As redes “feministas” das maiores empresas cotadas na Bolsa de Paris -

TODAS IGUAIS, MAS UMAS MAIS IGUAIS QUE AS OUTRAS

As redes “feministas” das maiores empresas cotadas na Bolsa de Paris

Edição 161 | França
por Maïlys Khider e Timothée de Rauglaudre
1 de dezembro de 2020
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Tão discreta quanto eficaz, a atuação de redes patronais permitiu a adoção em 2011 de uma lei que impõe a quase paridade entre os gêneros nos conselhos de administração das grandes corporações francesas. No entanto, a influência das mulheres de negócios sobre o governo afasta as associações feministas, enquanto seu ativismo permite a multinacionais pouco preocupadas com os direitos trabalhistas dourar sua imagem

No dia 2 de dezembro de 2016, no Centro Internacional de Deauville, Emmanuel Macron apresentava em inglês seu programa para a igualdade entre mulheres e homens. “Permitir que as mulheres tenham acesso à liderança nos negócios ou na política é absolutamente essencial.” Na plateia, uma maioria composta por mulheres de negócios e da vida política. Em onze anos de existência, era a primeira vez que o Women’s Forum for the Economy and Society (WF, Fórum de Mulheres para a Economia e a Sociedade) tinha como convidado um candidato à presidência da França. Menos de três semanas depois, duas de suas dirigentes assinaram o manifesto “Elles Marchent” [Mulheres em marcha], apoiando a candidatura do ex-ministro da Economia.

Apelidado pela imprensa de “Davos das Mulheres”, o WF conquistou influência considerável desde sua primeira edição, em 2005. Todo ano, o evento reúne uma miríade de organizações e redes dedicadas à questão do acesso das mulheres a cargos de liderança na economia, seja no âmbito empresarial ou no poder público. Esse “feminismo de mercado”, para usar a expressão da socióloga Sophie Pochic,1 apareceu na França no início dos anos 2000. Surgido do outro lado do Atlântico na década de 1980, ele foi importado para o país europeu pelas filiais francesas de multinacionais norte-americanas. “Nos Estados Unidos, essa aliança é natural”, explica Françoise Picq, historiadora, socióloga do feminismo e ex-militante do Movimento de Libertação das Mulheres (MLF). “O sistema é capitalista, busca-se dinheiro onde há. As ações são realizadas por meio de arrecadação de fundos ou por grandes fundações.” Em 2007, a França contava com apenas cerca de uma centena dessas redes que defendem o acesso das mulheres aos cargos mais elevados,2 ao passo que hoje há mais de quinhentas delas no país, de acordo com o Cercle InterElles.3 Esse clube, fundado em 2001 por executivas das companhias France Telecom, IBM France, Schlumberger e GE Healthcare, “possibilitou um intercâmbio de boas práticas: ele oferece um espaço de compartilhamento para que as mulheres possam acessar posições de liderança, ao mesmo tempo que dão visibilidade às multinacionais”, explica Pochic.

 

Monitoring, networking e mentoring

O primeiro feito desse discreto lobby foi a aprovação, em 2011, da Lei Copé-Zimmermann. A nova legislação francesa obriga as empresas privadas e públicas que tenham mais de quinhentos funcionários permanentes e um volume de negócios de pelo menos 50 milhões de euros a ter, entre seus altos executivos, um mínimo de 40% de homens (em conselhos majoritariamente femininos) ou de mulheres (em conselhos majoritariamente masculinos). Essa obrigação não abrange comitês executivos e de diretoria: essas instâncias, que são as que detêm o real poder de decisão, contavam em 2019 com apenas 17,9% de mulheres.4 Aliás, a Engie é atualmente a única empresa do CAC 40, o índice que reúne as quarenta maiores empresas cotadas na Bolsa de Paris, chefiada por uma mulher: Catherine MacGregor, que assumirá suas funções no início de 2021, sucedendo a Isabelle Kocher. Mas a França continua sendo um dos poucos territórios – junto com a Noruega desde 2003, a Itália desde 2011 e a Califórnia desde 2018 – a adotar cotas desse tipo. Assim, o país apresenta a maior taxa de feminização nos conselhos de administração das grandes empresas, que passou de 8,5% em 2007 para 43,6% em 2019.5

