Autora de romance de ficção científica comenta sobre Inteligência Artificial e seu processo criativo
Personificadores, novo livro de Adriana Toribio, fala sobre grandes conglomerados de mídia que utilizam celebridades-digitais criadas por Inteligência Artificial em filmes e programas de TV
Num futuro próximo, grandes conglomerados de mídia utilizam celebridades-digitais criadas por Inteligência Artificial em filmes e programas de TV. Quando necessitam da presença física desses personagens inexistentes para estreias de filmes e outros eventos públicos, contratam Personificadores.

Rebaixada para o segundo escalão, Raquel DeMornay chega a Ilha Resort Paraíso Encontrado como Pâmela Divina, celebridade-digital a quem personifica com perfeição. Porém, em vez de contribuir para o glamour de tapetes vermelhos como em Hollywood, aqui, seu trabalho é se misturar aos hóspedes bilionários, para fazê-los sentirem-se especiais, e simular um romance de verão com o herdeiro da ilha.
O plano implode quando o lorde inglês, dono da ilha, é encontrado morto em sua piscina. Raquel suspeita que seu noivo de mentira possa ter assassinado o próprio pai para cobrir suas dívidas de jogo astronômicas. No entanto, o homem por quem ela está se apaixonando de verdade está sendo acusado do crime.
Enquanto descobre os segredos de um bunker de bilionários escondido abaixo do paraíso tropical, Raquel busca por respostas para inocentar seu amado e coloca ambos em perigo. Para sobreviver, ela precisa desmascarar o assassino e lidar com sua psique confusa. Ela é Raquel, Pâmela, ou se transformou numa coleção lunática de celebridades falsas?
Adriana Toribio é engenheira eletrônica, nascida e criada em São Paulo, trabalhou em telecomunicações por vários anos antes de se perder pelo mundo, acompanhando as transferências do marido, criando duas filhas e escrevendo estórias para tentar fazer sentido de suas experiências.
Brasil, China, Estados Unidos, alegrias, desafios, fracassos, conquistas, a soma foi positiva pelos amigos espalhados pelo mundo, pelas experiências culturais e culinárias, pelas tradições literárias que descobriu e pelos livros que acumulou. Ela já fez as pazes com a realidade de que uma vida só não é suficiente para ler tudo o que gostaria.
No momento, mora na Califórnia, onde completou um programa de dois anos de Escrita Criativa na Universidade da Califórnia, Berkeley.
A categoria do trabalho no romance brasileiro contemporâneo sempre foi uma tônica, como podemos ver no mais novo livro da pesquisadora e professora Regina Dalcastagnè, no qual um mapeamento foi realizado sobre as mudanças nos mais variados ofícios e no desenvolvimento psicológico das personagens. No momento, me parece que o debate em torno da IA ainda caminha em passos tímidos, apesar de o alcance ter aumentado desde o ano de 2022 no campo cultural como um todo. Personificadores chegou às prateleiras com foco nesse fenômeno, em tom quase que apocalíptico, diria assim. Por que escolheu o posicionamento de que há consequências graves pela Inteligência Artificial no comportamento humano?
Apesar do debate em torno de IA estar tímido no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos está bastante aquecido. Há fortes razões para isso. Estamos passando por uma era transformadora, onde alguns diretores e produtores de cinema estão optando por usar inteligência artificial, como foi o caso do diretor do filme Brutalista, Brady Corbet, que usou IA para “limpar” o sotaque húngaro de Andrew Brody e Felicity Jones. Esta decisão não impediu que Brody recebesse um Oscar por sua atuação.
Em abril de 2025, a Academia Americana de Artes e Ciências Cinematográficas, organizadora dos Oscars, declarou oficialmente que filmes feitos com IA poderão ganhar o prêmio. E para além de polimentos linguísticos, rejuvenescimentos com o de Harrison Ford no quinto filme de Indiana Jones, e aparições póstumas como a de Carrie Fisher em Star Wars IV, tem um filme sendo feito inteiramente por IA que está recebendo apoio da mídia corporativa através de sua principal marionete digital, Tilly Norwood, que teve um “perfil de celebridade” publicado no New York Times, e fez “entrevista” na CNN. Tudo isso como se fosse uma atriz de carne e osso promovendo seu mais novo filme. Com esta abertura e exposição, a mídia corporativa está ajudando a indústria de tecnologia a antropomorfizar seus chatbots.
Quando espaços como o New York Times e a CNN, que eram ocupados por atores geniais como Meryl Streep, Robert De Niro, Fernanda Torres e Wagner Moura, abrem as portas para chatbots sendo desenvolvidos para substituir atores humanos, compreendo que se não lutarmos contra esta onda criada pelo poder financeiro da industria de IA, nosso comportamento mudará e, onde antes tínhamos talento humano superlativo, passaremos a aceitar chatbots medíocres.
