As relações entre Irã e Síria à prova da mudança em Teerã - Le Monde Diplomatique

FLEXIBILIDADE HEROICA” E PRAGMATISMO

As relações entre Irã e Síria à prova da mudança em Teerã

2 de outubro de 2013
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Por ocasião de uma entrevista dada ao Washington Post, o novo presidente iraniano, Hassan Rohani, ofereceu sua mediação no conflito sírio. Com mais de trinta anos de duração, as relações estratégicas entre Damasco e Teerã estão ameaçadas? A República Islâmica se prepara para influenciar a política e abandonar Al-Assad?

Exilado em Nadjaf, no Iraque, desde 1964, o aiatolá Ruhollah Khomeini decidiu em 1978 deixar o país para escapar às pressões do poder baassista de Saddam Hussein. Alguns de seus próximos o aconselharam na época a escolher a Síria, também dirigida pelo partido Baas, mas por uma ramificação resolutamente hostil a Saddam Hussein. Escaldado por sua aventura iraquiana, o aiatolá por fim escolheu a França. No entanto, apesar dessa desconfiança, a Síria da família Al-Assad, no poder desde 1970, soube se tornar um aliado estratégico da República Islâmica do Irã e tirar proveito disso durante trinta anos, nos planos financeiros, militares e econômicos.

Diversos elementos contribuíram para essa aliança. Desde 1978, depois dos acordos de Camp David entre Anwar Sadat e Menahem Begin, prelúdios da paz entre o Egito e Israel, o presidente Hafez al-Assad procurou um novo parceiro para substituir o Cairo. Ele se transformou no aliado indispensável de Teerã ao condenar a invasão iraquiana do Irã em setembro de 1980, contrariamente às monarquias árabes do Golfo.

A criação e o desenvolvimento do Hezbollah no Líbano depois da invasão israelense de 1982 reforçaram essa aliança, já que os exércitos iranianos destinados à organização xiita tinham de transitar pela Síria. Sinal de importância dessas relações, apenas o embaixador da República Islâmica em Damasco era diretamente nomeado pelo Guia Supremo. Bastava, inclusive, um simples olhar sobre as listas desses enviados especiais e sobre suas carreiras para constatá-lo. Assim, ao retornarem ao Irã, Mohammad Hossein Akhtari e Hossein Mousavi trabalharam dentro do gabinete do Guia Supremo e abandonaram sua carreira no Ministério das Relações Exteriores.

A eleição à presidência de Mohammad Khatami em 1997 enfraqueceu a ligação entre Teerã e o Hezbollah, pois os reformadores iranianos buscavam normalizar suas relações com os países árabes do Golfo. Assim, durante sua visita ao Líbano em abril de 2002, o ministro das Relações Exteriores de então, Kamal Kharazi, pediu à organização que desse provas de maior comedimento,1 o que levou seu secretário-geral, Hassan Nasrallah, a se dirigir a Teerã para reclamar junto ao Guia Supremo Ali Khamenei. Nessa época, as relações entre a embaixada em Beirute e o Hezbollah eram tão cheias de desconfiança, que foram transferidas para os Guardas da Revolução (pasdarans), que tratavam diretamente com a organização.

Mas o governo reformador de Khatami foi interrompido em sua vontade de normalização de suas relações internacionais e regionais pela decisão do governo de George W. Bush de janeiro de 2002 de incluir o Irã no Eixo do Mal. A administração norte-americana rejeitou o compromisso sobre o dossiê nuclear assinado em novembro de 2004 pelos ministros das Relações Estrangeiras da Troika europeia – França, Reino Unido e Alemanha – e por Hassan Rouhani, então secretário do Conselho Superior da Segurança Nacional; ele previa a suspensão do programa de enriquecimento do urânio.

Debate no centro do poder

Esse endurecimento favoreceu a vitória de Mahmoud Ahmadinejad na eleição presidencial de 2005. As forças de segurança e os Guardas da Revolução reforçaram então seu controle sobre a gestão das relações regionais. O apoio ao Hezbollah ficou mais firme e as ligações se reforçaram com o poder sírio, enfraquecido e isolado depois do assassinato em 14 de fevereiro de 2005 de Rafic Hariri, o ex-primeiro-ministro libanês – atentado do qual Damasco foi acusada pelos Estados Unidos e pela França.

Com o início, no começo de 2011, do que se chamou de “Primavera Árabe”, a política regional do Irã entrou numa zona de incertezas. De um lado, Teerã tentou dar crédito à ideia de que essas “revoluções” foram inspiradas por sua própria revolução; a chegada dos islamitas ao poder era apresentada como a realização da promessa do aiatolá Ali Khamenei, que havia predito um “despertar islâmico”. Por outro lado, o mesmo regime que havia reprimido seus opositores dois anos antes acabou denunciando a insurreição na Síria, que estimou manipulada pelo Ocidente ou por Israel. Porém, ele apoiou as revoluções tunisiana, egípcia, líbia, iemenita e bareinita.