O feminismo conduzido pelas elites não é novo: das sufragistas, que em 1903 já lutavam pelo direito ao voto feminino, à ex-ministra Simone Veil, passando pela jornalista e escritora Hubertine Auclert, ele fez parte de avanços importantes em termos de igualdade. “Na história do feminismo, sempre houve mulheres de classe alta”, observa Françoise Picq. Desde sempre, correntes diversas se opuseram, e até se enfrentaram. “Já no século XIX, mulheres foram criticadas por serem burguesas interessadas em usufruir dos privilégios de sua classe. Algumas desejavam ser independentes do movimento social. Não queriam se aliar às franjas feministas dos sindicatos, que defendiam uma aliança com o socialismo. Mas, nessa época, tratava-se de intelectuais, mulheres à margem, que escreviam ou se posicionavam contra a escravidão.”

Para evitar qualquer confusão com organizações feministas ou sindicais “radicais”, Aude de Thuin define o WF, da qual é fundadora, como um “empreendimento econômico, assim como Davos” (ler boxe). Se em seus primórdios o encontro anual recorreu ao patrocínio de multinacionais (Engie, McKinsey, Sodexo e Renault, cujo ex-presidente Carlos Ghosn foi um dos primeiros apoiadores do fórum), em 2019 a empresa organizadora do WF, a Wefcos, registrou um volume de negócios de 6,6 milhões de euros. Cabe lembrar que o preço do ingresso é particularmente elevado: 3 mil a 4 mil euros por dois ou três dias de conferências, multiplicados por mil a 2 mil participantes.

Esse modelo econômico inspirou outras organizações, que tecem a teia de um feminismo empresarial cada vez mais estruturado. A Journée de la Femme Digitale (JFD, Jornada Feminina Digital), que participa regularmente das conferências organizadas pelo WF, promove start-ups digitais. São “novas heroínas”, nas palavras de sua cofundadora Delphine Remy-Boutang, que conta com o apoio financeiro de várias empresas do CAC 40, como a Total, a Orange e a L’Oréal, além de empresas norte-americanas, como a Google e a Microsoft. “Não somos uma associação, mas um negócio lucrativo”, preocupa-se também ela em esclarecer.

Na defesa do acesso das mulheres a cargos de liderança, o argumento central é o de que a igualdade garantiria às empresas benefícios econômicos, contribuindo de forma mais geral para o crescimento. Segundo Boris Janicek, ex-executivo da L’Oréal e copresidente do Club XXIe Siècle, que promove a diversidade no mundo corporativo, esta tem um “valor econômico real”. Ele elogia, por exemplo, a decisão do banco Goldman Sachs de, a partir de julho de 2020, não acompanhar mais na Bolsa empresas que não tenham em seu conselho de administração pelo menos uma mulher e/ou uma pessoa “da diversidade”. “Não se trata de altruísmo ou de responsabilidade social corporativa”, garante. “A questão das mulheres está intimamente ligada à questão dos valores produtivos. Em empresas cujas dirigentes são mulheres ou pessoas de origens diversas, houve uma valorização de 44% em quatro anos, contra 13% nas demais.”

Grandes empresas de consultorias, como a EY e a McKinsey, abraçam essa tese, defendendo a ideia de que “a igualdade seria boa para o mercado e que o mercado seria bom para a igualdade”, explica Sophie Pochic. A McKinsey tenta demonstrar isso anualmente, com seu estudo “Women Matter” [As mulheres importam], publicado em parceria com o WF. São recomendados métodos padronizados em escala global, tanto em instâncias privadas como públicas: monitoring (acompanhamento de indicadores quantificados), networking (constituição de redes de mulheres em posições executivas), mentoring (acompanhamento individual) etc. “Essa retórica promove medidas individualizadas e seletivas para uma minoria de funcionárias ou de empresárias ‘com potencial’, ‘de talento’ ou ‘de excelência’, que são tratadas separadamente da massa de trabalhadoras comuns”, relata Sophie Pochic.

