Aspectos subjetivos de nossa crise política - Le Monde Diplomatique

GOVERNOS PT

Aspectos subjetivos de nossa crise política

por Ivan Hegenberg
2 de outubro de 2015
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Se a complexidade do atual processo histórico não for bem assimilada, o povo não saberá ansiar por algo que caminhe ainda mais à esquerdaIvan Hegenberg

Qualquer bom observador é capaz de notar que a grande rejeição ao PT, tanto por parte da direita quanto de certa ala da esquerda, apenas até certo ponto se deve a problemas de corrupção. Não há como negligenciar a gravidade dos desvios de verba pública, no entanto, se quisermos compreender mais profundamente o sentimento antipetista, creio que tenha de se levar em conta uma inabitual recusa de se relativizar e sair do maniqueísmo, acarretando uma aversão imediata e totalizante. Pode-se notar em comentários de internet, nas conversas em locais públicos e nas manifestações um sentimento negativo diante da forma petista, que transcende os fatos, uma visceralidade que tende a se sobressair às argumentações. Um exemplo, de mau gosto, é a camisa que Juca Chaves vestia em uma passeata: sobre a palavra “Basta” uma mão de quatro dedos manchava de petróleo o amarelo supostamente patriótico. Com isso Juca Chaves se decidia pela fila à direita, de um conservadorismo que jamais engoliria que um ex-operário, um filho de nordestinos que traz literal a marca da castração do trabalho manual, pudesse chegar ao posto de representante máximo do país. Estes se incomodam mais com os acertos do PT do que com os erros, pois nada lhes soa mais terrível do que testemunhar a vitória de alguém com quem possam se identificar tão pouco. Temos visto também uma contestação mais antissistêmica no meio da confusão desencadeada pelas passeatas de junho de 2013. O ativismo anticapitalista se revelou com intensidade inesperada, manifestada inclusive pelo extremismo dos black blocs. Para alguns esquerdistas radicais, em seu ódio ao partido de Lula e Dilma assemelham-se a artistas marginais que, na ânsia de se mostrarem mais vanguardistas que os artistas consagrados, não se permitem acordo algum. Podemos dizer que é estética, tanto quanto ética, essa noção de pureza elevada que renega qualquer empatia com quem faz concessão ao grande público e ao sistema. Lula já desagradou a muitos esquerdistas ao vestir Armani na corrida eleitoral de 2001, antes que qualquer escândalo viesse à tona. Não podemos esquecer da aliança espúria com José Sarney, mas o detalhe adicional do vestuário contou pontos negativos aos puristas.

Não há como negar que essa aversão estética, tanto de um lado como de outro, já traduz posicionamentos de classe. Se apresento aqui um problema de forma em vez de me ater à sua origem estrutural, é porque creio que parte significativa das tensões sociais é exacerbada pela embalagem, não apenas pelo conteúdo. Será que as mesmas realizações do governo Lula, caso tivessem sido encaminhadas por alguém de aspecto mais “convencional”, teriam sido toleradas por um Juca Chaves (e por muitos que poderiam seguir por um caminho mais moderado)? Jandira Feghali discursou bem na Câmara: “Primeiro um operário, agora uma mulher. Insuportável para vocês”. Não é impossível que um machismo residual persista até mesmo em parte dos esquerdistas radicais, mas nos concentremos por enquanto no operário, que ainda é visto, equivocadamente ou não, como a personificação do partido. Alguém de menor força simbólica do que Lula teria suscitado a mesma necessidade de diferenciação, de recusa decisiva, a mesma urgência para declará-lo traidor? Fernando Henrique Cardoso também já se fez passar por esquerda e também traiu, mas a muitos parece menos incômodo do que o parceiro outrora próximo, com quem não querem mais ser confundidos.

