As mentiras de Eduardo Pazuello sobre os crimes do presidente

CPI da Covid-19

As mentiras de Eduardo Pazuello sobre os crimes do presidente

por Alexandre Padilha
25 de maio de 2021
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Nos dois dias em que foi interrogado pela CPI, Pazuello mentiu ao menos 12 vezes, fatos comprovados por agências de fact-checking

Brasileiros, e acredito que o resto do mundo, acompanham estarrecidos o show de horrores e mentiras proferidas por integrantes do governo Bolsonaro,  na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, instalada no Senado Federal e que apura a condução criminosa, omissa e negacionista do governo diante da maior crise sanitária que o país já enfrentou.  A CPI recebeu na última semana o ex-ministro da saúde, Eduardo Pazuello, que permaneceu por 10 meses no cargo – general da ativa, sem qualquer experiência em saúde pública – chegou a afirmar que “não sabia o que era Sistema Único de Saúde (SUS)”.

Pazuello foi nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro após a demissão de outros dois ministros da saúde, que são médicos e foram contrários às ações de Bolsonaro no combate à pandemia. Após a redemocratização do país, com o fim da Ditadura Militar, a pasta já tinha sido assumida por ministros que não eram da área da saúde, porém, o que ocorreu é que Bolsonaro ocupou o Ministério da Saúde com militares que só obedeciam às suas ordens.

Eduardo Pazuello na CPI da Covid-19
Ex-ministro Eduardo Pazuello em depoimento à CPI da Covid-19 no Senado (Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado)

A insensibilidade de Pazuello frente à pasta tem a ver com o seu perfil. Ele não foi nomeado ministro para salvar e cuidar de vidas, mas sim para calar o Ministério da Saúde e deixar correr solta a propaganda enganosa do uso precoce de medicamentos sem eficácia comprovada para a Covid-19.

No período em que ocupou o Ministério – de outubro de 2020 a março de 2021 -, cerca de 265 mil vidas foram perdidas. Marcas da gestão Pazuello ainda refletem no atual momento da pandemia no Brasil: são 450 mil mortos. Nos dois dias em que foi interrogado pela CPI, Pazuello mentiu ao menos 12 vezes, fatos comprovados por agências de fact-checking.

A testemunha que mente em uma CPI comete um crime grave e, no caso do general, mancha ainda mais a imagem do Exército brasileiro e das Forças Armadas. Pazuello mentiu ao dizer que:

1. “O presidente nunca desautorizou as ações do Ministério da Saúde no contrato do Instituto Butantan para aquisição da vacina Coronavac”. Mentira. Bolsonaro gravou um vídeo ao lado de Pazuello, ainda em 2020, desautorizando o então ministro a contratar doses da Coronavac. Na ocasião, Pazuello declarou “É simples assim: um manda e o outro obedece”;
2. “Foi alertado sobre a crise de oxigênio em Manaus no dia 10/01”. Mentira. Há registros que comprovam que Pazuello e o Ministério da Saúde sabiam do colapso no sistema de saúde de Manaus antes da crise se alarmar;
3. “Não foram perdidos testes para detecção da Covid-19”. Mentira. Cerca de sete milhões de testes ficaram armazenados e perderam o prazo de validade;
4. “Não promoveu o uso da cloroquina”. Mentira. Na condução do Ministério da Saúde, Pazuello omitiu informações a respeito e sua gestão autorizou campanhas sobre o uso do medicamento;
5. “O Ministério distribuiu cloroquina para comunidades indígenas apenas contra a malária”. Mentira. Registros no site do Ministério comprovam que o medicamento foi enviado com a orientação para tratamento da Covid-19;
6. “O TrateCov, plataforma para orientar médicos a prescrever o tratamento precoce contra Covid-19, não entrou em operação”. Mentira. O aplicativo foi lançado em janeiro em uma cerimônia em Manaus;
7. “O Ministério da Saúde seguiu as recomendações da OMS sobre o distanciamento social”. Mentira. O Ministério da Saúde não autorizou ou incentivou qualquer campanha de orientação enquanto esteve frente à pasta;
8. “O Supremo Tribunal Federal (STF) limitou a atuação do governo federal nas ações de estados e municípios”. Mentira. O STF permitiu que estados e municípios tomassem medidas de combate à Covid-19, o que não significa que tenha limitado o governo federal;
9. “A cloroquina é um medicamento para tratamento antiviral”. Mentira. O uso do medicamento se faz em doenças causadas por protozoários, como a malária;
10. “O Brasil se encontra no ranking de imunização, sendo um dos países que mais vacinou no mundo”. Mentira. O Brasil lidera o ranking da vacinação se considerado o número absoluto de pessoas que receberam ao menos uma dose da vacina, portanto dizer que o país é um dos que mais vacina, é no mínimo impreciso.
11. “Não poderia comprar a vacina da Pfizer sem a autorização do Congresso ou por veto do Tribunal de Contas da União (TCU)”. Mentira. O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), rebateu a afirmação destacando que nas primeiras tratativas, o governo reclamava das cláusulas do contrato, sem necessidade de lei. Esse dispositivo foi retirado da MP 1.026. Pazuello afirmou que não sabe por qual motivo o governo tomou essa decisão, de que não foi uma decisão do Ministério, apesar de dizer que o governo não interferia em sua gestão, outro fato é que os ministros do TCU se manifestaram em nota afirmando que nenhum deles se posicionou contrário à contratação da Pfizer;
12. Sobre a pequena quantidade adquirida de doses de vacinas oferecidas pelo consórcio Covax Facility, Pazuello afirmou que “era mais importante aderir ao consórcio do que ter doses de vacinas naquela época”. Mentira. O Brasil, naquele momento, não tinha perspectivas de outras contratações;

Se Pazuello acredita que sua responsabilidade acabaria com dois depoimentos mentirosos na CPI, errou. Como errou quando imaginou que a pandemia acabaria em dezembro de 2020. Seu depoimento é um prato cheio para que a CPI, que possui instrumentos necessários para investigação de mensagens, acesso às agendas, quebra de sigilos e requisição de contratos, comprove o falso testemunho e as responsabilidades e crimes de Bolsonaro e do próprio Pazuello. Com tais documentos, Pazuello poderá ser convocado novamente e talvez só saia de lá preso.

Alexandre Padilha é médico, professor universitário e deputado federal (PT-SP). Foi Ministro da Coordenação Política de Lula e da Saúde de Dilma e Secretário de Saúde na gestão Fernando Haddad na cidade de SP.



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