As quatro vidas do modelo Irlandês - Le Monde Diplomatique

ECONOMIA/EUROPA

As quatro vidas do modelo Irlandês

por Renaud Lambert
11 de novembro de 2010
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Tudo começou no final dos anos 1990 quando, subitamente, a economia irlandesa decolou em 10 anos. De lá para cá, se ouve falar das benfeitorias do modelo adotado em Dublin em diferentes situações e com resultados não tão benéficos assimRenaud Lambert

“Quando o ministro do comércio, da indústria e do turismo da Colômbia visitou o Wall Street Journal a Irlanda era um assunto no qual eu nunca esperaria que ele tocasse. Para minha surpresa, foi o primeiro tema que abordou.”No início do mês de março de 2008, estupefata, a jornalista Mary Anastasia O’Grady fez uma descoberta:“Bogotá está muito interessada no modelo irlandês” (Wall Street Journal, 25 de março de 2008).Porém será o entusiasmo colombiano verdadeiro?

“Vejo somente vantagens no modelo irlandês, essa verdadeira história de sucesso manda um recado para a França”, entusiasmou-se o Primeiro Ministro francês, Jean-Pierre Raffarin (Dublin, 24 de maio de 2004).Um ano mais tarde, uma publicação oficial do governo lituano anunciou que Vilnius (a capital) tinha como objetivo “reproduzir o cenário do crescimento econômico irlandês1”.Logo, o partido conservador britânico arrumou as malas para “observar e aprender com o que estava se passando do outro lado do Mar da Irlanda.Enquanto isso, na Jamaica, o patronato perguntava-se:“Que lições tirar do sucesso fenomenal da Irlanda?”.A reflexão de seus homólogos do Quebec estava mais adiantada: sem dúvida, a Irlanda “constituía o modelo mais apropriado2” para sua província.  Da direita da Letônia ao Conselho Nacional do Patronato de Honduras, do Partido Republicano Americano à Câmara do Comércio Américo-Uruguaia, em toda parte, a mesma constatação:“o modelo irlandês é uma estratégia que pode funcionar para outros países, pouco importa a época ou a região geográfica3

Que modelo ?

Tudo começou no final dos anos 1990 quando, subitamente, a economia irlandesa decolou:entre 1994 e 2004, o crescimento médio do Produto Interno Bruto (PIB) atingiu 7 %, um desempenho duas vezes superior ao da economia estadunidense. Três vezes mais rápido que o da zona do euro.

Na mídia, ninguém deixou de perceber que o “prodígio” sobreveio após reformas de natureza “liberal”.Menos de dez anos após ter condenado o país “à catástrofe” (16 de janeiro de 1988), o jornal semanal The Economist reviu seu julgamento:“A Irlanda demonstra incontestavelmente que abraçar a globalização representa o caminho mais rápido para a opulência” (15 de maio de 1997).

Se, das colunas do New York Times às do Figaro, do Wall Street Journal ao Libération, a ilha esmeralda era fascinante, seria porque, de acordo com a opinião geral, o “milagre irlandês” revelou o sucesso do liberalismo.Nada mais natural, portanto, do que convidar o resto do mundo a meditar sobre o exemplo.Assim nascia o modelo irlandês.

Em dezembro de 1995, os franceses foram às ruas.O jornal Capital explicou-lhes que em Dublin “os parceiros sociais (…) jogaram o jogo e proporcionaram um balão de oxigênio para as empresas”.Desde 1987, de fato, uma “parceria social” uniu o Estado, o patronato e os sindicatos, com a “moderação salarial” como objetivo principal.Resultado:“custos salariais baixos e sindicatos moderados permitiram varrer a imagem ancestral de um país rural e indolente” (Le Point, 6 de abril de 1996).

Porém, os esforços irlandeses não se limitaram à civilidade sindical.Le Point inclinou-se diante uma “política econômica audaciosa que soube atrair as empresas estrangeiras” (23 de agosto de 1997).Como? Levando o imposto das empresas para 10 %4, a menor taxa na Europa.  Por outro lado, a República autorizou os “preços de transferência” que permitiram que as multinacionais declarassem seus lucros no país que propunha o regime fiscal mais ameno.Nesse campo, a Irlanda foi imbatível:suas autoridades escolheram “desativar [sic] seu poder de vigilância5”.