É inegável que, ao chegar à presidência, Lula foi celebrado por muita gente que, ainda antes de ver qualquer ação posta em prática, sentiu no simbolismo de um proletário no poder uma novidade revigorante. A empatia foi positiva para muita gente, especialmente para pessoas humildes que puderam se identificar diretamente com Lula, sentir que ele lhes acolhia como nenhum outro político antes. E também, de maneira complementar, parte da classe média culta sorriu ao imaginar o desgosto dos conservadores, algo como o prazer de épater le bourgeois, chocar os burgueses. No entanto, desde o início do governo petista para cá, foi crescendo o número dos decepcionados, dos que, mesmo não tendo o preciosismo de questionar um terno Armani, puderam questionar as atuações contraditórias, as alianças com setores da direita, o governismo repleto de “toma lá dá cá”. Ainda assim, optando pelo ziguezague entre esquerda e direita, tentando mais apaziguar a luta de classes do que revolucionar as estruturas de um Brasil tão precário, o PT dos anos Lula pôde efetivamente promover alguma justiça social sem provocar maiores tensões. O que funcionou durante alguns anos está espanando agora, pois, como não poderia deixar de ser, ficaram imensamente frustrados tanto quem queria manter o Brasil sempre à direita quanto quem tinha esperanças de ver uma guinada mais decisiva para a esquerda.

Os escândalos de corrupção, mais gritantes agora nos anos Dilma, têm o efeito de ampliar as insatisfações que já eram latentes, mas nem sempre parecem ser as causas primeiras do ódio antipetista. A direita elitista e machista visivelmente não se importa em votar em candidatos ainda mais corruptos e mesmo assim enche a boca ao falar de ética, uma desforra tão hipócrita quanto tipicamente brasileira. Muitos falam de política como se fossem torcedores de futebol, ou pior, como adolescentes praticando bullying. Quanto a setores da esquerda radical, vê na corrupção a garantia de sua superioridade moral em relação ao PT, mas esse desejo de se sentir acima da realpolitik já existia muito antes do escândalo da Petrobras e, em muitos casos, antes também do mensalão. Com a crise financeira, tudo piora, pois não há mais caixa para calar os ricos com lucros, nem para promover mais melhorias sociais que atenda às demandas populares. A presidente está fraca como nunca e a oposição se aproveita da vulnerabilidade de forma hedionda, impondo pautas retrógradas e aplicando chantagens constantes, apostando no “quanto pior melhor” de maneira literalmente espetacular. Apoiada pela grande mídia, há uma marcha pelo impeachment caricata e vazia de discursos, mas barulhenta o bastante para causar apreensão. O PT enfrenta uma crise da qual dificilmente sairá sem sequelas permanentes.

O discurso mais medíocre (porém bastante disseminado) tenta tornar sinônimos corrupção e PT, de tal modo que bastaria se livrar do partido para resolver o problema. É uma aberração argumentativa que ignora casos como HSBC, Siemens, CBF, Zelotes e Furnas, só para ficar com os mais recentes e que poderiam ter cobertura comparável à do petrolão. Parece não ter qualquer importância que os desvios na Petrobras contem com a participação até de vários dos principais políticos da oposição. Se o PSDB intui que ainda pode se contrapor com uma imagem de honestidade, apesar de seu histórico poluído, é porque conta com eleitores que não se importam com o conteúdo de seus discursos, mas aprovam uma “aparência honesta” dos tucanos, por mais questionável que isso seja. Em termos de forma, trata-se de perpetuar a hegemonia do homem branco bem sucedido, projeto infeliz que só mantém algum apelo em nosso país multiétnico porque corresponde aos modelos de heroísmo mais replicados pela indústria cultural. Na sociedade do espetáculo, na qual a maioria é bombardeada por filmes e telenovelas que enaltecem apenas certo biótipo, a aposta nas associações mais preconceituosas entre beleza e caráter pode ser uma estratégia poderosa. O viés fascista do PSDB está, sem dúvida, na truculência policial, no descaso pelos desprovidos, no anti-esquerdismo cada vez mais histérico, mas também faz uso consciente da aparência de “bom moço”, como constructo social disseminado, na qual se faz crer que o mundo pertence ao branco dominador. Pouco importa que ocasionalmente um negro apareça em suas propagandas eleitorais, mero disfarce de um partido cujo núcleo negro era até há pouco tempo presidido por uma loira. Vale lembrar que Fernando Henrique Cardoso se elegeu em 1994 com uma campanha na qual as cinco metas se apresentavam em cinco dedos estendidos, contrapondo-se implicitamente ao Lula, candidato que apresenta na mão a marca do acidente de trabalho. De lá para cá, a tendência do PSDB foi a de tornar suas tendências fascistoides, antes sutis, ainda mais explícitas e agressivas, explorando preconceitos que não combinariam com seu superficial verniz socialista.