Com a Lei Copé-Zimmermann, a atenção dada pelo poder público aos círculos de mulheres líderes só aumentou. Mas essas redes triunfaram realmente sob a presidência de Macron. Vários membros de seu governo foram convidados para o WF, como a ex-ministra do Trabalho Muriel Pénicaud e a atual ministra delegada da Indústria, Agnès Pannier-Runacher, além da cofundadora do partido Em Marcha!, Astrid Panosyan. Em outubro de 2019, Marlène Schiappa e Cédric O., então secretários de Estado, respectivamente para a Igualdade entre Mulheres e Homens e para Assuntos Digitais, confiaram uma missão à diretora-geral do WF, Chiara Corazza. O relatório apresentado por ela em fevereiro de 2020, intitulado “Les femmes au cœur de l’économie: la France pionnière du leadership au féminin dans un monde en pleine transformation” [As mulheres no centro da economia: França, pioneira da liderança feminina em um mundo em transformação], baseia-se largamente no trabalho dos membros do comitê estratégico do WF: o círculo “Mulheres e clima” é dirigido pelo BNP Paribas; “Mulheres e acesso à saúde”, pela Axa; “Mulheres e inteligência artificial”, pela Microsoft. “É uma questão de justiça e equidade, mas também de desempenho econômico: se mulheres e homens forem representados de maneira igual, 240 milhões de empregos [no mundo] podem ser criados até 2025, e US$ 28 trilhões adicionados ao PIB”, afirma o documento, que deveria subsidiar um projeto de lei sobre emancipação econômica das mulheres, que está em suspenso. A maioria das 27 medidas defendidas diz respeito ao acesso à tecnologia e à ciência, ao estabelecimento de cotas, ao acesso a patrocínios ou à criação de bolsas de excelência. Há apenas duas menções à igualdade salarial e um ponto recomendando a prorrogação da licença-paternidade, medida colocada em prática nesse meio-tempo, pois a licença deve dobrar – de 14 para 28 dias – a partir de 1º de julho de 2021.

 

Afinidades eletivas com o “macronismo”

Essas afinidades eletivas entre as redes do patronato feminino e o “macronismo” ajudaram a marginalizar os sindicatos de trabalhadores na questão da igualdade profissional. Em 2018, o governo solicitou a expertise de Sylvie Leyre, então diretora de Recursos Humanos da Schneider Electric. A ministra do Trabalho, Muriel Pénicaud, pediu que ela definisse as modalidades de um software de avaliação das desigualdades salariais. Seu relatório deu origem ao Índice de Igualdade Profissional, que foi integrado à Lei da Liberdade de Escolha do seu Futuro Profissional, de 2018. Para Sophie Pochic, a eficácia dessa ferramenta, apresentada pelo governo como “decisiva”, deve ser relativizada: “O índice mostra o número de mulheres entre os dez maiores salários corporativos, a obtenção ou não de aumento salarial após o retorno da licença-maternidade, a disparidade de remuneração em grupos profissionais equivalentes etc. Na verdade, é uma síntese de indicadores legais que já existiam”. Além disso, sindicatos e pesquisadores criticaram o método de cálculo das disparidades de remuneração. É o caso da Confederação Geral do Trabalho (CGT), que em março de 2019 destacou, em um comunicado à imprensa: “Alguns dos fatores estruturais das disparidades de remuneração não se enquadram no escopo do índice: as disparidades de tempo de trabalho, as disparidades cumulativas de carreira e a desvalorização de empregos predominantemente femininos foram, no geral, eliminados”.

A equipe do governo Macron cercou-se da expertise de líderes empresariais e de altos executivos do setor privado para redigir suas leis, ignorando associações feministas tradicionais. “Não tivemos nenhum contato com Marlène Schiappa por um ano e meio”, lembra Caroline De Haas, fundadora do coletivo #NousToutes [#TodasNós]. “Isso só mudou depois da nossa marcha [contra a violência sexual e de gênero, em novembro de 2019 (N.T.)], que reuniu 30 mil pessoas”. Marilyn Baldeck, delegada geral da Association Européenne contre les Violences Faites aux Femmes au Travail (AVFT, Associação Europeia contra a Violência contra as Mulheres no Trabalho), lamenta o desaparecimento dos “canais de comunicação com o poder público desde 2017”. Marlène Schiappa assume essa ruptura com “associações satélites do Partido Socialista”, em suas palavras, esclarecendo que os subsídios da AVFT foram mantidos: “É uma associação politizada, engajada com partidos de esquerda. Eu não dou a caneta de meus projetos de lei a pessoas que são opositoras do governo”, irrita-se quando questionada a respeito. Marilyn Baldeck defende-se, divertida: “Ao contrário do que pensa a ministra, a AVFT e eu nunca fomos próximas do Partido Socialista ou de qualquer outro partido”.