Chama atenção o encadeamento que você fez no arco de Raquel; o trauma familiar e dos anos da adolescência. Às vezes, a personagem aparenta estar fragmentada em seu próprio universo psíquico. De que forma você pretendeu conectar o luto, a confusão mental e a culpa da narradora no trabalho como personificadora?
O trauma que Raquel sofre na adolescência, que é agravado pelo bullying na escola e na mídia social, leva a um transtorno dissociativo. Raquel se afasta de tudo e todos que possam lembrá-la de seu sofrimento, até dos próprios pais, e abraça a proposta da Elencos, empresa que administra atores que personificam celebridades-digitais. Na profissão de personificadora, Raquel encontra a oportunidade perfeita para se distanciar da dor e da culpa, esconder-se atrás das celebridades-digitais a quem caracteriza. No entanto, esta é uma faca de dois gumes, pois quanto mais Raquel mergulha nas personalidades que representa, mais seu universo psíquico se fragmenta e seu transtorno dissociativo se agrava, o que leva a grandes conflitos internos. Isto aumenta a tensão da narrativa, mas também leva a momentos cômicos, talvez mais para tragicômicos.
Sua formação é em Escrita Criativa pela Universidade da Califórnia, Berkeley. Em sua visão, houve influência significativa no processo de escrita de Personificadores?
Sem dúvida, o programa que completei na Berkeley teve e tem influencia em tudo o que já escrevi e escrevo. Lá, aprendi a ter rigor acadêmico que se reflete nas pesquisas que faço para cada romance que desenvolvo, atenção aos detalhes que me ajudam a criar personagens multifacetados, equilíbrio entre ação, diálogo e cenário que contribui para o avanço da narrativa, escolha do vocabulário, da narração e da categoria literária que servirá melhor à história que quero contar, enfim, para mim, um romance tem muitas demandas.
Admiro muito quem tem o dom da escrita intuitiva. Eu, por outro lado, preciso dedicar bastante tempo ao desenvolvimento da minha escrita. Não foi apenas o programa da Berkeley que me influenciou durante a escrita de Personificadores, ao longo dos anos, venho participando de muitas conferências e oficinas: Worldcon, Nebulas, Norwescon, StokerCon, Clarion West, Writers’ Digest Conference, San Francisco Writers Conference e Locus. Se for perto o suficiente da minha casa, ou se houver opção de participação remota, eu faço o possível para participar.
A última pergunta foi feita em partes também por sua participação na Bienal Internacional de São Paulo deste ano, em que ministrou uma oficina de escrita criativa no estande “Escreva, garota”, além de uma seção de autógrafos do seu livro. Como foi a dinâmica com os participantes e a experiência como um todo na Bienal?
Fiquei muito feliz com o engajamento de todos que participaram na dinâmica criativa que ofereci no estande “Escreva, Garota!” durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Este é um exercício que desenvolvi para lidar com meus momentos mais difíceis, quando as ideias parecem emperradas. Sempre começo com um jogo de palavras para ajudar os caminhos neurais a se “acenderem” e se conectarem com memórias mais profundas; coisas que a neurociência explica. Apresento uma opção de estrutura narrativa básica. E seguimos escrevendo um parágrafo com uma semente de ideia. Na Bienal, ao final da oficina, oito dos quatorze participantes compartilharam o que escreveram; todas ideias ótimas, algumas verdadeiramente poéticas. Como um todo, a experiência de estar na minha primeira bienal como autora foi linda. O evento é uma grande vitrine para a literatura nacional. Num espaço tão amplo e multicultural, com leitores vindos de todos os estados brasileiros, e até de outros países, a diversidade literária deixa de ser exceção e passa a ser uma necessidade para se atender a demanda derivada da diversidade do público presente, o que representa uma oportunidade incrível, pois esta pluralidade abre espaço para a descoberta do novo. Neste contexto, livros com propostas que rompem com o cotidiano tem chance de se destacar por suas distinções. Romances que mesclam categorias, como no caso de Personificadores, que tem em sua narrativa elementos de mistério e ficção científica, além de nuances românticas, se apresentam como um contraponto ao realismo, e oferecem ao leitor a possibilidade de encontrar novas experiências literárias.
O modo de narrar de seu romance pode ser interpretado como Young Adult, isto é, um gênero que está no limiar da adolescência e a entrada na vida adulta. Você considera que o seu livro esteja em um gênero específico de faixa etária?
Personificadores é um romance adulto, não apenas pela idade da protagonista, trinta anos, mas pela complexidade das camadas narrativas entrelaçadas na história de Raquel. Algumas características de Young Adult, como a mescla de nomes estrangeiros com brasileiros, que vem do fato de termos muitos destes livros traduzidos do inglês para o português, aparecem em Personificadores por razões conectadas a realidade da protagonista. Raquel é filha de imigrantes brasileiros nos Estados Unidos e passou por apagamento cultural. Raquel DeMornay é o nome artístico dela. Ela foi batizada Raquel dos Santos, mas este fato só aparecerá no segundo livro da série que eu espero finalizar para 2028.
