SEM ANOS DE SOLIDÃO

As vias abertas pela celebração de um coelho musical

América não é somente uma palavra, tampouco é meramente um país ou continente, ela é um sentimento em permanente disputa

Se para os defensores da supremacia branca estadunidense, a América é sua “Meca”, o país divinamente escolhido, o centro planetário e a referência para todos os outros países do mundo, a congregação liderada por um cantor de origem porto-riquenha nos sinaliza que América, continente, não cabe em apenas uma ilusória experiência individual exitosa, ideia que os Estados Unidos tanto insistem em comercializar. A América é sonho que se sonha junto, é utopia latino-americana, que se move e se transforma a cada passo que coletivamente damos. 

O sucesso pessoal, individual e solitário, resultado, muitas vezes, de uma concorrência e competição desenfreadas, não comungam dos mesmos símbolos de reunião, partilha e solidariedade observados na festa capitaneada pelo cantor Bad Bunny no domingo, 08 de fevereiro de 2026, em plena tarde californiana. A solidão do êxito pessoal à base do “custe o que custar”, marca de um ideário estadunidense que estabelece o primeiro lugar como única meta a ser perseguida de qualquer jeito e através de quaisquer métodos, deu espaço a um espetáculo promovido por um porto-riquenho que exaltou o afeto, a identidade e os rituais de solidariedade e festança latino-americanos.  

O Super Bowl, evento esportivo que serve para coroar o campeão da temporada de futebol americano, modalidade mais popular nos EUA, foi palco de uma apresentação musical que serviu para mostrar ao mundo que América significa a dança poderosa, graciosa e ritmada, repleta de movimentos e passos de que participam mais de trinta países. América não é um monólogo, América não é o silêncio dos inocentes diante das atrocidades provocadas por agentes do ICE que vitimaram Renee Good e Alex Pretti em Mineápolis; América é a dança de irmandade entre os diferentes e a conversa entre pessoas sentadas em cadeiras de plástico em qualquer quintal do continente americano. 

Há 55 anos, um livro segue destacando, resgatando e promovendo a latinidade do continente americano. Seu nome? As Veias Abertas da América Latina. Seu autor? O uruguaio Eduardo Galeano. À primeira vista, as letras, canções e apresentação de Bad Bunny não teriam tanto em comum com o caráter denunciativo da principal obra do jornalista nascido em Montevidéu. Mas as vozes do cantor (nascido na porto-riquenha Bayamón) e de Galeano se tornam um coral simbólico versando sobre as belezas e as mazelas que acompanham a América, latina e afetuosa, sem a ganância e a opulência que a outra América, estadunidense e solitária, costuma carregar consigo.  

Galeano afirmou que a América Latina, desde a colonização europeia até hoje, havia sido alvo da exploração econômica e da dominação política praticada, em um primeiro momento, pelos europeus e seus descendentes e, posteriormente, pelos Estados Unidos. A exploração econômica predatória e a dominação política intensa seriam os principais pilares para explicar o cenário de profundas desigualdades socioeconômicas com que sofre a América Latina. Galeano, com sua obra, cumpre uma missão pedagógica essencial: esclarecer de forma didática e rigorosa que os países latino-americanos não conhecem a miséria, a pobreza e a violência porque a natureza de seus habitantes assim o quis; a colonização e a neocolonização impuseram de modo abrupto e violento o contexto de dor e carecimentos sociais que a América Latina enfrenta até os dias atuais.  

Na sua conduta, Bad Bunny parece se aproximar de uma América mais latina ao não incluir os EUA em sua turnê e possibilitar a fãs de República Dominicana, Costa Rica, México, Colômbia, Chile, Argentina, Peru, Brasil e Porto Rico assistirem a suas apresentações musicais. Esse caminho escolhido pelo cantor nos evoca a importância da latinidade e sua retomada como projeto e ideia basilar da América enquanto encontro de povos, símbolos, tradições, festividades e comidas típicas distintas que vestem a diversidade de um continente plural, porém singular. A América não pode ser um país que se vê como potência imperialista, acima de tudo e de todos, atropelando e eliminando quem não lhe obedece.  

