As mulheres na Filosofia Moderna - Le Monde Diplomatique

FAMÍLIA VERDE

As mulheres na Filosofia Moderna

por Katarina Peixoto
17 de junho de 2019
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Confira artigo de abertura do especial Família Verde sobre a participação de mulheres, com frequência invisibilizadas, na história da Filosofia

A História da Filosofia Moderna não se faz apenas com nomes como Descartes e Spinoza. O Brasil recebe, em junho, a primeira conferência dedicada às mulheres na Filosofia Moderna. Filósofas invisibilizadas, como Margaret Cavendish, Anne Conway, Elisabeth de Bohemia e Mary Wollstonecraft ocuparão centralidade no debate acadêmico que reúne mais de vinte pesquisadoras de oito países diferentes. O evento, acolhido pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, tem como objetivo apresentar uma agenda de pesquisa no Brasil que envolve um entrelaçamento entre método filosófico e história da filosofia com o olhar para a presença e para a voz da mulher.

Sabe-se hoje, a boa historiografia, que havia filósofas pitagóricas. As interlocutoras de Descartes, Leibniz, Locke, Newton e Kant e autoras de textos e de estudos dos séculos XVII e XVII estão cada vez mais ganhando espaço nos currículos das escolas filosóficas mais avançadas e rigorosas, em história contemporânea da filosofia. Então, apesar do apagamento histórico e da subrrepresentação dele derivada, não é fato que a filosofia é uma disciplina “masculina” (seja lá o que pode significar isso) ou que as mulheres não tiveram e não têm um papel relevante na história. O que fazer e o impacto desse reconhecimento, que tem vindo à tona graças ao trabalho de pesquisadoras como Lisa Shapiro, Sabrina Ebbersmeyer, Karen Detlefsen, Mari Ellen Whaite, Margareth Atherton e Ruth Hagengruber, é o que interpela boa parte das discussões sobre método, hoje. Nesta série de entrevistas, a que chamei de “Família Verde”, busco, em questões oferecidas às pesquisadoras ligadas a esta Conferência, provocar reflexões e tomar conhecimento do modo como, na trajetória de cada uma, a relação entre filosofia, história da filosofia e as questões de gênero são e foram entrelaçadas.

Para tanto, escolhi o uso que o filósofo Ian Hacking faz da Família Verde em uma das parábolas que ele apresenta no seu clássico Ontologia histórica. A escolha por um filósofo como Hacking visa a contemplar o amplo espectro de escolas filosóficas envolvidas na Conferência e, especialmente, o componente que reputo intrinsecamente cartesiano, que me moveu na proposição dessa Conferência, que é o método da descoberta. Mas em que consiste a parábola da Família Verde? O que é a Família Verde, afinal? O Dicionário de Arte Internacional fornece a seguinte descrição de Família Verde: “Decoração da porcelana chinesa (sécs. 17-19) muito apreciada no Ocidente, característica do reinado Kangsi (1662-1722) e continuada no Qianlong (1736-1795). É policrômica, porém utiliza predominantemente o esmalte verde em vários tons, do qual chega a apresentar oito nuances. As outras cores mais comuns desta família são: preto, cor-de-berinjela, amarelo e violeta”.

Na parábola, Hacking, que é um filósofo vinculado à tradição analítica e, portanto, em tese, refratário à abordagem da filosofia a partir de sua história, escreveu um livro no qual busca, a partir de Kuhn, uma chave de leitura analítica legada por Foucault, em uma ontologia histórica. Para tentar demarcar o que seria próprio à reflexão filosófica em contraste com uma visão meramente historiográfica da filosofia, o autor usa algumas parábolas e uma delas é a da Família Verde. Em uma das passagens do seu texto, no capítulo “Confirmação, refutação e revoluções científicas”, ele comenta:

“Eu dava um curso apresentando aos alunos da faculdade os filósofos contemporâneos da família verde e de Augusto, o Forte. Meu herói era Leibniz, e como de costume, minha plateia lançava-me olhares de aflição. Mas depois da última aula, alguns estudantes reuniram-se e começaram com o convencional ‘Nossa, que grande curso’. As observações seguintes foram mais instrutivas: ‘Também, com todos aqueles grandes livros, quer dizer, Descartes… era inevitável…’. Eles adoravam Descartes e suas Meditações.

Acontece que dou aulas terríveis sobre Descartes, já que vou resmungando, dizendo que não consigo entendê-lo muito bem. Não faz diferença. Descartes fala diretamente a esses jovens, que sabem tão pouco a respeito de Descartes e sua época quanto eu sei a respeito da família verde e sua época. Mas, da mesma forma que a família verde revelou-se para mim, diretamente, Descartes revela-se, exibe-se para eles. Minha lista de leituras tinha a mesma função que a galeria: é a porcelana ou a própria leitura, não a galeria ou as salas de aula, que fazem a exibição. O valor de Descartes para esses alunos é completamente anacrônico, fora do tempo. Metade parte do pressuposto de que Descartes e Sartre eram contemporâneos, ambos sendo franceses. Descartes, ainda mais do que Sartre, consegue falar diretamente a eles. O historicismo […] esquece-se disso.”

Para mim, o que chama a atenção de maneira irredutível aí é que isso aconteceu comigo quando li as Meditações, então, quando, vários anos depois, li Hacking fazendo esse comentário, encontrei alguém que havia entendido, em primeiro lugar, a potência de um texto como As meditações metafísicas, de Descartes. E como nessa experiência descrita de maneira tão feliz, por Hacking, pode-se encontrar uma maneira de abordar as perspectivas da história da filosofia, nas lentes das pesquisadoras entrevistadas e também nos fornecer uma espécie de panorama da filosofia feita no Brasil, em suas variadas escolas.

Outro elemento interessante, nesse “falar diretamente”, é o papel das cartas, na interlocução que as mulheres mantiveram com os filósofos ao longo dos séculos XVII e XVIII mas, sobretudo, XVII. A educação era privada, majoritariamente, e isso permitiu que algumas mulheres conseguissem, por si mesmas, documentar o seu pensamento e comunicá-lo a interlocutores. Claro, não foi apenas por cartas que isso se deu. Margaret Cavendish escreveu livros, Anne Conway também, e Catherine Trotter Cockburn defendeu o Ensaio sobre o entendimento humano, de Locke, em um jornal, mas ela era uma famosa dramaturga na Inglaterra. E Barbara Suchon, outra lockeana, era uma defensora do direito das mulheres a partir do reconhecimento da mente destas como uma mente igual à dos homens.

Então, considerei que a Família Verde era um bom nome para apresentar à comunidade filosófica e a quem tem interesse em filosofia, no Brasil, mas não apenas (há e haverá entrevistadas estrangeiras, na série). E de retomar o estado da arte da discussão sobre o que é fazer história contemporânea da filosofia a partir do reconhecimento da contribuição das mulheres, de outros gêneros e também das figuras ocultadas por motivos extrafilosóficos, como o racismo e o colonialismo, do cânone. E sobre o lugar dos conceitos e da investigação conceitual, em meio ao ambiente conflagrado, tanto na sociedade brasileira, como, de maneira geral, no ambiente universitário diante do novo feminismo e da atualidade da luta antirracista e de gênero, e da literatura crítica que vem sendo produzida.

 

*Katarina Peixoto é pesquisadora de pós-doutorado na UERJ (CNPq) e organizadora da I Conferência Internacional de Mulheres na Filosofia Moderna.



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