Autora do romance ‘Ponto de Vista’ comenta sobre trajetória literária e seu vínculo com o feminismo
Ponto de vista é um convite para refletir sobre privilégio, maternidade e as correntes invisíveis que unem todas as mulheres.

Mara acorda às quatro e meia da manhã com o peso do luto e a força de quem cria três filhos sozinha no Estrelar. Cecília desperta com ansiedade e o peso de uma escolha que pode acabar com seu sucesso profissional. Mundos opostos que se cruzam no silêncio de um apartamento luxuoso. Enquanto uma busca sobrevivência, a outra questiona as escolhas que a sociedade impôs. Mas um acontecimento terrível as coloca frente a frente com o inesperado: revelar a verdade ou protegê-la? Ponto de vista é um convite para refletir sobre privilégio, maternidade e as correntes invisíveis que unem todas as mulheres.
Hannah Ramos nasceu na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro, em 1989. É revisora, roteirista e professora. Mestre em Administração pela UFF, pesquisa a presença feminina no Estado, nas organizações e na sociedade. É a criadora da newsletter Depois da última página, onde compartilha reflexões semanais sobre cotidiano, feminismo e literatura.
Em seu livro, como bem aponta Lília Guerra, são extraídas frases de Simone de Beavouir, Conceição Evaristo, Carolina Maria de Jesus, dentre outras escritoras ligadas à autoria feminina. Essas mesmas frases estão nas epígrafes que abrem os capítulos do romance. Como você percebe Ponto de vista nas temáticas abordadas (gênero, raça e classe) e na autoria feminina?
Acredito que Ponto de Vista seja um caminho para pensarmos as experiências de vida das mulheres, atravessada por todas essas questões. Eu bebo de muitas fontes do feminismo para a vida, para me entender como mulher e para me entender como escritora. Tanto as epígrafes quanto a história em si costuram um pouco a minha experiência como leitora dessas mulheres e a forma como enxergo o que os livros me dizem ao olhar para a realidade material.
Olho para esse livro, dentro da temática feminista, como um convite para pensarmos as múltiplas realidades das mulheres brasileiras, fora de uma perspectiva universalizante. Assim como existem muitas realidades de mulheres trabalhadoras, existem muitas realidades de maternidade, muitas realidades sociais. Acredito que a obra proporciona esse convite para pensarmos sobre esses lugares, entendendo que não existe uma universalização sobre o que é ser mulher no Brasil.
Acho também que, por trazer essas referências feministas, que foram e são as minhas referências ao longo de mais de dez anos de pesquisa e estudo sobre o movimento feminista e sobre a história das mulheres, o livro acaba sendo uma ficcionalização das coisas que aprendi. Uma representação ficcional das lições que tive, das observações que tive, das conversas que tive. Acredito que ele se posiciona dessa forma, como uma ficção feminista que faz esse convite para que a gente se coloque no lugar de outras mulheres, para que a gente se enxergue nelas de alguma forma, e para que a gente entenda que não existe uma realidade universal sobre o que é ser mulher no Brasil.
Mara e Cecília são apresentadas ao leitor sob a perspectiva interseccional, no conceito mais específico por assim dizer. Ao ter colocado o fenômeno da maternidade e do luto, como pode se perceber na primeira personagem, as desigualdades sociais são trabalhadas de forma intensa. O que te levou a escrever sobre esses assuntos?
Tem uma frase de Audre Lorde que abre o livro e diz: “eu não sou livre enquanto alguma mulher não for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes das minhas”. Levo essa frase como um guia, como uma bússola, para pensar o feminismo em que acredito. O feminismo em que acredito não pode olhar só para dentro da própria bolha, porque é um feminismo que vislumbra a emancipação coletiva. E, para pensarmos em emancipação coletiva, precisamos olhar para o lado, levar em consideração realidades que não são necessariamente as nossas, mas que estão ali, sob essa mesma superestrutura que o patriarcado representa.
Acho que aí mora a importância de se colocar como aprendiz, olhar para outras realidades e, principalmente, escutar outras mulheres. E pensar formas coletivas e conectadas de nos emanciparmos, de um jeito mais interseccional, que não exclua ninguém, que não deixe ninguém de lado nessa luta. Acho que é justamente essa necessidade que me leva a escrever sobre esses assuntos.
Todo autor tem uma carga autobiográfica inscrita em seus textos, mesmo que de forma não detectável nos primeiros momentos da leitura. Varia muito, certamente. Como as personagens do seu romance te atravessaram?