Na maioria dos países europeus, tal engenhosidade beiraria a ilegalidade.Mas o fato encantou o Brussels Journal.Por muito tempo, “a voz dos conservadores na Europa” repetiu que era reduzindo os impostos e a burocracia que se estimulava o crescimento econômico:“a Irlanda demonstra que isso é possível e mostra como fazê-lo” (25 de novembro de 2005).

Com essas condições, as multinacionais se precipitaram.A Irlanda acedeu ao lugar de primeiro paraíso fiscal mundial em termos de repatriação de lucros (à frente das Bermudas):esses chegaram a 20 % do PIB.Nessas condições, os economistas preferiram medir a atividade irlandesa com base no Produto Nacional Bruto (PNB) ao invés do PIB.Pois, apesar do seu tamanho (apenas 1% da população europeia), a Irlanda atraiu um quarto dos investimentos americanos ligados à abertura de novos empreendimentos.

No entanto, a receita irlandesa não tinha nada de realmente excepcional.Os pontos essenciais – com o nome de “programas de ajuste estruturais” – foram impostos a muitos outros países, por exemplo, na América Latina.Como explicar, então, que o modelo liberal não engendrou por lá tantos “milagres”?Provavelmente porque a decolagem econômica irlandesa tinha realmente pouco a ver com a preferência de livre-escolha dos dirigentes celtas.

Outros fatores a tornam mais compreensível.A começar pela emancipação progressiva das mulheres.Em 1992, a legalização dos anticoncepcionais levou a uma grande redução da taxa de fertilidade.As irlandesas entraram maciçamente no mercado de trabalho, aumentando as capacidades produtivas do país, até então as mais baixas da Europa.

O “milagre” também se explica pela “simples” recuperação de uma economia atrasada.Em outras palavras:a Irlanda teria “aproveitado” menos do capital estrangeiro que estava acolhendo, do que ele se aproveitou das vigorosas capacidades de produção que lhes eram entregues a bom preço.Dessa forma, entretanto, a República expunha-se a sofrer as conseqüências de qualquer redução da atividade de seus hóspedes.Quando, a partir do ano 2000, a economia americana recuou, o “tigre céltico” adormeceu.

Mas, para qualquer problema há uma solução exemplar:a economia irlandesa conseguiu recobrar o fôlego, e o modelo irlandês, uma segunda vida.Assim como nos Estados Unidos, o Estado incentivou o desenvolvimento do crédito, a “inventividade” bancária, e, sobretudo, a especulação imobiliária.Os preços do setor construtivo cresceram três vezes mais rapidamente do que na França e os canteiros de obra explodiram, sem a mínima relação com a demanda.Logo, 17 % dos lucros do Estado provinham de impostos ligados ao setor da construção.

O FMI não se abalou.Em 2004, seus diretores executivos “felicitaram o desempenho sempre tão notável da economia irlandesa que se baseia sobre políticas econômicas saudáveis e oferece uma lição útil para os outros países7”.A proporção dos salários no valor agregado caiu mais rápido que em qualquer parte na Europa, na contracorrente das desigualdades – que se intensificaram?Pouco importa: o indescritível editorialista do New York Times, Thomas Friedman, resumiu a alternativa que foi oferecida à França e à Alemanha: “transformar-se em Irlanda ou transforma-se em museu” (1o de julho de 2005).

Sabemos o que vem depois.O mundo afundou pouco a pouco na crise financeira, a economia irlandesa desabou, a bolsa de Dublin despencou.Em 2008, o desemprego saltou de 85 % – a maior alta da Europa do Oeste – e a arrecadação do Estado diminuiu de 13 %.A Irlanda foi o primeiro país a entrar em recessão.Outros modelos passaram para a posteridade por muito menos.

Entretanto, à imagem da fênix liberal renascendo das cinzas para impor seus próprios remédios para os prejuízos que havia causado, o “modelo irlandês” sobreviveu mais uma vez ao próprio trespasse e continuou a mostrar o caminho.  O da austeridade.