Fotografia do show de Bad Bunny. Ele está no centro de diversos dançarinos e usa um paletó branco
Crédito: Reprodução/Youtube/@NFL

Quatro anos antes da obra canônica de Galeano ser revelada ao mundo, outro livro se tornaria um item atemporal: Cem anos de solidão, de 1967, do autor Gabriel García Márquez. Peça indispensável na literatura fantástica mundial, Cem anos de solidão nos conta, por mais de um século, as aventuras e desventuras dos membros da família formada pelos primos Úrsula Iguarán e José Arcadio Buendía. É uma história de tragédias e momentos cômicos, de múltiplos nascimentos e mortes, de sonhadores e realistas, de confraternização e de solitude: é a América Latina pulsante e em derrocada. Trata-se de uma trajetória que confunde o casamento, cerimônia que também foi captada no espetáculo conduzido por Bad Bunny no Super Bowl de 2026, e separação: a América Latina é uma festa cujo final nem sempre parece feliz. Todavia, a cidade imaginária de Macondo, descrita em Cem anos de solidão, estabelece semelhança com os clipes do artista porto-riquenho, ambos transmitem um ritmo latejante muito característico dessa América Latina. Uma América Latina que dança e permaneceu dançando, sorrindo e não se calando, mesmo com diferentes ditaduras, interferências externas e ameaças de outras potências internacionais tentando amordaçá-la.  

O coelho, animal que Benito Antonio Martinez Ocasio carrega em seu nome artístico, é tido como uma espécie inteligente, sociável e ótima em fazer várias expressões faciais. Tal qual um coelho, Bad Bunny ajudou a roer as cordas que defendem a América enquanto país para os verdadeiros estadunidenses, ecoando o desejo de libertadores da América, como Simon Bolívar, José de San Martín, Bernardo O’Higgins, José Gervasio Artigas, José Manuel Carrera, Manuel Belgrano, José Antonio de Sucre e José Joaquín de Olmedo, que combatiam o jugo colonialista mirando a independência de países latino-americanos. A América não é uma terra para ser utilizada como mercadoria a fim de satisfazer os interesses econômicos de Estados europeus ou dos Estados Unidos, ela é viva, animada e, sobretudo, catártica.  

Bad Bunny não é um ativista que dedica sua vida a libertar os países latino-americanos de sua sina de colônia superexplorada, não é um crítico que denuncia e explica a situação caótica pela qual os países da América Latina passam, e também não é um relator das contradições e amarguras que abrangem o cotidiano da população latino-americana. Ele não é um revolucionário, ele é, apesar de tudo, parte da sociedade do espetáculo, um integrante milionário e bem sucedido da indústria do entretenimento. Paradoxalmente, sua voz é uma ferramenta de alerta e crítica à falta de valorização de aspectos, hábitos, comportamentos e modos de vida latino-americanos, seu discurso percorre a via de recuperação do orgulho, pertencimento e memória da América Latina. 

Retomando a ideia de Luis Antonio Simas ao refletir sobre gostar ou não do Brasil e chegar ao entendimento de que a Brasilidade seria a detentora de seu amor e regozijo, sentencio: não sei se gosto da América, nunca cheguei a um veredicto em torno disso, mas lhes asseguro que tenho muita estima e consideração por essa América, Latina, que mistura samba, salsa, cúmbia, bachata, reggaeton, tango e mambo, gosto dessa América que comemora o entrelaçamento de etnias, costumes, festejos, movimentos, gostos e cortejos oriundos de mais de trinta países. Eu deveria ter tirado mais fotos. 

João Camilo Sevilla é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Formação Humana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Especialista em Política & Sociedade pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Professor estatutário na rede pública da educação básica de Niterói/RJ. 

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