Bala, fome, vírus e rivotril na cidade do purgatório, da beleza e do caos

Chacina de Jacarezinho

Bala, fome, vírus e rivotril na cidade do purgatório, da beleza e do caos

por Rachel Gouveia Passos
7 de maio de 2021
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O mesmo Estado que extermina a população negra, negligencia o acesso à vacina contra o Covid-19 e corta as políticas sociais é aquele que vai silenciar a dor, o luto e o sofrimento por meio da medicalização da vida

No dia 06 de maio de 2021 os moradores da favela do Jacarezinho, localizada na zona norte da cidade do purgatório, da beleza e do caos, acordaram com a presença de policiais no território. A polícia civil alegou que a operação ocorreu para combater o tráfico de drogas, sendo que após 9 horas de ação já haviam pelo menos 25 mortos e alguns feridos. A situação foi tão avassaladora que passageiros da linha 2 do metrô foram atingidos dentro do transporte. Segundo a plataforma Fogo Cruzado essa é a segunda maior chacina da história da “cidade maravilhosa”.

Desde junho do ano passado, o Supremo Tribunal Federal já havia emitido uma liminar provisória proibindo a realização de operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro durante a pandemia, deixando explícito que apenas ações excepcionais poderiam ser realizadas. Contudo, o que os cariocas periféricos e favelados experimentam em seu cotidiano são as marcas da morte causadas pela tríade do extermínio: bala, fome e vírus.

Não tem sido fácil elaborar as tragédias diárias vivenciadas em tempos pandêmicos. Quando achamos que poderemos respirar somos surpreendidos com cenas de tragédia e destruição. O atual governador Cláudio Castro tomou posse, substituindo Wilson Witzel, e em menos de sete dias a Chacina do Jacarezinho aconteceu. Tal fato apenas demonstra o quanto a ordem “vai mirar na cabecinha e… fogo!” ainda está em voga.

Além de ter que conviver com a presença constante do braço penal do Estado em seus territórios a população pobre, favelada e periférica, composta majoritariamente por pessoas negras, precisa criar mecanismos para driblar o aumento do desemprego e o encolhimento das políticas sociais. De acordo com os dados do IBGE temos cerca de 14,2 milhões de pessoas na fila por um trabalho no país e 10 milhões cadastrados para receberem o auxílio emergencial.

Mas não para por aí. O mesmo Estado que extermina a população negra, negligencia o acesso à vacina contra o Covid-19 e corta as políticas sociais é aquele que vai silenciar a dor, o luto e o sofrimento por meio da medicalização da vida. Não é de hoje que mães e familiares vítimas de violência de Estado buscam justiça, mas só recebem como resposta o rivotril.

Ilustração de Cris Vector

Nos depoimentos de mães que tiveram seus filhos mutilados ou mortos pelo braço armado do Estado, publicados na plataforma Metrópoles, identificamos o uso permanente de psicotrópicos. Ou seja, a estratégia é silenciar a população negra, pobre e favelada matando e medicalizando seu sofrimento. Podemos recordar, inclusive, o caso da Chacina de Costa Barros, ocorrida em 2015, quando cinco jovens foram metralhados com 111 tiros disparados por policiais. Adriana Pires da Silva, mãe de Carlos Eduardo da Silva Souza, de 16 anos, um dos cinco jovens assassinados, já tentou suicídio três vezes desde a morte de seu filho[1], e os demais pais e familiares aguardam resposta. Tais fatos nos mostram o quanto a extensão da morte é permanente e cortante na vida da população negra, pobre e favelada.

Para onde temos caminhado? Não basta apenas exterminar o outro, tornou-se necessário promover a morte em vida daqueles que resistem a permanecerem vivos e para isso utiliza-se a medicalização enquanto estratégia. Para a psicóloga, pesquisadora e professora Melissa de Oliveira, poucos são os estudos que se debruçam para compreender o fenômeno da medicalização das mulheres negras, em destaque, aquelas que são mães e familiares vítimas de violência de Estado[2][3]. E até que nos atentemos para essas mulheres e familiares será que essa população continuará sendo morta e medicalizada?

 

Rachel Gouveia Passos é assistente social. Professora Adjunta da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade Federal Fluminense, autora e organizadora de algumas obras sobre saúde mental e as relações de gênero, raça e classe.

[1] Depoimento extraído do Dossiê “A situação dos direitos humanos das mulheres negras no Brasil: violências e violações” que é o resultado de um trabalho conjunto do Geledés – Instituto da Mulher Negra e Criola – Organização de Mulheres Negras, sob a coordenação de Nilza Iraci e Jurema Werneck. Disponível em: https://www.geledes.org.br/situacao-dos-direitos-humanos-das-mulheres-negras-no-brasil-violencias-e-violacoes/

[2] PASSOS, R. G. Racismo, violência e o sofrimento das mulheres negras: diálogos a partir de Heleieth Saffioti. Lutas Sociais, v. 23, p. 285-295, 2019.

[3] PASSOS, R.G. Mulheres negras, sofrimento e cuidado colonial. Revista Em Pauta, v. 18, p. 116-129, 2020.



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