Há que se considerar que se as novas artimanhas da oposição prosperarem, as perdas, tanto objetivas quanto simbólicas, não se restringiriam ao universo dos petistas. Aliás, bem sabemos que a oposição está tentando afastar Dilma para não atrapalhar seus negócios, para exercer maior controle sobre as operações da Lava Jato, ou, como prêmio de consolação, sangrá-la a ponto de neutralizar o PT nas eleições de 2018. O pior é que a estratégia para isso seja uma aposta em um ódio e em uma intolerância que escapam a qualquer sensatez. Chega a ser patético Beto Richa culpando petistas pela pancadaria contra os professores ou Alckmin se esquivando de sua responsabilidade pela crise hídrica. A única esperança é que colocar todas as culpas no PT soe caricato e maniqueísta demais para manter milhões na mesma toada sem se cansarem de uma narrativa tão rasa e banal que nem mesmo a pior novela da TV poderia sustentar por muito tempo. No atual momento não é muito exagerado comparar o antipetismo ao antissemitismo da época de Hitler. A psicologia está parecida: a perseguição, o ufanismo, a estética racista, a soberba, o maniqueísmo, o “nós contra eles”. Inclusive a sensação de que os sacrifícios de guerra compensam: a falta d’água suscitada por Alckmin é tolerada como só seria possível em um contexto bélico. E também parte significativa da esquerda pró-governo reage como diante de uma guerra. Se do outro lado da fronteira os inimigos parecem dispostos a tudo, para sobreviver é preciso suspender a moralidade de tempos de paz. Tantos são os artifícios escusos empregados contra o PT que, para fazer frente, sente-se necessidade de um revide com artilharia pesada. Os crimes cometidos são vistos como autodefesa, ainda mais quando se sente que o inimigo ameaça seriamente os interesses nacionais. Quem uma vez olhou para nosso solo e viu ali oportunidade de privataria não parece mais ter qualquer sentimento de nação, tem sido considerado equivalente a um exército estrangeiro invasor.

Nem é preciso dizer aqui que o espaço oferecido pelos grandes veículos de mídia aos ataques da direita são muito maiores que os cavados por defensores do governo. Motivos para críticas e mágoas com o PT são muitas, mas infelizmente é enorme a dificuldade para se estabelecer uma narrativa complexa, onde a história recente do partido possa ser compreendida como bem sucedida em alguns quesitos e fracassada em outros. Os últimos pronunciamentos do partido em cadeia nacional até tiveram a elegância mínima de um mea culpa, mas os ataques adversários são tão violentos que qualquer convite do PT para uma problematização mais ampla são recusados com escárnio, bloqueando a possibilidade de amadurecimento da discussão. Tantas são as distorções, omissões e desqualificações que não se admite a importância do que foi feito em termos de inclusão social; a estratégia é não deixar espaço mental para qualquer relativização. Prosperam discursos forçosos que buscam fazer crer que o Partido dos Trabalhadores não apresentou avanço algum em relação ao que anteriormente se vira na história brasileira. É claro que mesmo nesses aspectos pode não ter sido feito tanto quanto se gostaria, e é claro que a propaganda petista não corresponde perfeitamente ao realizado, mas alegar que não se conquistou nada só pode ser uma afirmação de extrema má fé. Por maiores que tenham sido os erros, é preciso reconhecer alguns acertos para se ter um mínimo de compromisso com a realidade.