Para se fazerem conhecer, as redes de mulheres líderes contam com poderosos contatos na mídia, que compartilham de sua sensibilidade política. Em troca, as grandes empresas que as apoiam, parceiras e às vezes anunciantes desses meios de comunicação, compram uma vitrine feminista. Assim, o “Davos das Mulheres” utilizou as redes de mídia da comunicadora Anne Méaux (ler boxe) e as da agência Publicis.6 Todo ano, ele conta com uma elogiosa cobertura de veículos como Le Figaro, Elle, Challenges, Les Échos e La Tribune, que são seus parceiros. Essa proximidade pode dar origem a uma censura mais ou menos sutil. Um jornalista que trabalhou em um desses veículos conta sobre uma conversa telefônica entre um freelancer e um editor da redação: “Publicar um perfil de Anne Méaux seria arriscado”, dizia este. “Ela é muito poderosa. Conhece todos os nossos anunciantes. Eu seria despedido se a criticasse.”

 

Vitrine para as grandes empresas

Nessa mesma redação, uma jovem jornalista escreveu um artigo sobre a política social da L’Oréal, após uma funcionária fazer uma queixa por discriminação em razão de sua gravidez. Representantes da marca, segunda maior anunciante do veículo, imediatamente se reuniram com as mais elevadas instâncias da redação para modificar o artigo, que já estava on-line, além de publicar seu direito de resposta. Depois, a mídia só voltou a falar da empresa de forma elogiosa. O grupo de cosméticos, financiador do WF, preocupa-se com sua imagem feminista. Ele é parceiro do Conselho Consultivo para a Igualdade entre Mulheres e Homens, instituído em 2019 pelo G7 (então presidido pela França) com o apoio de Marlène Schiappa. Essa conivência também é ilustrada por um apelo da direção da empresa ferroviária francesa SNCF aos jornalistas da redação na primavera de 2019. Em pleno movimento social contra a reforma que deveria abrir o transporte de passageiros à concorrência, ela solicitou um artigo exaltando sua política de igualdade entre mulheres e homens. Em contrapartida, passagens grátis para os jornalistas.

Para essa mídia, a promoção de lideranças femininas tornou-se um tema recorrente, bem como uma fonte de receitas. Há quatro anos, o prêmio Business with Attitude [Negócios com Atitude], organizado pela revista Madame Figaro, premia empresárias líderes de start-ups. Cerca de cem inscrições são examinadas pela redação e por um júri, em grande parte formado por executivos de grandes empresas – este ano: La Poste, Accor, Oddo BHF Banque Privée, Engie, Google e EY, sem falar do banco público Bpifrance, representado por Patrice Bégay. Em troca de seu financiamento ou envolvimento, essas empresas conseguem que falem bem delas, o que pode ser útil para desviar a atenção de assuntos incômodos. Em 2019, em pleno caso Carlos Ghosn,7 um representante da Renault usou um café da manhã da premiação para declarar o apoio inabalável da montadora e de seu presidente à causa das mulheres.

Por sua vez, a revista Elle lançou o fórum Elle Active, que trata do lugar da mulher no mundo do trabalho. Durante a edição de 2019, convidados como a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, e Jacques de Peretti, CEO da Axa France, puderam apresentar ao público sua visão do feminismo, ao lado de redes como Force Femmes, Laboratoire de l’Égalité, Financi’Elles e InterElles. Perto dali, um estande da L’Oréal Paris maquiava as participantes para destacar a importância da aparência nas seleções de emprego. Presente como observadora na edição 2019, Sophie Pochic destaca que “esse tipo de evento, graças ao patrocínio da marca, permite que um jornal em dificuldades continue existindo. Esse aspecto financeiro às vezes é mais importante do que o conteúdo das discussões. Como o evento é gratuito, ele ajuda a popularizar a causa dos empresários”.