Sob a direção de Dublin, a “brutalidade” social estabeleceu-se como virtude.Essa “severidade” caracterizou-a como “modelo para os outros países da zona do euro”. Diminuição do salário do funcionalismo (até 20 %), redução dos auxílios para as famílias de 10 %, e amputação semelhante de todas as prestações sociais.Quando, em fevereiro de 2010, a Europa estimou que a Grécia deveria “ir ainda mais longe” na austeridade orçamentária, foi com toda naturalidade que a Alemanha a aconselhou a “imitar a Irlanda” (Reuters, 16 de fevereiro de 2010).

Em abril, a ilha recebeu novamente as felicitações da Comissão Europeia:o retrato da austeridade vem acompanhado de um modelo de “coesão social”.

Aira dos irlandeses teve dificuldades para se expressar.A identidade dos partidos políticos construiu-se em torno da questão da independência, que os opôs; o consenso liberal os uniu.Os sindicatos, vimos, aprenderam as virtudes do “diálogo social”.E a população continuou tão preocupada com a separação entre católicos e protestantes que às vezes se desinteressou das barreiras que opunham as classes sociais.Finalmente, a emigração – que recomeçou com força total8 –, ofereceu aos mais descontentes a esperança de encontrar algo melhor, em outra parte.

Já em abril de 2009, o ministro das finanças irlandês, Brian Lenihan, felicitava-se: “Nossos parceiros na Europa estão impressionados com nossa capacidade de suportar a dor. Na França, continuou, vocês teriam enfrentado protestos se tivessem experimentado isso.”Um ano mais tarde, às vésperas da divulgação de seu próprio orçamento de austeridade, os conservadores britânicos – doravante no poder, com seus aliados liberais-democratas – viraram novamente os olhos para a outra margem do Mar da Irlanda:“representantes do ministério das finanças passaram muito tempo ao telefone com Dublin, para (…) compreender como o governo de coalizão irlandês conseguiu cortar as despesas sem desencadear uma agitação social como a que vimos na Grécia ”(Financial Times, 23 de maio de 2010).

E sobreveio uma nova metamorfose do “modelo irlandês” – uma quarta vida -, que suscitou menos admiração.

“Se a Irlanda não tivesse agido como ela o fez, poderia ter terminado como a Grécia” assegurava o jornal Financial Times no dia 10 de maio de 2010.Três meses mais tarde, Atenas estava no seu direito de sorrir.O próprio Wall Street Journal reviu seu texto:“Até pouco tempo atrás, pensava-se que a Irlanda conseguiria resolver seus problemas financeiros graças a um programa agressivo de cortes orçamentários, o mais importante da zona do euro.Mas, embora os problemas da Irlanda persistam, seu crédito com os investidores diminuiu” (9 de setembro de 2010).Esses últimos estariam temendo um roteiro “à grega”, por causa dos prejuízos econômicos causados pelo rigor irlandês.

Ninguém mais fala de “milagre”, mas a experiência irlandesa continua rica de ensinamentos.Na questão da eficiência das políticas de austeridade, por exemplo.

Os investimentos diminuíram de 15% em 2008 e de 30% em 2009.Pressionado pelos cortes orçamentários, pelas diminuições salariais e pelas reduções das prestações sociais, o consumo baixou mais de 7 % em 2009.Isso equivale a dizer que a atividade econômica conheceu um período mais eufórico:o PNB mergulhou de 3 % em 2008 e de 11 % em 2009.De acordo com a agência de notação Standard & Poor’s, o poço sem fundo do restabelecimento bancário aumentou a dívida.Essa era de 33 % do PIB em 2001 e poderá ultrapassar os 110 % em 2012.O déficit orçamentário atingirá… 20 % do PIB em 2010, 23 % do PNB.Isso é pouco comum.

Juntamente com o diretor do jornal escocês The Scotsman, Bill Jamieson, os partidários da austeridade proclamavam ontem que “a experiência irlandesa contradiz a crítica keynesiana segundo a qual os cortes orçamentários seriam contraprodutivos uma vez que mergulhariam um pouco mais a economia na recessão” (5 de julho de 2010).A última mutação do “modelo irlandês” os levará a moderar suas certezas?

Aparentemente, não as do FMI.Em agosto de 2010, inabalável, ele convidou Dublin a “efetuar novos cortes orçamentários para manter a confiança dos mercados” (Financial Times, 26 de agosto de 2010).

Renaud Lambert é jornalista.



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