As guerreiras do MST - Le Monde Diplomatique

Mulheres de luta

As guerreiras do MST

por Janaína Stronzake
8 de novembro de 2007
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Elas enfrentaram o poder do latifúndio, o patriarcalismo do meio rural e o pacto de silêncio da mídia oligárquica. E conquistaram seu direito de existir, em pé de igualdade com os homens, como protagonistas autônomas das grandes lutas sociais

A luta pela terra é um “lugar” feminino por excelência. Não nas barras dos tribunais, nem nos confrontos armados, nos quais a participação das mulheres, embora muito efetiva, pouco ou nunca é noticiada. Mas pela relação filial que, consciente ou inconscientemente, desenvolvemos com a terra.

A terra não é só capital. A terra é também a Terra-Mãe. Camponesas e camponeses vêem nela seu espaço de trabalho e vivência, o solo para fazer os filhos e ser feliz. Por meio do trabalho, a terra torna-se a provedora, que deve ser respeitada e preservada. Não se pode viver sem ela. Por isso, quando se encontra mal dividida, quando está sendo maltratada, ela deve ser conquistada e defendida.

O movimento de conquista da terra e resistência na terra integra hoje a luta de classes. Mas, historicamente, a masculinização das classes trabalhadoras é um fato. Além disso, no campo, o patriarcalismo é dos mais arraigados. Então, onde estão as mulheres nessa luta? Que papéis desempenham como integrantes de um movimento misto pela terra? Junto com as classes trabalhadoras, as mulheres recusam a falsa tutela do capital e se lançam à luta pela emancipação coletiva e individual.

Ocupando terras, ocupando espaços

O MST surgiu no final da década de 70, em pleno regime militar, com a retomada das ocupações de terra e da luta pela reforma agrária. Sua fundação nacional, porém, ocorreu somente em 1984, aglutinando as diversas ocupações e movimentos de camponeses que haviam se organizado de forma incipiente até então. Em seu encontro fundador, o MST já estabeleceu os dois pilares que o diferenciavam dos movimentos camponeses anteriores. Primeiro, definiu-se como um movimento nacional, em vez de local ou regional, o que lhe possibilitou maior força e poder de resistência. Segundo, definiu-se como um movimento familiar, em cujas instâncias e espaços de discussões participam, ainda hoje, homens e mulheres, adultos e jovens.

No entanto, o espaço de atuação das mulheres no interior do movimento não foi conquistado de mão beijada. É fato conhecido que, no meio rural, persistem obstáculos e preconceitos maiores em relação à participação feminina. Inicialmente, por força do próprio meio familiar, a ação da mulher era restringida ao cuidado dos filhos e às tarefas domésticas. Então, foi na área da educação, enfatizada pelo MST desde os primeiros acampamentos, que inicialmente se abriu um espaço para muitas mulheres que avançavam além do núcleo familiar. A organização de tarefas ligadas à saúde, como a produção de ervas medicinais e medicamentos naturais, também propiciava essas brechas. Porém as mulheres ainda estavam fora das esferas diretamente ligadas à política e à economia.

Desde os primórdios, o MST tinha uma visão de igualdade que respeitava as diferenças de gênero. Várias são as publicações que desenvolvem tais debates e apresentam o tema dos valores humanos socialistas. Mas como aplicar essa visão à pratica cotidiana?

Negando-se à prostituição e ao crime

Quando o movimento passou a organizar as tarefas nos acampamentos e assentamentos por setores, foi criado um coletivo de mulheres para ampliar a participação. Em 1999, definiram-se linhas de atuação buscando garantir eqüidade na participação de homens e mulheres (ver boxe).

Entre 1984 e 1999, muitos desafios foram enfrentados e vencidos. Como uma mulher ousaria se pronunciar numa assembléia? Como ousaria pegar o microfone nos grandes encontros dos camponeses sem-terra? Pois as mulheres ousaram. Todas as teorias da inferioridade intelectual feminina foram postas abaixo pela prática das companheiras. Negando-se à prostituição e ao crime, muitas mulheres, chefes de família, foram acampar. A clareza intelectual e a necessidade material as levaram a assumir postos de direção em vários espaços. E a participar mais ativamente na base, nos acampamentos e assentamentos, na produção, nas finanças, na tarefa de debater a situação dos trabalhadores brasileiros com famílias ainda não acampadas.