Acho que a minha experiência de vida, de ter crescido em Belford Roxo, me deu a possibilidade de conviver com muitas Maras. Mas através do estudo e da universidade, tive acesso a espaços frequentados por Cecílias. Vejo a Mara e a Cecília como objetos de observação da minha própria vida: não sou nenhuma das duas, mas as enxergo a partir de uma lente pessoal, como uma observadora da realidade ao meu redor.
Acredito que a minha experiência de vida, de viver em uma região marginalizada, de conviver com essa realidade nua e crua da sobrevivência, da necessidade, da falta e também do esquecimento (e com todos os muros que separam quem vive nessas regiões das regiões economicamente mais importantes), me fez ser essa observadora.
E é importante que eu diga que, ao contrário da Mara, eu vivi uma realidade muito mais privilegiada. Eu tive suporte familiar, qualidade de vida e acesso à universidade, à pós-graduação, a um trabalho intelectual. Isso não aconteceu na geração anterior à minha, e acredito que fui fruto desse trabalho, dessa falta, e dessa luta. E quando tive acesso à universidade, passei a ocupar espaços de trabalho que não tinham relação com a realidade de onde eu vinha. Foi aí que conheci muitas Cecílias. Acho que esse lugar, que não é nem um nem outro, me proporcionou observar essas experiências e, claro, tentar traduzir o que eu via de alguma forma. E é evidente que a Mara e a Cecília também me atravessam muito enquanto leitora. Leio muitas obras de mulheres negras periféricas, leio muita literatura brasileira feminina, e acredito que também sou produto do que li a vida inteira.
Em seu Substack (Depois da última página), um dos tópicos mais comentados é sobre a teoria feminista praticada no cotidiano. Em seu texto Gilead já abriu uma filial, você faz uma reflexão sobre Pietra Bertolazzi e as contradições políticas e sociais, associando, inclusive, com o Conto de Aia, de Margaret Atwood, o que é particularmente interessante. Fale um pouco sobre a interlocução entre teoria, prática feminista no dia a dia e seu diálogo com a literatura.
Considero esse o meu maior desafio de escrita cotidiana: aproximar a teoria da realidade, ancorar as bases para olhar ao meu redor e dialogar com o mundo, para entender esse mundo em que vivo. Quando pego uma notícia, uma fala de alguém que está na mídia ou nas redes sociais e que ganha repercussão, tento interpretá-la com as lentes do feminismo. Tento pegar essa teoria e trazer para ela um corpo de prática, um corpo de realidade. Eu procuro entender como a teoria se encaixa no que a gente acabou de escutar, no que essa pessoa acabou de dizer.
Acho importante pensarmos que a teoria não é uma ferramenta isolada; ela não existe para ser isolada, existe para que a gente tenha meios de observar a nossa realidade e compreender melhor o que está acontecendo. Teoria e prática são partes de um mesmo processo de aprendizagem, de uma mesma forma de olhar para o mundo. A teoria me ensina muito, mas a prática também ensina, porque é o lugar onde posso pegar essa teoria, testá-la, dialogar com ela e pensar oportunidades: o que posso fazer; o que cabe a mim fazer dentro dessa realidade.
Tudo isso foi sendo desenvolvido ao longo dos anos. Claro que, quando eu era mais nova, não tinha esse repertório para olhar para a teoria feminista e trazer esse tipo de diálogo para o meu dia a dia. Mas acredito que, hoje, tendo essa possibilidade, é meu dever escrever sobre isso, torná-lo popular, falar com mais clareza, ajudar outras mulheres a se enxergarem dentro dessa realidade.
O seu trabalho voluntário é importante na sua trajetória profissional e literária, em que trabalha com a questão da violência contra a mulher. Neste ano, você foi convidada para um diálogo com os alunos/as do Colégio Estadual Gilberto Freire no I Colóquio “Mulheres incríveis”, no bairro de Jardim Gramacho (RJ), apresentando o seu livro, que aborda questões cada vez mais tensionadas nos últimos anos. Como foi essa experiência no colégio?
Eu amo ir a escolas conversar com meninas, com jovens, com meninos. Acho que é uma das coisas mais legais que estudar o feminismo me proporcionou. Quando terminei o mestrado, senti que estava numa dívida muito grande com a universidade, com tudo que ela me proporcionou, e que precisava, mais uma vez, pensar fora da bolha: sair daquela bolha acadêmica e, de fato, ir para onde as coisas podem mudar materialmente.
Desde pequena, não tive esse tipo de abordagem sobre violência, sobre nossos direitos enquanto mulheres, sobre a evolução da luta feminista. Quando eu era mais jovem, não tive essa abordagem na escola, não tive a oportunidade de ver uma mulher falando sobre isso. Acredito que, se tivesse tido essa oportunidade, seria uma menina diferente, mais consciente desde mais cedo; talvez me interessasse por estudar o feminismo desde jovem. Por isso vejo esse trabalho social como um retorno do que a universidade pública me proporcionou todos esses anos. Me graduei em universidade pública, fiz o mestrado em universidade pública, e sinto que terei uma dívida eterna com ela e com tudo que me proporcionou enquanto pessoa, enquanto intelectual, enquanto professora.