Esse paradoxo perdurou por um ano, até que Teerã decidiu usar sua influência política e passou a cogitar a possibilidade de uma transição em Damasco sem o presidente Bashar al-Assad. O Irã iniciou então um diálogo com a oposição síria e se empenhou em ocupar um posto de mediador.

Uma parte dessa estratégia se explica pela rivalidade com a Arábia Saudita, aliada estratégica dos Estados Unidos. Essa competição ganhou uma faceta religiosa: o Irã apoia o Hezbollah libanês e outros grupos militantes xiitas, enquanto a Arábia Saudita não economiza esforços em favor dos grupos salafistas e jihadistas sunitas. Tal polarização aprofundou o fosso entre as populações que viviam até então em relativa harmonia, fosse na Síria, no Líbano ou no Iraque.

Os grupos salafistas tinham como alvo os xiitas, enquanto as organizações políticas xiitas como o Hezbollah viam no salafismo e sua ramificação jihadista seu principal inimigo e os acusavam de permanecerem inativos perante Israel.

Mas a rivalidade entre Teerã e Riad não se reduziu apenas a uma dimensão religiosa nem a um enfrentamento entre xiitas e sunitas. O Irã apoiou a Primavera Árabe e os islamitas sunitas na Tunísia e no Egito, e se aproximou da Irmandade Muçulmana, enquanto a Arábia Saudita condenou essa organização e apoiou o golpe de Estado de 3 de julho de 2013 contra o presidente Mohammed Morsi. Teerã se aliou ao poder de Damasco, cujos princípios são bem distantes dos da Revolução Islâmica: esse companheirismo corresponde mais a interesses geopolíticos do que religiosos.

Nos debates da campanha presidencial de 2013, a política internacional da República Islâmica, sendo área reservada ao Guia, teria escapado a qualquer avaliação. Mas o consenso oficial não resistiu às sanções internacionais, consequências das resoluções sucessivas do Conselho de Segurança das Nações Unidas, e ao isolamento crescente do país na região. Assim, Rouhani se singularizou como o candidato mais crítico do balanço diplomático de seu predecessor, o que lhe permitiu marcar muitos pontos.

Desde sua vitória em junho de 2013, quando de sua primeira intervenção televisiva, o novo eleito, acostumado com as engrenagens da política securitária e internacional, prometeu melhorar as relações com Riad, reatando com a estratégia de Khatami. Rohani, que como membro do Conselho Supremo de Segurança Nacional tinha assinado um acordo sobre a segurança com a Arábia Saudita em 1998, qualificou esse país como “irmão e amigo”.2 No meio de setembro, algumas mídias iranianas e sauditas cogitavam uma visita do presidente à Arábia Saudita pela ocasião da peregrinação para a qual ele foi oficialmente convidado pelo rei Abdullah.

O Guia Supremo saúda a “flexibilidade”

Os novos métodos de trabalho do gabinete presidencial e os anúncios feitos por seu ministro das Relações Exteriores, Mohammad Javad Zarif, atestaram essas mudanças. Em um tweet endereçado no dia 5 de setembro de 2013 à filha de Nancy Pelosi, a antiga presidente da Câmara dos Representantes norte-americana, o ministro desejou um feliz ano-novo aos judeus do mundo e afirmou que “o Irã nunca negou o Holocausto. O homem que foi considerado o negador agora não está mais ali”, uma referência ao antigo presidente Ahmadinejad.

Herdeiro de uma situação econômica catastrófica, Rouhani busca antes de mais nada um alívio da pressão internacional e principalmente das sanções para dar um novo impulso à economia que retrocedeu, segundo um membro do Parlamento e da nova administração, 5,6% neste ano. O presidente que saiu pretendia que ela tivesse crescido 6%.

Em seu movimento em direção ao que ele chama de um relaxamento com o Ocidente, Rouhani chegou a quebrar tabus; ele conseguiu neutralizar os últimos recalcitrantes no seio dos Guardas da Revolução e obteve o apoio do Guia Supremo, que, num discurso em 17 de setembro, saudou a “flexibilidade heroica” da diplomacia.3 É, sem dúvida, no dossiê nuclear, cuja gestão foi confiada ao ministro das Relações Exteriores, que se concentram as possibilidades de abertura ao Ocidente. Pela primeira vez, o presidente reconheceu que o tempo estava contado tanto para Teerã como para os ocidentais.4

Na sequência, o governo poderia imaginar outros roteiros na Síria, assim como diversos indícios sugerem. No dia 29 de agosto, em sua página no Facebook, Naiimeh Essraghi, a neta do aiatolá Khomeini, divulgou a opinião do ex-presidente Hachemi Rafsandjani a respeito da utilização de gás na periferia de Damasco: “Um poder que utiliza armas químicas contra sua própria população sofrerá consequências catastróficas”. Alguns dias depois, um vídeo de um discurso de Rafsandjani, filmado na cidade de Savakouh e retomando as mesmas palavras, circulava na rede.5 O ex-presidente não contestou claramente ter manifestado tais ideias, contentando-se em fazer seminegações.

