Autorização para matar - Le Monde Diplomatique Brasil

TELHADO DE VIDRO DO OCIDENTE

Autorização para matar

por Serge Halimi
2 de abril de 2018
compartilhar
visualização

Outros governos recorreram a práticas tão detestáveis quanto as do russo, sem que o caso suscitasse o mesmo tumulto diplomático. A “longa história de assassinatos encomendados pelo Estado” que ofusca hoje Johnson macula algumas das capitais ocidentais (Paris, Berlim, Washington), que, seguindo o movimento de May, fulminaram imediatamente a Rússia.

 

A polícia estima que a investigação vai levar “vários meses”, mas a primeira-ministra britânica, Theresa May, já identificou o culpado: a ordem para matar Sergei Skripal teria vindo do Kremlin. Para o ministro das Relações Exteriores, Boris Johnson, o “comportamento perigoso do presidente Vladimir Putin” constitui de fato a “linha vermelha” que liga a tentativa de envenenamento do antigo coronel dos serviços de informação russos refugiado em Londres a todas as atividades anteriores do Kremlin: “a anexação da Crimeia”, “os ciberataques na Ucrânia”, “a pirataria do Bundestag”, “a ingerência em diversas eleições europeias”, “a indulgência em relação às atrocidades perpetradas por Al-Assad na Síria”.1 Resumindo: Putin é capaz, portanto é o culpado.

Entre o quebrador de gelo e o chá envenenado, entre Leon Trotski (assassinado no México) e Alexander Litvinenko (envenenado em Londres), os serviços de segurança russos com certeza liquidaram diversos oponentes que viviam no estrangeiro. Outros governos recorreram a práticas tão detestáveis quanto, sem que o caso suscitasse o mesmo tumulto diplomático. A “longa história de assassinatos encomendados pelo Estado” que ofusca hoje Johnson macula algumas das capitais ocidentais (Paris, Berlim, Washington), que, seguindo o movimento de May, fulminaram imediatamente a Rússia.

Israel, por outro lado, teve a requintada sabedoria de se abster, sem dúvida porque figura na primeira fila dos países que “procedem a esse tipo de operação, que eles qualificam de ‘eliminações extraterritoriais’”.2 A lista dos palestinos, representantes oficiais inclusos, abatidos por seus serviços secretos no estrangeiro faria, de fato, os russos quase passarem por amadores: ao menos uma meia dúzia somente em Paris, sem que nenhuma sanção particular tenha decorrido disso. Paris, onde também desapareceu o opositor marroquino Mehdi Ben Barka e foi assassinada a sul-africana Dulcie September, representante do Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla em inglês), e depois, mais recentemente, três militantes curdos. Quanto a Washington, um ex-ministro chileno de Salvador Allende, Orlando Letelier, foi morto lá por agentes de Augusto Pinochet. Ronald Reagan não deixou, no entanto, de celebrar sua ditadura, e Margaret Thatcher também não se impediu de compartilhar em Londres, com o general golpista, um chá (sem veneno) nem de lhe oferecer um serviço de jantar Armada, de prata.

O termo “eliminações extraterritoriais” definiria também muito bem a prática norte-americana que consiste em matar no estrangeiro, por meio de drones, pressupostos terroristas. Barack Obama autorizou oficialmente mais de 2,3 mil assassinatos desse tipo durante sua presidência. Por sua vez, François Hollande confiou ter ordenado diversas execuções extrajudiciárias de “inimigos de Estado” – uma por mês, mais ou menos, ao longo de seu mandato. Nenhum de seus amigos políticos interrogados a esse respeito quando das eleições primárias socialistas de janeiro de 2017, no entanto, o recriminou por isso.3

“Sim, às vezes é necessário”, explicou inclusive François de Rugy, que se tornou desde então presidente da Assembleia Nacional.

 

*Serge Halimi é diretor do Le Monde Diplomatique.



Artigos Relacionados

Eleições 2022: a mídia como palanque

Internet abre espaço para a diversidade de perfis, mas impulsiona velhas práticas

Online | Brasil
por Tâmara Terso
A CRISE DA CULTURA

Lei Aldir Blanc: reflexões sobre as contradições

por Rodrigo Juste Duarte, com colaboração de pesquisadores da rede do Observatório da Cultura do Brasil
AMÉRICA DO SUL

A “nova onda rosa”: um recomeço mais desafiador

Online | América Latina
por Cairo Junqueira e Lívia Milani
CORRUPÇÃO BOLSONARISTA

Onde está o governo sem corrupção de Bolsonaro?

Online | Brasil
por Samantha Prado
CONGRESSO NACIONAL

Financiamento de campanhas por infratores ambientais na Amazônia Legal

Online | Brasil
por Adriana Erthal Abdenur e Renata Albuquerque Ribeiro
EDITORIAL

Só existe um futuro para o Brasil, e ele passa pela eleição de Lula neste domingo

Online | Brasil
por Le Monde Diplomatique Brasil
UMA ENCRUZILHADA SE APROXIMA

Os militares e a última palavra da legitimidade das urnas

Online | Brasil
por Julia Almeida Vasconcelos da Silva
ELEIÇÕES 2022

Voto útil: o chamado ao primeiro turno em 2022

Online | Brasil
por Luísa Leite e Alexsandra Cavalcanti