõem senão os problemas que podem ser resolvidos, estamos num bom caminho.

Diplomatique – Entre os temas específicos de cada região do país, quais são focos centrais?

Ridenti – As mesas e grupos de trabalho da Anpocs abordam temas gerais, que envolvem ao mesmo tempo várias regiões. Uma reunião de caráter nacional deve ter o cuidado de, mesmo quando trata de aspectos locais, analisá-los numa perspectiva mais ampla, colocando em contato pesquisadores de várias instituições do país e até do exterior. Assim, por exemplo, há pesquisadores da região Nordeste – e também das demais – nos grupos que estudam temas como trabalho e sindicato, cultura brasileira, ruralidade, religião, sexualidade, migrações internacionais e dezenas de outros. Quanto à participação regional, se tomarmos os dados de todos os inscritos no encontro de 2008, incluindo os ouvintes, chegamos a 1.641 pessoas, a maioria proveniente do Sudeste. Previsível, pois o encontro realizou-se nessa região, que também é aquela que concentra a maior produtividade em todas as áreas científicas.

Assim, paulistas e cariocas compuseram metade do encontro da Anpocs, cada qual com cerca de um quarto dos participantes. Minas Gerais representou 14%. Contudo, o número de pessoas vindas de outros locais também foi significativo. As regiões Norte e Nordeste, somadas, chegam a compor 11% dos presentes. A Centro-Oeste, outros 11% e a Sul, cerca de 10%. São dados reveladores de que as ciências sociais se encontram enraizadas em todos os pontos do território nacional.

E se forem tomados os dados por gênero, constata-se equilíbrio: houve cerca de 51% de participação masculina nos trabalhos apresentados no Encontro de 2008, mas as mulheres compuseram 51% dos inscritos, independentemente de apresentação de trabalho.

Diplomatique – Havia estrangeiros?

Ridenti – Sim, estiveram presentes colegas provenientes da França, Itália, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Portugal, Argentina, México, Angola, Moçambique, Cabo Verde e outros países. Eles integraram diversas mesas-redondas e deram conferências sobre temas como religião, multiculturalismo, sexualidade, trabalho e a liderança do Brasil nas relações internacionais. Também houve atividades conjuntas com o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e a revista Nueva Sociedad, além de reunião de pesquisadores sobre a África e a Ásia.

Diplomatique – Há muitos trabalhos inscritos anualmente?

Ridenti – A competição para participar da Anpocs é significativa. Em 2008, recebemos 2.141 proposições de apresentação de textos acadêmicos, 807 das quais foram acolhidas pelos Grupos de Trabalho. Houve um aumento da ordem de 149% na possibilidade de apresentar trabalho nos últimos três anos. Mesmo assim, a competitividade continua elevada, pois não foi possível aceitar todos os trabalhos enviados. Chegou-se, em 2008, a um resultado bem razoável, que incorpora 37% das propostas.

Diplomatique – A partir da produção apresentada, é possível apreender quais são as principais preocupações das ciências sociais brasileiras hoje?

Ridenti – O primeiro aspecto a destacar é a multiplicidade de temas e enfoques teóricos e metodológicos. Já não é mais possível dizer que haja uma preocupação nitidamente predominante, como foi o caso da questão do (sub)desenvolvimento e da dependência nos anos 1960 e início dos 1970. Contudo, vale a pena notar que alguns temas vêm ganhando relevância. Por exemplo, retornou com força a própria questão do desenvolvimento, que andava esquecida. A internacionalização também ocupa espaço crescente, não só no estudo dos mais variados aspectos das relações do Brasil com a América Latina, mas também com os Estados Unidos, a Europa, a Ásia e a África, especialmente com os países lusófonos de todo o mundo. Também é notável a quantidade de estudos que envolvem políticas públicas em educação, saúde, segurança, cultura, trabalho, família, sexualidade, direitos humanos e outros aspectos que afetam o cotidiano da população. Talvez estejamos vivendo um momento em que a especialização inevitável das ciências sociais retoma a preocupação com processos globais, em que mesmo os trabalhos especializados sobre temas mais pontuais revalorizam a conexão com o conjunto, quem sabe dando um salto qualitativo em relação à fragmentação dos estudos que prevaleceu a partir dos anos 1980.

Diplomatique – Considerando as principais pesquisas, qual é o feedback que o encontro da Anpocs dá para a sociedade? Seu caráter é eminentemente prático ou teórico?

Ridenti – As ciências sociais brasileiras têm a tradição de desenvolver, ao mesmo tempo, aspectos teóricos e práticos. As pesquisas mais teóricas não abandonam a preocupação prática, e mesmo os estudos de casos específicos remetem a questões teóricas de fundo. Há um núcleo importante de cientistas sociais mais voltados ao estudo das grandes questões teóricas do nosso tempo. Mas sem dúvida predominam os trabalhos que envolvem pesquisas de campo. Muitas delas com um viés significativo para pensar a resolução de problemas imediatos, como os de organização eleitoral e partidária, educação, violência urbana, saúde, meio ambiente, direitos humanos, a questão agrária, as políticas de ação afirmativa, desenvolvimento, reforma política, e outros.

Enfim, com o encontro de 2008, os prêmios, suas publicações e demais atividades, a Anpocs tem procurado dar uma contribuição para a sociedade brasileira, elucidando os mais diversos aspectos que possibilitam não só o avanço científico, mas também construir indicadores para a compreensão e a resolução de problemas sociais, políticos e culturais.

*Maíra Kubík Mano é jornalista, foi editora de Le Monde Diplomatique Brasil e atualmente é docente do Bacharelado em Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Bahia (UFBA)



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