Balada irlandesa - Le Monde Diplomatique

LIVROS B

Balada irlandesa

por Bruno Fouchereau, Bruno Rochette
1 de setembro de 2000
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Você sabia que as intervenções públicas de Gerry Adams divulgadas pela televisão inglesa eram sistematicamente dubladas, no estúdio, pela voz de um ator? Talvez seja por isso que ele chama a política britânica de obscenaBruno Fouchereau, Bruno Rochette

O presidente do movimento nacionalista irlandês é bem conhecido. Um corpo armado de uma cabeça, olhos de gato numa redoma, uma barba bem cuidada. E a paciência de um combatente. Também é bem conhecido seu papel de protagonista principal no projeto do processo de reunificação da Irlanda. Assim como a aversão que tinham por ele os ingleses — tanto políticos como jornalistas: você sabia que suas intervenções públicas, divulgadas pela televisão britânica, eram sistematicamente dubladas, no estúdio, pela voz de um ator? Um documentário filmado em 1997 por Arthur Mac Caig (que passou no canal Arte, na França, em 28 de maio de 1998) mostrava o fato. E o ex-companheiro de cela de Bobby Sands (que morreu no dia 5 de maio de 1981, após 66 dias de greve de fome, e foi enterrado no cemitério católico de Milltown, em Belfast Ocidental, ao lado de dez de seus camaradas) não deixa barato, quando denuncia a obscenidade da política britânica com relação à Irlanda. Esta antologia de contos, lançada agora na França, irá permitir a muita gente — embora ele já tenha uma obra importante — descobrir o escritor Gerry Adams.

A guerra civil e “a outra guerra”

Foram as primeiras grandes passeatas de protesto, organizadas em 1968 e 1969 pela Associação pelos Direitos Civis da Irlanda do Norte — da qual Gerry Adams, presidente do Sinn Fein e nascido em Belfast, em 1949, é membro até hoje — que marcaram, na opinião da minoria católica nacionalista, “o começo do fim” de uma ordem injusta das coisas. Isso porque remeteram à velha situação de um povo sujeito à coroa da Inglaterra, que teve suas terras ocupadas e foi dominado por quatrocentos anos pelos “herdeiros da evicção”. Em seu primeiro conto (“A guerra civil”), Willie Shannon e sua irmã Catherine — inofensivos aposentados que vivem sob o mesmo teto, ambos solteiros, e guardam secretamente suas histórias de amores perdidos — descobrem pela televisão, durante um passeio que fazem a Roma, as imagens das primeiras passeatas em Derry e os incidentes que se seguiram. A guerra civil será aquela que, pouco a pouco, irmão e irmã irão travar um contra o outro, quando voltarem a Belfast — paralela à outra guerra. Esse conto ilustra maravilhosamente o clima sutil, insinuante, em que se desenrola o enredo do livro.

Um passado que não se decide a passar

“Uma boa confissão” remete ao debate que agitou a Igreja católica irlandesa e seus fiéis por ocasião do atentado de Enniskillen (novembro de 1987), que provocou onze mortes e feriu mais de 60 pessoas, todas protestantes. Em “Os exilados”, Adams lembra que a Irlanda inundou o mundo com o dobro de sua atual população e que a emigração permanece, como uma sombra, na alma de cada irlandês. Já em “Vovó Harbison”, a personagem tenta poupar seu neto dos dissabores que passou com soldados britânicos.

William B. Yeats (1865-1939) dizia que na Irlanda havia demasiado ódio para tão pouco espaço — e a vida de cada irlandês estava mutilada para sempre. E acrescentava: “Após minha permanência em minha mãe, fiquei com o coração fanático.” No conto “As montanhas de Mourne”, Gerry Adams nos aproxima da “prostituta de fronteira”, que revela o lado humano através da curta passagem de dois homens — um “papista” e o outro “orangista” — por ocasião do Natal de 1969. Lutadores pela liberdade de sua terra, mas pouco livres, politicamente. O que não deixa de ser um sinal. Uma semana longe da confusão e da tensão de Belfast e um encontro fundamental num pub do condado de Down irá conduzi-los, a ambos, ao dito “vale do silêncio”… Ou, como trinta anos (1968-1998) se irão revelar cruelmente necessários para esgotar o sentido nominal do lugar. Ainda que seja necessário um longo tempo para que terminem os depoimentos residuais sobre um passado que não se decide a passar.

A antologia, composta de dezoito contos — todos eles delicados e nem todos de caráter político — foi publicada por uma editora basca recentemente criada.

Gerry Adams, A Rua e outros contos , ed. Gatuzain, Baiona, 2000, 183



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