Do predomínio nos setores de educação e saúde, as mulheres sem-terra aperfeiçoaram-se na produção e forçaram seu protagonismo econômico. Nas linhas definidas em 1999, consta o tema da cooperação. Se isso ocorreu foi porque, nesse momento, as companheiras já estavam ativas no Sistema Cooperativista dos Assentamentos.

Paridade em todas as frentes

Talvez um dos pontos que deu maior solidez e durabilidade à participação feminina tenha sido a questão da paridade em todas as atividades. Isso significa, na prática, que, em cada curso, em cada instância de direção, para cada homem presente, há também uma mulher. De algumas dezenas que ousavam se manifestar, opinar e decidir, agora somos centenas, formando-nos como quadros da organização e exercitando-nos na prática do poder.

Um processo de aprendizado pode ser mais rápido ou mais lento, doloroso ou indolor. Mas, sem a participação efetiva, por meio da exigência de 50% de mulheres em todas as atividades, o aprendizado do comando, a emancipação, poderia nunca se iniciar, que dirá se concluir. Não chegaríamos a uma rede horizontal de mulheres aptas, conectadas com as necessidades e soluções coletivas.

Por que as mulheres do MST não transferem simplesmente sua militância para um movimento feminista, formado apenas por mulheres?

Compreendemos que enfrentar apenas a exploração machista não basta. Reconhecemos nosso lugar na luta de classes. Acreditamos que a libertação da mulher só pode se dar junto com a libertação da classe trabalhadora.

Quanto mais as mulheres incomodam o capital, quanto mais elas se levantam contra todas as cercas, maior o esforço em calá-las, em criminalizá-las, em invisibilizá-las. Aliás, uma invisibilidade histórica: basta ler os estudos de Edward Palmer Thompson acerca da economia moral dos pobres ingleses do século XVIII e do papel das mulheres nos chamados “motins da fome”1.

Mas não se espera outra coisa de uma imprensa monopolista, reacionária e machista que não seja a pouca divulgação da reforma agrária, do MST como movimento social legítimo e, principalmente, das ações das mulheres camponesas. Assim, o Movimento Sem Terra é masculinizado na mídia. As mulheres, por mais que façam e aconteçam, continuam invisíveis. E, quando a grande imprensa “tradicional” volta sua atenção para elas, é para chamá-las de “criminosas”, “mal-amadas” e coisas do estilo2.

Porém, mesmo invisíveis, mesmo vilipendiadas, as mulheres estão ativas. E ativas no contexto da luta de classes, atuando dentro de um movimento misto e forjando alianças com todos os movimentos sociais que seguem o mesmo caminho (sejam eles mistos ou formados exclusivamente por mulheres), como é o caso da articulação Via Campesina, da qual participam o MST, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC).

A face feminina do MST pode ser conhecida pela prática dos grupos de mulheres de Jóia e Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul, entre muitos outros Brasil afora. O grupo Mãe Terra, do assentamento Rondinha, em Jóia, é composto por trinta mulheres de diversas idades, que, há sete anos, realizam estudos e debates e produzem objetos artesanais, pães e plantas medicinais e derivados. O grupo tem mantido sua autonomia ideológica e econômica, recebendo muito pouco dos incentivos financeiros propagandeados por aí.

De fato, queremos ir além das concessões ou favores. Dos cerca de 1,5 milhão de sem-terras do Brasil, mais da metade são mulheres. E nós sabemos do que precisamos. As conquistas dentro do movimento são importantes. As lutas cotidianas por respeito, igualdade e espaço legítimo devem ser travadas.

Sabemos que a democracia, a soberania e a justiça social virão com mulheres e homens caminhando juntos, de igual para igual. Para isso, nós, mulheres, precisamos lutar por autonomia. É necessário que nós, e todos os trabalhadores, tenhamos em nossas mãos o poder econômico, o poder político, o poder midiático, que se transformam em poder popular, numa cultura de respeito e eqüidade. Sem ter de pedir concessão para respirar e existir.

Globalizemos a luta! Globalizemos a esperança! Nós passaremos!

*Janaína Stronzake é integrante da direção do MST do Rio Grande do Sul. Em 1985 sua família foi acampar, em busca de terra para viver. Dos 8 aos 16 anos, ela viveu em acampamento. Em 1993, sua família foi assentada no Paraná. Hoje, Janaína é graduanda em história na Universidade Federal da Paraíba, UFPB.

 



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