(Sincerely Media/Unsplash)
Funcionários castigados

Se a feminização das esferas de poder vai muito bem, na base da pirâmide as coisas são diferentes: em 2018, 78% dos empregados de meio período eram mulheres, e quase uma em cada três mulheres tinha um emprego de meio período.8 Esse tipo de contrato predomina em profissões altamente feminizadas do setor de serviços (limpeza, restaurantes, varejo, saúde etc.). Como corrigir essa política de igualdade profissional com dois pesos e duas medidas? Delphine Remy-Boutang considera o empreendedorismo uma forma de sair da precariedade: “Muitas mulheres ocupam funções que vão desaparecer: operadoras de caixa, por exemplo. Elas precisam de ajuda para fazer sua transformação digital”.

Essa também é a abordagem da Force Femmes. A associação, criada em 2005 em torno das mesmas figuras que o WF, hoje é presidida por Anne Méaux e por Véronique Morali. Com o apoio financeiro de grandes empresas, os voluntários da associação ajudam mulheres desempregadas de 45 anos ou mais a encontrar um emprego ou a abrir sua própria empresa. “As burguesas muitas vezes se valeram de sua posição dominante para ajudar outras mulheres”, analisa Françoise Picq. “Entre a filantropia e certo tipo de ativismo feminista, a linha geralmente é tênue.” De maneira mais direta, Marion Rabier, professora de Ciência Política da Universidade de Mulhouse, afirma: “Eu não acredito que a feminização das esferas dominantes seja mecanicamente uma alavanca para a igualdade profissional”. Para ilustrar esse ponto, ela conta sobre uma frequentadora do WF, que conheceu no decorrer de seu trabalho, a qual se queixava de suas duas secretárias, então em licença-maternidade, confidenciando-lhe a intenção de futuramente contratar funcionárias mais velhas…

As preferências ideológicas dessas mulheres as levam a apoiar reformas que prejudicam a grande maioria de suas semelhantes. Em setembro de 2017, antes da assinatura dos decretos de reforma da legislação trabalhista, elogiados por Laurence Parisot, ex-presidente do Movimento das Empresas de França (Medef), cerca de sessenta personalidades e organizações feministas alertaram contra medidas que iriam “aumentar as desigualdades profissionais”.9 Elas ficaram particularmente preocupadas com o desaparecimento dos comitês de higiene, segurança e condições de trabalho (CHSCT), que se fundiram com outros dois órgãos nos novos comitês sociais e econômicos (CSE). “Quando começamos a ver agitações relativas à violência contra a mulher no trabalho, abolimos o CHSCT”, comenta Marilyn Baldeck.

Há anos, proliferam greves de camareiras terceirizadas de hotéis. No verão de 2019, quando se iniciou uma mobilização no hotel Ibis Batignolles, em Paris, Marlène Schiappa anunciou que examinaria a situação. Sébastien Bazin, presidente do grupo Accor, do qual o hotel faz parte, fora um dos ilustres convidados do WF de 2015. Em setembro de 2019, Marlène Schiappa esteve no piquete do Ibis Batignolles. “Ela deixou claro que não poderia interferir nas decisões econômicas da empresa, portanto na terceirização”, conta uma sindicalista que estava ao lado das camareiras.10 A ex-secretária de Estado afirma ter apoiado o “princípio” do projeto de lei do deputado François Ruffin (França Insubmissa) voltado a “regulamentar a terceirização” no setor da limpeza, que depois foi retirado. Na verdade, se o deputado de esquerda acabou decidindo por retirar o texto no final de maio de 2020, foi porque o considerou “esvaziado de seu conteúdo” pela maioria parlamentar.

 

Da Hewlett-Packard ao ministério

Em julho de 2020, Marlène Schiappa cedeu seu lugar a Élisabeth Moreno, ministra delegada da Igualdade entre Mulheres e Homens. A ex-presidente da Lenovo França, então Hewlett-Packard África, é uma “amiga do Women’s Forum”, segundo Chiara Corazza: “Vou tentar ajudá-la o máximo que puder”. Ela também foi membro do Club XXIe Siècle, participou da JFD e da Women in Africa, plataforma fundada em 2015 por Aude de Thuin. “Tenho muita esperança em Élisabeth Moreno, que conheço bem”, confessa a criadora do “Davos das Mulheres”.

