ENTREVISTA

Autora e psicanalista aborda temas da memória, infância e gênero em Bifurcações poéticas, seu quarto livro

“Bifurcações poéticas é um livro maduro, com consistência e profundidade, tanto no conteúdo quanto na forma como foi concebido e apresentado”

Mariana Balieiro Mussoi, autora de Bifurcações poéticas, se descreve como uma mulher plural. Como na história de muitas mulheres, no seu cotidiano assume múltiplos papéis. É alguém que reverencia os laços, os afetos e a sensibilidade. Faz parte do Clube de Leitura Bem Ditas, na cidade em que reside, em Santa Maria no Rio Grande do Sul. É autora de quatro livros; todos publicados pela Editora Patuá.

É psicóloga com mais de vinte e cinco anos de experiência em atendimento clínico. Em seu consultório, atende crianças, adolescentes e adultos. Estudiosa da obra de Winnicott, participa de vários encontros sobre o pensamento do autor no Brasil, publicando artigos em revistas e livros de psicanálise. É fundadora e proprietária do Espaço Winnicott Santa Maria, coordenando grupos de estudo. Participou do Festival de Poesia de Lisboa, além de ter ministrado oficinas de poesia ao longo dos últimos anos.

O diálogo com a escuta clínica é essencial para o seu fazer criativo, como revela sua experiência no projeto Flor Amarela – Brumadinho. Na ocasião, você enviou um de seus livros para a organização, formada por mulheres e suas redes de apoio, que promovia oficinas em diferentes áreas, entre elas a literatura. A iniciativa ocorreu no contexto da tragédia provocada pelo rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em 2019, e suas poesias encontraram ressonância nesse espaço de cuidado coletivo. Também em 2019, foi lançado o seu primeiro livro, Um tempo em mim. No ano seguinte, veio a público Tessitura humana. A partir dessas experiências e desses encontros, as oficinas de poesia passaram a integrar o seu cotidiano. Gostaria que você comentasse um pouco sobre esse percurso, marcado pelo diálogo entre a psicologia e a poesia, e sobre como essas duas dimensões se entrelaçam em seus trabalhos.

A experiência poética sempre esteve em mim. Desde pequena fui envolvida por um
ambiente que me apresentou a sensibilidade, a experiência da contemplação e a musicalidade.
Através da relação com o meu avô materno e com a minha mãe, aprendi a observar, a admirar e
a vivenciar uma experiência de encantamento com o que existia ao meu redor: desde um pôr do sol
no cair da tarde até o tato com as miudezas como sementes de flores e frutos, galhos de árvores,
tocos de madeira, pedrinhas de vários tamanhos e texturas, conchinhas colhidas da praia vindas do
mar. Tudo servia para uma criação, um brincar e uma transformação.Esses elementos da natureza
viravam guirlandas, enfeites com temáticas de aniversário, inspiração poética para uma escrita
posterior. Com o meu pai e meus tios estive envolta pela música, cada encontro afetivo era regado a
muita cantoria e diversos sons musicais advindos do atabaque, violão, gaita, cavaquinho, piano. A
musicalidade embalava tudo e todos ao redor. Foi desse modo que a poesia fez morada, através de
um repertório afetivo, intelectual e cultural fundado pela minha base.

A escritora Mariana Balieiro Mussoi – Divulgação

Na psicologia encontrei um espaço investido para o cuidado. Trabalhando há 27 anos com a
clínica do cuidado, acompanho o desenvolvimento dos meus pacientes em diferentes fases do seu “vir a ser”, desde crianças até o amadurecer. Nesse percurso, nessa trajetória, encontramos o maternar, a maternidade, a infância, o crescer, o adolescer, o “viver a vida” contemporânea e o seu aceleramento, o envelhecimento, os lutos, as dores. Todos os assuntos que, além da clínica, chegaram espontaneamente na minha escrita poética ou através dela.

Hoje, olhando não tão imersa nessa produção, percebo que encontrei um modo de alcançar
mais pessoas em relação a todas essas questões, que na verdade falam de amor através da poesia.
Além de escrever e ter publicado os meus livros, gosto muito de declamar, sentir a poesia.
Isso me remete novamente à musicalidade, lugar familiar e acolhedor.

Os temas do seu último livro, Bifurcações poéticas, tratam diretamente da maternidade, infância (incluindo a do eu lírico), memória e identidade. Tinha em mente trabalhar com eles de antemão, ou foi descobrindo aos poucos?

Como disse há pouco, são temas que percorrem o meu ser e o meu fazer; muitas dessas temáticas
também estão presentes nos meus outros livros. Não tive em mente escrever sobre nenhuma delas.
É uma experiência curiosa essas temáticas, essas questões fazem parte de mim e a escrita vem com
uma inspiração, como um lampejo, com uma inquietação em momentos inesperados: no meio da
madrugada, em um intervalinho entre um paciente e outro no consultório, durante uma viagem
contemplando algum lugar, alguma paisagem, no meio da leitura de um livro. Quando me sinto
inquieta, sinto que é a hora de escrever: a poesia nasce.

Como foi o processo da escrita de Bifurcações poéticas?

Foi um processo muito prazeroso. Bifurcações poéticas é um livro maduro, com consistência e profundidade, tanto no conteúdo quanto na forma como foi concebido e apresentado. Acredito que ele tenha alcançado essa maturidade em decorrência de todo o percurso de escrita construído com os meus livros anteriores. Quem já leu as obras anteriores certamente conseguirá identificar esse amadurecimento e essa consistência. Inclusive, já tenho recebido esse retorno de alguns leitores, o que é muito gratificante.