Outro indício, as declarações de 13 de setembro de Sardar Alaei, um dos ex-comandantes dos Guardas da Revolução: “Infelizmente, desde que a questão síria foi criada, uma atmosfera anti-iraniana se propagou pelos povos do mundo árabe. A pergunta que todos fazem o tempo todo é: por que vocês que acreditam na democracia apoiam o regime despótico da Síria? É uma questão levantada o tempo todo por muitos dos que tiveram um papel nas agitações desses três anos nos países árabes… Isso diminui consideravelmente a influência do Irã no pensamento do mundo árabe”.6

Alaei, que foi também chefe do Estado-Maior, está entre as principais personalidades iranianas a ter evocado uma mudança política perante a Síria. Um ano antes, em uma entrevista dada ao site Diplomacia Iraniana, administrado pelo antigo embaixador do Irã na França, Sadegh Kharrazi, ele declarou: “A maioria dos opositores do atual regime sírio pensa que a partida de Bashar seria a ocasião para introduzir verdadeiras reformas na Síria. O Irã também pensa aos poucos em uma ‘Síria sem Bashar al-Assad’”.7

Claro, essas declarações não são unânimes. O comandante da força Al-Quds dos Guardas da Revolução, Qassem Soleymain, por exemplo, afirmou que o Irã apoiaria a Síria “até o fim”.8 Mas ao menos o debate está aberto.

Um ditado circula em Teerã: “O clero xiita esperou 1.400 anos [desde o nascimento do islã] antes de tomar o poder e não está disposto a renunciar a ele facilmente”. O conjunto das crises que o Irã conheceu durante esses últimos trinta anos confirmou sua capacidade de adaptação, mas também de possíveis mudanças de linha resultantes dos debates internos.

Apesar da guerra contra o Iraque, das contestações internas e das sanções, a República Islâmica soube garantir seu poder. Em 1998, o aiatolá Khomeini tinha qualificado a Resolução n. 598 do Conselho de Segurança da ONU, que visava colocar um fim à guerra com o Iraque, como “nula” e sua aceitação como “um ato de desobediência ao profeta do islã”. No entanto, alguns dias depois, ele se aliou a ela, pois sua recusa teria prolongado o conflito e isolado seu país.

Em 1987, em plena guerra contra o vizinho iraquiano, o aiatolá Khomeini anunciou que poderia esquecer a questão de Jerusalém e até mesmo Saddam Hussein, mas não perdoaria nunca o comportamento da família real saudita, com a qual nenhuma relação deveria ser estabelecida. No entanto, em 10 de dezembro de 1991, Hachemi Rafsandjani, então presidente, encontrou o futuro rei Abdullah, na época príncipe herdeiro da Arábia Saudita.

Modificar a política regional

A situação atual da Síria oferece dois caminhos possíveis para Teerã: contribuir com a continuidade da guerra e seguir apoiando incondicionalmente o poder de Al-Assad ou modificar sua política regional sem deixar de preservar seus interesses. Em uma situação semelhante, a da crise libanesa de 2006-2008, o Irã deu sinal verde para que o Hezbollah assinasse o acordo de Doha, apadrinhado pelo Catar e pela Arábia Saudita – o que lhe permitiu sair da crise e organizar eleições. Da mesma forma, ele havia apoiado os acordos de Taef de 1989, que puseram fim à longa guerra civil libanesa, depois de ter garantido que o Hezbollah continuaria mestre de suas armas, enquanto as outras milícias seriam desarmadas.

Seria possível imaginar um roteiro desse tipo, que permitiria a Teerã apoiar-se em outras forças que não fossem Al-Assad? Uma longa guerra de usura na Síria se revela cada vez mais insuportável para a economia iraniana já enfraquecida – o país garante, entre outros, o pagamento dos salários do Exército sírio. A continuação do conflito implicaria a diminuição de sua influência, impediria uma reaproximação com os países árabes e até mesmo desembocaria em uma crise com a Turquia, o que o Irã evitou desde a revolução.

Muito vai depender das negociações chamadas de Genebra 2, previstas pelos Estados Unidos e pela Rússia, entre o governo de Damasco e a oposição, e do local que poderá ocupar nelas a República Islâmica. Esta buscará garantias para evitar que uma expulsão de seus protegidos em Damasco não coincida com uma baixa da maré das forças salafistas, transformando definitivamente o enfrentamento religioso xiita/sunita em fratura principal do Oriente Médio. O conflito com Israel passaria para segundo plano e o Iraque pós-Saddam, aliado de Teerã, veria se desenvolver uma contestação sunita ainda mais virulenta do que a atual. Por enquanto, o poder iraniano parece se restringir a uma política de espera, lembrando sua vontade de participar no processo de Genebra 2, com a esperança de que uma saída à guerra lhe permita evitar uma derrota estratégica.



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