Pouco depois de assumir seu cargo, Élisabeth Moreno almoçou com as associações feministas que sua antecessora havia deixado um tanto abandonadas. Não é certo, porém, que uma nova página esteja sendo escrita. Durante o encontro, enquanto uma militante da Federação Nacional de Mulheres Solidárias explicava que sua associação havia coordenado uma rede de apoio e alojamento para vítimas de violência, além de gerir uma linha telefônica de emergência, a ministra respondeu com muita naturalidade: “Sim, é isso mesmo, estamos falando de experiência do cliente”.

Progressistas, mas com moderação…

A fundadora do Women’s Forum for the Economy and Society (WF, Fórum de Mulheres para a Economia e a Sociedade), Aude de Thuin, fez da promoção de mulheres líderes corporativas sua causa pessoal e de sua vida um exemplo de sucesso. Em um livro publicado em 2012, Femmes, si vous osiez [Mulheres, se vocês ousassem] (Robert Laffont), a mulher de negócios conta ter sido uma criança “com uma natureza extravagante”. Verdadeira “moleca”, ela teria desesperado sua mãe, que gostaria de vê-la no funcionalismo. Mas o empreendedorismo era “realmente a história de [sua] vida!”, escreve a mulher que procurou a psicanálise para curar as feridas causadas pela falta de amor da mãe. Essa prática a fez concluir que “a autoconfiança é crucial para vencer na vida”.

No início dos anos 2000, Aude de Thuin ganhou destaque pela criação de revistas e feiras dedicadas à jardinagem e ao lazer criativo. Sua feira Création et Savoir-Faire [Criação e Know-How], realizada na Porte de Versailles, em Paris, tinha uma “creche para homens, com um bar muito chique, serviço de engraxamento de sapatos, alfaiate e televisão exibindo jogos de futebol e rúgbi”. Na época, apesar de suas conquistas – e de sua disposição para pagar um ingresso caro –, a empresária teve seu acesso ao Fórum Econômico Mundial de Davos negado, segundo ela por ser mulher e dirigente de uma pequena ou média empresa (PME): “Na época, Davos recebia apenas 4% de mulheres”, conta. “Eu achava isso totalmente injusto.” Em 2003, o ex-diretor-geral do fórum, Claude Smadja, ajudou-a a criar um novo fórum econômico mundial, dedicado às “mulheres influentes”. A primeira edição foi realizada em 2005. Encontrando “palestrantes” de todo o mundo em suas frequentes viagens para Washington (sobretudo para assistir às conferências da fundação de Hillary Clinton), ela cercou-se de mulheres de alto escalão: no primeiro conselho do WF estavam mulheres como Anne Lauvergeon, presidente do conselho executivo da Areva, Véronique Morali, então diretora da Fimalac, a holding do bilionário Marc Ladreit de Lacharrière, ou ainda Laurence Parisot, ex-presidente do Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop) e do Movimento das Empresas da França (Medef), o principal sindicato patronal francês.

“O fato de eu ser uma feminista pragmática foi muito útil para o Women’s Forum, que, por isso, nunca foi acusado de ser vingativo ou radical”, congratula-se em seu livro. Não se trata de aderir a uma visão igualitarista das relações entre os sexos: “A complementaridade entre homens e mulheres [continua] essencial tanto na política como no mundo econômico”. Preocupada em não fazer “sexismo às avessas”, Aude reitera que, durante sua presidência, o fórum tinha 20% de oradores homens. Assim, como as mulheres “não estão disputando nem competindo”, ela quer acreditar que elas são “um grande fator de mudança para construir um mundo mais moral, mais respeitoso em relação ao outro”.

Embora a maioria das líderes do WF tenda para o campo liberal (como Mercedes Erra, presidente da agência de publicidade BETC, que apoiou Emmanuel Macron em 2017 e se descreve como “social-liberal”), algumas são próximas da direita conservadora. Em 2014, Aude passou seu lugar a Clara Gaymard, ex-presidente da General Electric France, que teve um papel fundamental na operação de compra da Alstom pela empresa norte-americana. Exibindo publicamente suas convicções religiosas, ela participou da criação, em 1996, da Fundação Jérôme-Lejeune, que leva o nome de seu pai, professor de medicina e ativista católico contra a interrupção voluntária da gravidez.