É muito bonito acompanhar o nascimento, o crescimento e o amadurecimento de um escritor. Sinto que esse também foi o meu percurso. Bifurcações poéticas é, para mim, um presente da maturidade.

Em uma realidade pautada pelo automatismo, isto é, a vida em tempo cada vez mais frenético pelas relações interpessoais, o seu último livro parece tratar da nostalgia do analógico, podemos dizer, inclusive, do tempo livre como um todo. Foi intencional?

Foi uma necessidade, eu diria assim. Uma necessidade individual de escrever sobre isso e acredito
que talvez seja uma necessidade coletiva. Não é uma questão de escolher um modo de viver em
detrimento do outro, mas de equilibrarmos, de termos um mínimo de tempo para assimilarmos as
experiências intelectualmente e afetivamente. É uma chamada, um alerta. Estamos sendo engolidos
por esse modo de viver (que não é viver) desenfreado. Estamos nos perdendo de nós mesmos. A
dificuldade de estabelecer relações interpessoais e mantê-las é gigante. Os índices de adoecimento
considerando a saúde mental são alarmantes.

Bifurcações poéticas ganhou uma resenha crítica, em particular em uma revista portuguesa,
associando o escritor Manoel de Barros com os poemas escolhidos nessa sua obra. A memória, a relação entre a criança interior e o adulto, o cotidiano e as saudades do passado. Você percebe o diálogo com o escritor? Ou outros autores/as com estilo parecido?

Fico muito lisonjeada com essa possível aproximação com Manoel de Barros. Sou uma leitora
encantada por sua obra. Manoel de Barros é o poeta que aborda as miudezas, a importância das
insignificâncias. Coloca uma lupa, amplia o mais precioso que está no alcance dos nossos olhos e da
nossa alma, mas não vemos, não sentimos. Sinto que ele fala sobre o que fica, o que permanece,
além de fazer um chamamento para o cotidiano, para a natureza, para o desconhecido. Escreveu:
“Meu fado é não entender quase tudo; sobre o nada eu tenho profundidades”. Certamente a escrita
de Manoel de Barros me inspira.

Outra poetisa que me inspira muito é Adélia Prado. Adélia tem o cotidiano como tema central. Eu
também escrevo muito sobre o cotidiano. A maneira como ela escreve de maneira direta com uma
linguagem franca é marcante, forte. Sou uma leitora assídua de Adélia Prado. Ela declamando
alcança a alma.

Em um de seus textos, é ressaltado como que no período da pandemia fomos direcionados a nos resguardar, no sentido tanto de proteção, resiliência e “irmos em frente”. Um de seus livros, Tessitura humana, abordou essas questões. Como o processo da pandemia do COVID-19 influenciou a sua escrita e escolhas artísticas no geral? Você ainda percebe que estamos aprendendo novas formas de nos relacionar, incluindo na literatura?

Na pandemia da Covid-19 todos nós buscamos formas de continuar vivendo, vivendo no sentido da
integralidade como um todo. Foi um período que procuramos e buscamos forças para continuar,
para acreditar, para seguir em frente apesar de tanto sofrimento, tantas perdas, tantas dores físicas e
emocionais. Certamente a escrita foi e é um fenômeno curativo. Tem um autor que estudo, o
psicanalista D.W.Winnicott que escreveu sobre os “healing phenomena”: é um processo de
cicatrização emocional de dentro para fora que conta com alguns espaços, além do espaço clínico;
dentre eles estão as relações de amizade genuínas, grupos solidários, atividades culturais e criativas.
Desse modo, com essa compreensão, o período da pandemia influenciou, sim, a minha escrita, assim como precisei da minha escrita para prosseguir na pandemia; a escrita foi o meu reservatório de saúde mental através do Tessitura Humana.

Sim, eu percebo que seguimos aprendendo a nos relacionar e a literatura é um potente veículo para
isso, seja através da própria leitura tendo como espelho o enredo, os personagens, formas de sentir e
de viver, seja como a partilha de espaços sobre literatura que propiciam outros vínculos e convívio
social, como os Clubes de Leitura, por exemplo.

Quais são suas principais influências artísticas, teóricas e literárias?

As minhas principais influências artísticas são a arte de uma maneira geral (minha mãe é artista
plástica) e a música. As principais influências literárias são autores e autoras de poesia e autoras
mulheres que escrevem diversos gêneros literários, participo do Clube de Leitura Bem Ditas aqui
em Santa Maria, em que lemos só mulheres, autoras de vários lugares do mundo.
Também não posso deixar de registrar o apreço e carinho que tenho por Rubem Alves, o autor que
acompanhou a minha juventude através das leituras de suas obras.

Algum projeto em mente? Novos livros, novidades que chegaram sobre suas publicações.

No momento estou aproveitando a realização do Bifurcações poéticas que teve o seu primeiro
lançamento em abril desse ano, 2026. Também estarei envolvida com a sua divulgação em outros
eventos literários e na Bienal em setembro desse ano. Mais adiante quero muito ter mais tempo para
escrever o meu primeiro livro de crônicas.

 

Lorraine Ramos Assis (1996) é socióloga, pesquisadora e crítica literária. Foi publicada em diversas revistas/jornais nacionais e estrangeiros, tais como Jornal Cândido, Cult revista, Relevo, Granuja (México) e Incomunidade (Portugal). É mestranda em Ciência da Literatura (UFRJ).

 

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