LITERATURA

As festas literárias e a propagação da cultura da leitura

Durante o transcurso de 2025, os eventos literários no Brasil e no exterior contribuíram firmemente no propósito de juntar novos autores e produtores culturais e artistas de prestígio, trazendo ao debate a dialética do poder da inovação da literatura e a riqueza de tantas referências

As festas literárias expandiram o amor pela leitura e pelos livros, trazendo inúmeros benefícios culturais, no ano de 2025, aos incontáveis fãs espalhados pelo país, proporcionando para além oportunidades e contato entre autores e leitores.  Os eventos promoveram encontros, oficinas, debates e reflexões, firmando um compromisso inabalável dos setores ligados à cultura e educação com a propagação do conhecimento.

Esses eventos incluem grandes eventos no Brasil, como as Bienais do Livro, cativos no Rio de Janeiro, Pernambuco, São Paulo etc., reunindo centena de milhares de pessoas durante os dias de evento; e os festivais mais focados, ou as Festas Literárias Internacionais, como em Paraty, Niterói, Pipa, Diadema, Maricá, Santo André etc. O que significa esse evento e sua promoção, nacionalmente, em termos de cultura e promoção da leitura?

O escritor Jordão Pablo de Pão, curador da Festa Literária Internacional de Niterói e Diretor da Niterói Livros, recorda-nos a missão da festa literária como veículo de promoção da leitura e das artes no mundo contemporâneo, democratizando o acesso a todos, sem exceção: “A leitura é uma atividade extremamente prazerosa, mas muito solitária. Uma festa literária celebra o encontro desses muitos mundos (sim, cada ser humano é um mundo), além de incluir aqueles que não usam a palavra escrita, mas sim a oralidade ou o gestual. Além disso, a arte precisa da celebração para ser vista em um mundo tantas vezes caótico e exibicionista. Participar de uma festa literária é atrair novos públicos, mundos, leituras!”, afirma o escritor.

Quando falamos em festivais ou festas propriamente, muitas pessoas ligam à ideia imediatamente: músicas, palcos, multidões, como num desses eventos corriqueiros (Rock in Rio, Lollapalooza etc.) Nos casos dos festivais literários, os verdadeiros protagonistas são os leitores, escritores e a própria literatura. Tem espaço para tudo: saraus, palestras e mesas redondas, encontros com escritores, espaços para fotos etc.  Sim, os festivais literários possuem uma importância na cultura moderna, um impacto social, cultural e econômico que não pode ser subestimada. A vasta programação dos eventos combina, integralmente, vozes consagradas e vozes emergentes, descentralizando a cultura literária e focalizando em outros municípios e cidades.

Dos benefícios gerados pelos festivais literários, sejam eles regionais, locais, nacionais ou internacionais, destacamos alguns:

  • O espaço proporcionado não se reduz à simples interação entre autores e leitores, mas como um espaço de troca de ideias, pensamento crítico e, claro, ampliação de horizontes.
  • É um momento de encontros, de pessoas que pensam e possuem gostos parecidos. Isso possibilita, por exemplo, troca de contatos (networking) e possíveis projetos criativos.
  • O evento abre as portas para autores locais ou desconhecidos, jovens ou não, para mostrar seus trabalhos e ganhar, assim, mais evidência e ter a notoriedade merecida.

Durante o transcurso de 2025, os eventos literários no Brasil e no exterior contribuíram firmemente no propósito de juntar novos autores e produtores culturais e artistas de prestígio, trazendo ao debate a dialética do poder da inovação da literatura e a riqueza de tantas referências. Tanto na Europa, como na Espanha, ou na América Latina, como na Bolívia e Colômbia, impulsionou-se uma rede colaborativa de valor cultural que alçou autores contemporâneos e os colocou em evidência. Contadores de histórias, ensaístas, cronistas, poetas, compartilham presencialmente suas obras e produções. Na Colômbia, o Feira Internacional de Literatura “Oiga, Mire, Lea” possui mais de uma década de existência. Na cidade de Granada, na Espanha, destacou-se o impacto da poetisa mexicana Coral Bracho, e sua importância na esfera europeia. Todo esse movimento demonstra o sucesso da participação dos leitores nas feiras e festivais internacionais, como instrumento de vitalidade e de sua importância como motor social, cultural e educacional.

O professor Alex Francisco, finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico e membro da Academia Guarulhense de Letras, participou de inúmeras Festas Literárias pelo Brasil, sendo algumas delas a de Niterói (Flin), Santo André (Felisa), Americana (Flaam) e Diadema (Flid). Na sua visão, as festas literárias deixam um legado cultural para as cidades que as recebem, valorizando e evidenciando o que ele frisa como “bibliodiversidade”, permitindo uma democratização dos escritores periféricos a serem incluídos nesses eventos, possibilitando que estes tenham visibilidade e sejam conhecidos em sua região: “As festas literárias são extremamente importantes para esse movimento de bibliodiversidade. A gente fala de autores e autoras que muitas vezes não têm acesso a grandes eventos literários, os mais consagrados. A cada novo espaço e a cada nova festa literária que acontece na cidade, na região ou no bairro, ela consegue abarcar esses produtores independentes, possibilitando a construção de uma rede. As pessoas mantêm, após os eventos, essa interação, esse bate-papo. Isso possibilita, também, o conhecimento de seus produtores locais, pois muitas vezes o público não conhece seus escritores locais. Nascem, a partir dessas feiras, essa rede de contato entre esses escritores”, conclui o acadêmico.

Gregório Duvivier e Antônia Gomes Minchoni participam da mesa Hora do Sonho na Central Flipinha, programação do educativo para crianças durante a 23ª Festa Literária Internacional de Paraty.
Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

Os eventos literários criam essas redes colaborativas e proporcionam troca e estimulam a criatividade de todos os envolvidos, aproximando todo o grupo colaborativo, desde escritores, editores, tradutores e leitores, independente da sua locação geográfica, promovendo a democratização das ideias e dos saberes, além de expor novas tendências. As barreiras linguísticas e culturais são quebradas através do contato, da cultura do encontro, compartilhadas através das conferências, das mesas de debates e dos espaços interativos com diversos nomes de peso. Todo esse esforço dos organizadores e gestores facilitam o crescimento do interesse público em consumir livros, leitura, cultura, informação de qualidade e conhecimento.

Pouco falado e debatido: já se depararam com o importante papel que os festivais literários cumprem na promoção de uma sociedade mais engajada e atuante culturalmente? Mostrando ao público a importância em valorizar nossas raízes culturais, esses eventos expõem a beleza da nossa diversidade literária e manifestam a expressão singular que cada localizada possui.

Viva a nossa literatura! Viva o livro! Viva a cultura! Viva nossos autores e autoras independentes! Viva as festas literárias espalhadas pelo Brasil!

Railson Barboza é bacharel em Filosofia (PUC-Rio). Doutorando e Mestre em Política Social (UFF).

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