Uma das pioneiras do WF, Anne Méaux, atuou na extrema direita em sua juventude, especialmente no Grupo de Defesa Sindical (GUD). Na época, ela conviveu com Alain Madelin e Gérard Longuet, anticomunistas virulentos que alguns anos depois se tornaram próximos do presidente Valéry Giscard d’Estaing. Léa Salamé entrevistou a comunicadora para seu livro Femmes puissantes [Mulheres poderosas], que se originou de uma série de entrevistas com personalidades femininas, as “entrevistas mais inspiradoras” que a radialista já realizou. Escolhida por sua “força interior” e sua “influência na sociedade”, Anne Méaux passa rápido por seu passado neofascista – modestamente descrito como uma luta contra as “violações das liberdades e do totalitarismo”.1 Reivindicando-se atualmente de “direita liberal”, em 2017, por meio de sua empresa de comunicação Image 7, ela foi assessora de François Fillon, então candidato à presidência.

Desde a saída de Clara Gaymard, em 2017, o WF está sem presidente. É sua diretora, Chiara Corazza, quem segura as rédeas. Ela foi recrutada por Clara, que cruzou com ela no setor de investimentos internacionais e na prestigiada escola privada Stanislas, em Paris, onde seus filhos foram educados juntos. Desde sua chegada, o WF conta com um comitê estratégico que reúne sete grandes grupos empresariais, entre eles Axa, Bayer, Microsoft e BNP Paribas, que mobilizam sua expertise para contribuir nas reflexões. Chiara também considera que homens e mulheres são “complementares” (Les Échos, 21 out. 2019). “Eu só quero que as mulheres tenham as mesmas oportunidades na construção do futuro.” (M.K. e T.R.)

1 Léa Salamé, Femmes puissantes [Mulheres poderosas], Les Arènes – France Inter, Paris, 2020.

 

*Maïlys Khider e Timothée de Rauglaudre são jornalistas. Rauglaudre é também autor de Premières de corvée [De baixo para cima], LGM Éditions, Paris, 2019.

 

1 Sophie Pochic, “Féminisme de marché et égalité élitiste?” [Feminismo de mercado e igualdade elitista?]. In: Margaret Maruani (ed.), Je travaille, donc je suis. Perspectives féministes [Trabalho, logo existo. Perspectivas feministas], La Découverte, Paris, 2018.

2 Emmanuelle Gagliardi e Wally Montay, Guide des clubs et réseaux au féminin [Guia de clubes e redes sobre questão feminina], Le Cherche Midi, Paris, 2007.

3 Valérie Lion, “Entreprises: relever le pari des réseaux féminins” [Mundo corporativo: reforçar a aposta das redes femininas], L’Express, Paris, 18 jan. 2019.

4 Laurence Boisseau, “La France championne du monde de la féminisation des conseils d’administration” [França, campeã mundial na feminização dos conselhos de administração], Les Échos, Paris, 7 mar. 2019.

5 Ibidem.

6 Marion Rabier, “Entrepreneuses de cause: contribution à une sociologie des engagements des dirigeants économiques en France” [Empreendedores de causa: contribuição para uma sociologia dos compromissos dos líderes econômicos na França], tese defendida na École des Hautes Études en Sciences Sociales (Ehess), Paris, 2013.

7 O ex-presidente da aliança Renault-Nissan é suspeito de vários desvios financeiros.

8 “Quelles sont les conditions d’emploi des salariés à temps partiel?” [Quais as condições de emprego dos trabalhadores de tempo parcial?], Dares Analyzes, n.025, Paris, ago. 2020.

9 “Loi travail: les droits des femmes passent (aussi) à la trappe” [Legislação trabalhista: os direitos das mulheres (também) desapareceram], Les Invités de Mediapart, 6 set. 2017. Disponível em: https://blogs.mediapart.fr.

10 Timothée de Rauglaudre, “Journées infernales d’une femme de chambre” [As jornadas infernais de uma camareira], Alternatives Économiques, n.396, Paris, 27 nov. 2019.

 

 

 

 

 

 



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