HIGIENIZAÇÃO SOCIAL

Autoextermínio social

O recente massacre no Rio de Janeiro não é um episódio isolado. É parte de um projeto histórico de higienização social, em que as populações marginalizadas são tratadas como ameaça à ordem e não como sujeitos de direitos

Vivemos, na contemporaneidade, uma era de autoextermínio social. A sociedade capitalista – fundada na exploração, na desigualdade e na financeirização extrema da vida – consolidou uma estrutura de poder em que os grandes proprietários dos meios de produção, os especuladores internacionais, os agentes do capital financeiro e os latifundiários tornaram-se os verdadeiros arquitetos do destino coletivo. São eles que detêm não apenas a riqueza material, mas também o monopólio simbólico da cultura, do saber e do prazer.

Essas classes dominantes constroem para si uma forma de realização humana plenamente compatível com o acesso ao conhecimento, à arte, à ciência, às tecnologias mais avançadas e aos bens de luxo que definem o status e o conforto. Sua capacidade de interlocução direta com o poder político e judicial é o que assegura a manutenção de sua hegemonia. São eles que elegem, financiam e orientam os representantes do Estado – seja pela via direta do voto e da propaganda, seja pelo poder difuso do lobby institucionalizado, que penetra o parlamento, o executivo e até o judiciário.

O resultado é um Estado corrupto autorizado, um sistema em que a corrupção não é um desvio moral, mas um mecanismo estrutural de funcionamento político. O Estado serve à reprodução dos privilégios de uma minoria, legitimando, sob o manto da legalidade, a violência cotidiana contra os setores pobres, negros e periféricos. Essa violência assume formas diversas – da exclusão educacional e sanitária à repressão policial – mas converge num mesmo ponto: o extermínio dos indesejados sociais.

O recente massacre no Rio de Janeiro não é um episódio isolado. É parte de um projeto histórico de higienização social, em que as populações marginalizadas são tratadas como ameaça à ordem e não como sujeitos de direitos. A favela continua sendo, para o Estado, território inimigo. E o único braço que o poder público estende às periferias é o da força: a polícia militarizada, a bala e o medo.

Crédito: Mídia Ninja

Esse ciclo, no entanto, não se sustenta apenas pela repressão; sustenta-se também pela alienação. Há um processo de autoextermínio social em curso quando o próprio povo, desprovido de consciência crítica, reproduz a ideologia dominante, legitima seus algozes e se identifica com os valores que o oprimem. É o extermínio simbólico que precede o extermínio físico. É quando o trabalhador acredita que o desempregado é seu inimigo, o morador da favela acredita que a polícia o protege, o jovem acredita que o sucesso é possível apenas pela competição individual e não pela solidariedade coletiva.

A saída para essa tragédia não virá de cima. Não virá dos parlamentos, nem dos governos, nem dos tribunais – porque são expressões orgânicas do mesmo poder que perpetua a desigualdade. A única saída possível nasce de baixo: da organização direta, da educação popular, da politização do cotidiano.

É preciso que o povo se alfabetize, não apenas no sentido técnico, mas no sentido filosófico e político da palavra – alfabetizar-se para compreender o mundo e transformá-lo, como ensinava Paulo Freire. É necessário criar núcleos de base em cada bairro, vila, escola e local de trabalho: grupos de reflexão e ação que reúnam donas de casa, trabalhadores, jovens e idosos para discutir seus problemas concretos, suas carências e seus direitos.

Esses núcleos devem se tornar escolas vivas de cidadania, capazes de formular reivindicações locais, pressionar os órgãos públicos e exercer, de forma direta, a cobrança institucional que o Estado capitalista não cumpre. É por meio dessa organização de base que será possível lutar por creches, hospitais, saneamento, escolas e segurança – não a segurança da arma, mas a segurança da vida digna.

O autoextermínio social precisa ser interrompido. Não podemos continuar destruindo nossa própria humanidade por meio da omissão, do medo e da desorganização. É preciso inverter a lógica da morte e reconstruir a vida a partir da solidariedade e da consciência de classe.

Nenhum salvador virá. O processo precisa começar agora, de baixo, com o povo em movimento, ocupando o lugar que lhe foi negado e construindo uma nova ética coletiva. O autoextermínio social só se encerra quando o povo reencontra em si mesmo o sentido da sua existência histórica – quando o ser humano volta a reconhecer no outro o espelho da sua própria liberdade.

 

Flaviano Cardoso é advogado humanista, pesquisador independente, bancário na Caixa e ativista global.

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