Entretanto, é da maneira mais infeliz que o PT mantém um pouco de sua velha aura. Seu esquerdismo fica patente pelo incômodo que causa ao sistema capitalista, ainda que dele faça parte. Mesmo no topo da hierarquia, sofre injustiças e preconceitos como a base da pirâmide social. Acuado, incapaz de promover novas mudanças, parece no momento marginalizado como tantos brasileiros que no partido projetavam um companheiro. Chantageado, praticamente não governa mais, porém ainda sensibiliza a quem reconhece a injustiça de nossa justiça seletiva. Para muitos parece claro que foi por ter comprado algumas boas brigas que sofre um tratamento diferente: foi por suspender certas regalias da grande imprensa que apanha diariamente dos jornais, foi por defender um maior republicanismo que tem tanta dificuldade de se defender. Existe algo de dostoievskiano na tragédia petista. Nem tudo se salva, nem tudo se pode embelezar, mesmo assim abre-se para uma estética mais humana e mais complexa que a proposta pelos adversários.

A crise econômica tem levado Dilma a medidas impopulares como o ajuste fiscal, no entanto ainda resta uma esperança de que com uma eventual melhora nas contas, um tanto do que nos foi retirado possa retornar. Mas a direita brasileira, quando avança, vem operando com intenção de tirar o que puder e não reconstruir jamais. Direitos trabalhistas, direitos humanos, melhorias de serviço, além das vidas que a polícia cada vez mais agressiva rouba sistematicamente. É triste que, para conseguir levar adiante tantos retrocessos, faça parte do pacote o embotamento das faculdades racionais da população. O profundo descaso da direita com a educação é planejado, pois somente assim pode tornar convincente seu marketing sem base real.

Por tudo isso sinto-me tentado a concluir que a narrativa de um PT tão nefasto quanto se tem propagado não é nada proveitosa para qualquer outra proposta à esquerda. Pelo que se tem visto até aqui, não há como ocorrer a vitória dessas campanhas de perseguição que não seja, ao mesmo tempo, uma vitória fascista. Nem há qualquer sinal de que, uma vez liquidado o PT, outros partidos de esquerda serão poupados, ainda que mais honestos. É bom lembrar de que até mesmo Luiza Erundina governou, na prefeitura de São Paulo, sob sério risco de cassação, e o golpismo de então sequer precisava de bons pretextos para atacar uma reputação impecável. Na política brasileira o jogo é ardiloso o bastante para entendermos que quem joga limpo tampouco será perdoado. Tendo motivos para crer que não será suficiente “fazer melhor” que o PT, é preciso consagrar uma narrativa na qual ao menos os aspectos progressistas do PT foram e são interessantes. O debate deve ser conduzido de maneira a respeitar o intelecto dos cidadãos, admitindo que houve deslizes no maior partido de esquerda do Brasil, mas ampliar a discussão de tal modo que os eleitores possam compreender que também houve conquistas. Se qualquer pessoa com noção razoável de História saberá analisar o Estado Novo de Vargas como proveitoso e equivocado ao mesmo tempo, não deve haver tanta dificuldade para se entender o legado petista de maneira análoga. Foram os dois momentos de conquistas mais decisivas em nosso país tão carente de glórias, e nos dois casos tivemos atitudes desonrosas. Acaso é pior a lubrificação do sistema pela corrupção disseminada do que a imposição de uma ditadura autoritária? Considerando dessa maneira, Lula e Dilma foram mais respeitosos com os brasileiros do que Getúlio Vargas, mas não se tem conseguido avaliar o governo atual com a mesma flexibilidade da imagem que o ditador populista deixou no imaginário popular. Se a complexidade do atual processo histórico não for bem assimilada, o povo não saberá ansiar por algo que caminhe ainda mais à esquerda. Dependendo da leitura que se estabelecer, os desejos coletivos poderão enveredar por regiões das mais sombrias. Ou, com sorte, crescerá a desconfiança em relação às simplificações, o que resultará em uma consciência mais bem preparada para qualquer situação. Uma narrativa enviesada do PT como Perda Total não convém sequer ao mais purista dos revolucionários. É necessário, para que haja um futuro à esquerda, a narrativa de PT como Partido de Transição. Se a Transição será do PT para um outro partido ou se o próprio PT irá se reinventar a ponto de soar como um novo partido, podemos deixar para descobrir em um momento mais favorável.

 

Ivan Hegenberg é escritor. Formou-se em Artes Plásticas na ECA e está concluindo mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada, também pela USP.



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