As cores do ódio - Le Monde Diplomatique

INTOLERÂNCIA

As cores do ódio

por Lucilene Machado
28 de janeiro de 2019
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Há os ódios multicoloridos. Exibidos em várias cores, são reformulados periodicamente com o fim específico de alcançar grupos minorias como de homossexuais, religiosos, índios, pobres, negros, guetos periféricos e até grupos intelectuais

Vende-se ódio em todas as cores e tamanhos. Ódios crônicos vendidos a granel nos balcões políticos das cidades. Ódios baratos, a preços módicos, oferecidos em voz alta pelas esquinas das ruas. É muito fácil comprá-los. Difícil é escolher os padrões. São tantas as variações que os compradores se mostram desorientados. Já vi ódio recém-nascido, ainda com o umbigo dependurado, exposto em caixa de veludo e meticulosamente cuidado para vicejar com seu forte caráter de novidade. Não faz muito, vimos ódio velho reproduzido performaticamente, com a cara pintada nas cores da pátria, marchando pelas avenidas, sem se dar conta que está sendo combalido pelas próprias feridas. Tenho visto ódio governando, ódio calado, ódio so-le-tran-do e ódio coletivo que tem a seu favor a vantagem de ser agregador, sempre em concílios, deliberando novas possibilidades de ódios antes fora de cogitação. Há ódios instituídos sendo vendidos em púlpito de igrejas, disfarçados de doutrina, de convenções, mas são tão perigosos quanto os demais. Todo ódio mata, em curto ou em longo prazo, todos  roem seu sujeito portador como formigas roem  pão seco, deixando oco o seu interior.

Há ódios bem embalados, alguns em cetins, papel de seda, celofane… não falta criatividade para se vender tais sentimentos. Entretanto, muitos são oferecidos sem adornos, sem disfarces, sem cerimônias, ao vivo e a cores e, pasme, a recepção é impressionante. A vertente negra, por exemplo, é inexplicável. Mórbida, mas avassaladora. Capaz de odiar moribundos e mortos. Capaz de odiar exilados, refugiados e miseráveis que têm a rua como um lugar para suportar o sol, o frio, a fome, dividindo espaço com os ratos, abutres e pestes peçonhentas. A piedade, a misericórdia, a caridade se transformaram em um sentimento tão vil que essas pessoas são expulsas desses “não-lugares” à força de jato d´água, de gás lacrimogêneo, balas de borracha, spray de pimentas e estas saem coxeando como perdedores de um jogo macabro. Apesar da intensidade com que é exercido esse ódio e do caráter escatológico com que é propagado, não assusta o seu entorno, que muitas vezes sinaliza lealdade à “inteligência” que o pensou.

Paradoxalmente, há o ódio branco que usa a bondade como ferramenta. Altamente contagioso por conta de sua retórica benfazeja. É usado em forma de defesa e seus argumentos cruzam fronteiras internacionais. É muito difícil detê-lo. Fica no alicerce da misantropia, já destruiu cidades inteiras  e quase destruiu o mundo. Segundo Aristóteles, é um  ódio que não tem cura e não tem fim. Pode se multiplicar de forma religiosa e não precisa de motivos concretos para ser posto em prática. É sofisticado e sistematizado, elegante, usa gravata e fala com voz amável, defendendo a família,  a pátria, religião e  até Deus, como se Este precisasse. É um ódio calculado que induz sutilmente e consegue seu objetivo sem que seja identificado a tempo. É maquiavélico, destrói em grandes proporções e ainda tem a contrapartida da sociedade que costuma lhe render tributo.

Há um ódio vermelho, gestado no útero da sociedade como instrumento civil. Precisa ser instigado por várias perspectivas para que desenvolva e venha à luz. É um ódio cruel e sangrento que pode matar os nossos jovens em nome de um sentimento civil que não é legítimo. A sociedade é estimulada por meio de elogios a atos violentos do passado, à exaltação de torturadores, reconhecimento de fatos deploráveis como se fossem heroicos, permissão para organizações ilícitas, instituição de comércio de armas e promoção de guerras como uma forma de constituir a ordem.

Além desses, há os ódios multicoloridos. Exibidos em várias cores, são reformulados periodicamente com o fim específico de alcançar minorias como de homossexuais, religiosos, índios, pobres, negros, guetos periféricos e até grupos intelectuais. São ódios assustadores e, incrível, têm torcida organizada. É um ódio industrializado que proporciona e patrocina a abertura de novas sucursais. Cada grupo incluído está respaldado a criar o seu próprio conceito de ódio e a produzir seus nichos de covardia.

Não foram poucas as vezes em que tive de me juntar a outros e levantarmos bandeiras de defesa. Porque o ódio coletivo não respeita quem está só. Não nego que já fui atingida  pelas farpas afiadas dessa poderosa indústria. Difícil manter o peito limpo e a vontade serena.  Mas revidar sozinho é atitude insana e vã. O grito se faz pedra em nossas bocas. Pedra sem poesia, sem poema, escarrada desde nossa profundeza e que vai se perdendo nas catacumbas do tempo.

Hoje, especialmente, um ódio transparente grudou na minha pele. Um ódio-líquido a escorrer pelos poros provocando um espasmo encarnado. Ódio pelo estado não proteger do ódio os próprios parlamentares. Tranquei a boca para ele não entrar pela minha garganta e começar a me roer por dentro, a ponto de me deixar oca. Ou que se instale, como um verme amarelo, no centro dos meus olhos, para instigar os que estão a minha volta.

Confesso que tive medo. Corri para o chuveiro, me esfreguei com pedra-pomes  e  botei para tocar  Hallelujah (Aleluia) de Haendel, porque a arte tem o poder de exorcizar o ódio, ainda que ele seja justificável, ainda que ele seja legítimo. Poesia, por exemplo, não combina com o ódio e ajuda a produzir resiliência e resistência. Fora isso, é contar com a sorte para não sermos vítimas dessa febre terçã, e nem portadores dessa hemorragia pública vomitada nos espaços sociais e que o amor nos habite em abundância, para todo sempre, amém.

 

Lucilene Machado é doutora em Teoria Literária e professora na UFMS

 



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