E para além disso, é um aprendizado enorme estar nesses lugares, nessas escolas, conversando com meninas e meninos que estão em um processo de formação de caráter, de personalidade, de se entender e se enxergar no mundo. Acho muito importante que a gente acesse esses jovens desde esse momento, em que muitas vezes se repete o que se vê dentro de casa sem questionar. A experiência nesse colégio é, sem sombra de dúvidas, minha forma de retribuir e aprender. Quando presto atenção nos olhares das crianças, observando, questionando, entendendo a mensagem que está sendo passada, percebo que não existe recompensa maior nem melhor.
Na última FLIP, você participou da mesa Escrever, existir: corpos, vozes e territórios, na Casa Urutau. Qual foi a relação entre Ponto de vista e o tema da mesa, além da recepção do público?
Aquela mesa foi superespecial. Foi, na verdade, a primeira mesa da qual participei como autora, e tive a oportunidade de dividir aquele momento com três autores que, de certa maneira, escrevem de forma muito política, assim como acredito que Ponto de Vista também seja. Poder ouvir as experiências desses autores, e a forma como a realidade e a trajetória de vida deles foram influenciando essa escrita, me fez sentir parte de um todo, parte de uma comunidade, porque também enxergo que meu livro foi produto do que li, do que ouvi e do que estudei ao longo dos anos.
Acredito que a relação entre Ponto de Vista e essas outras obras é uma relação de escrita politizada, de escrita que mostra uma realidade atravessada por questões sociais, raciais, econômicas e políticas, que se transformaram em histórias, seja em poesia, seja em contos, seja numa zine, seja num livro de ficção como o meu.
Você tinha de antemão as técnicas e recursos narrativos, ou foram aparecendo com o tempo no decorrer da escrita?
Eu sabia que queria contar uma história narrada em primeira pessoa. Queria que esse fluxo de consciência fosse uma ferramenta para a gente entender a realidade desses personagens, inclusive no sentido de que são personagens que não têm todas as informações. Elas são personagens que estão dentro dos seus contextos sociais, políticos e econômicos, e que não têm consciência de tudo o que está acontecendo ao seu redor. Eu queria muito contar a história dessa forma e, à medida que as personagens foram se revelando para mim ao longo da escrita, entendi que a personalidade de cada uma me ajudaria também a dar o tom.
A Mara tem uma paixão pela literatura que vem desde criança, e acho que o jeito como ela pensa e fala tem muito dessa vivência enquanto mulher leitora. Já a Cecília imprime um ritmo diferente para as coisas na vida dela, é tudo muito planejado; parece que o jeito dela pensar é um jeito de otimizar a realidade, e isso também tem a ver com a forma como ela se apresenta através do seu fluxo de consciência. No decorrer da escrita, fui sentindo as diferenças e lançando mão para construir as personagens. Mas, desde o início, eu tinha certeza de que queria que fosse um fluxo de consciência, queria que a gente tivesse uma perspectiva mais íntima.
Quais são as suas maiores influências literárias e artísticas?
Acho que minhas respostas aqui vão ser bem clichês, mas minhas influências literárias são, em grande maioria, autoras mulheres que pensam a realidade social e econômica, que pensam a história da luta feminina pelos direitos e pela liberdade. Aqui falo de Silvia Federici, Heleieth Saffioti, Angela Davis, Carolina Maria de Jesus, bell hooks, Gerda Lerner.
Acredito também que, olhando para a ficção, tenho referências muito fortes, como Virginia Woolf, Jane Austen, Giovana Madalosso, Lília Guerra, Mariana Salomão Carrara e tantas outras. São pontos de partida múltiplos, mas que se costuram em muitos momentos.
Como influência artística, gosto muito da Marina Abramović, da história que ela conta através das suas performances e através da arte. Rhythm 0 foi uma das coisas mais corajosas e políticas que eu já vi. Ela abre espaço para que a gente fale sobre a coisificação do corpo feminino, sobre violência de gênero, patriarcado, as dinâmicas de poder.
Por último, tem projetos em andamento na literatura?
Estou ensaiando um segundo livro… um pouco diferente do primeiro, talvez em estrutura, mas ainda é um esforço muito inicial!
Lorraine Ramos Assis (1996) é redatora, pesquisadora e crítica literária. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais quais Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). É mestranda em Ciência da Literatura (UFRJ).