Outra faceta comum de romances Young Adult é o trauma de infância ou adolescência. No caso de Personificadores, o trauma na adolescência impulsionou a escolha de carreira de Raquel. Além disso, ela ainda tem que aprender a administrar melhor o transtorno dissociativo que a aflige por conta do trauma. As cicatrizes emocionais de sua adolescência seguem com ela porque ao invés de confrontar a raiz de seus problemas, Raquel optou por tentar fugir deles. Traumas não resolvidos são terreno fértil para chacoalhar personagens adultos tanto quanto os mais jovens.
Por que a escolha de mesclar nomes estrangeiros com brasileiros?
Para compor o elenco de personagens de Personificadores pesquisei nomes que fizessem sentido no local onde a história se passa, uma ilha no Oceano Pacífico entre a Austrália e a Nova Zelândia. Os nomes dos personagens são realistas dentro do cenário onde estão inseridos.
O fato é que idiomas estrangeiros se insinuam cada vez mais no português do dia a dia porque a “língua é viva”. O português está em movimento constante e se reinventa conforme somos expostos a outras culturas através da arte, livros, filmes, tecnologias como a mídia social e os games. A internet como um todo abre fronteiras virtuais entre países. O português é tão influenciado quanto influencia outros idiomas. Os americanos que conheço adoram “feixoada” e pão de “queixo”. Eles têm uma certa dificuldade em pronunciar o “J”, mas isso não os impede de adotar nossas palavras e quitutes.
Você tinha de antemão as técnicas e recursos narrativos, ou foram aparecendo com o tempo no decorrer da escrita?
Venho desenvolvendo técnicas e estudando recursos narrativos há anos. Sou do tipo de escritora que pesquisa e planeja. Faço sinopses, crio descrições de personagens e cenários num processo de “worldbuilding”, construção de mundo ou universo, que ajuda a minha escrita a fluir quando parto para o desenvolvimento do romance em si. Todos os passos de planejamento fazem parte do meu processo de escrever um romance, mas chega aquele momento gostoso em que a narrativa segue capítulo a capítulo. Costumo me surpreender quando estou descrevendo um cenário ou personagem e, de repente, a história deslancha. É uma sensação incrível de conquista, quando tudo parece se encaixar.
Quais são as suas maiores influências literárias e artísticas?
Clarice Lispector é uma grande influência que se destaca na minha apreciação por fluxo de consciência. Em Laços de Família, ela usa esse modelo de narrativa de maneira brilhante para explorar experiências femininas em contexto relacional, que oferece uma percepção de estabilidade, mas na verdade restringe a liberdade da mulher. Adoro a maneira como Isabel Allende mescla o cotidiano com o mágico em A Casa dos Espíritos. Em Frankestein, Mary Shelley inventa a ficção científica enquanto explora uma jornada emocional entre criador e criatura.
Adoro a obra de René Magritte, que expõe nossa inabilidade de “ver” o todo de uma situação e a fragilidade emocional que nos faz tão facilmente manipulados. Para mim, a obra O Touro de Tarsila do Amaral evoca o vazio da solidão dos poderosos como nenhuma outra. O poder que aquele touro de chifres longos emana se perde entre as altas colunas e seu olhar vazio. Uma obra se conclui na mente de quem a observa, tanto quanto um livro só termina na cabeça do leitor. Outras pessoas podem olhar para O Touro da Tarsila do Amaral e ver um ser frágil, ou um brinquedo. Para mim, as coisas mais bonitas sobre toda forma de arte são as conexões através de tempo e espaço e a diversidade de ideias.
No cinema, aprecio como a perversidade do poder é exposta tanto no realismo de Kleber Mendonça Filho, em O Agente Secreto e de Walter Salles, em Ainda Estou Aqui. Assim como nos universos fantásticos de Guillermo del Toro, que declarou ter se inspirado no “húbris” da indústria de tecnologia enquanto trabalhava na sua reinterpretação da obra prima gótica de Mary Shelley, Frankenstein. Del Toro ressaltou que Viktor Frankenstein, o cientista que dá vida a uma coleção de partes de cadáveres para, ao final, rejeitar sua criação, tem a arrogância dos “tech bros”, líderes da indústria de IA, pois não pensa nas consequências de seus atos. Concordo com Del Toro, que disse: “acho que precisamos de uma pausa para reconsiderarmos o caminho que estamos tomando”.
Por último, tem projetos em andamento na literatura?
Estou trabalhando num romance de fantasia, que espero terminar até o fim deste ano para publicar em 2027, e no segundo livro no mesmo universo de Personificadores para 2028.
Lorraine Ramos Assis (1996) é redatora, pesquisadora e crítica literária. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais quais Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). É mestranda em Ciência da Literatura (UFRJ).

