Batalha silenciosa pelo tempo - Le Monde Diplomatique

SOCIEDADES DOENTES

Batalha silenciosa pelo tempo

por Mona Chollet
4 de dezembro de 2012
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“A esquerda deve voltar a falar com vontade do tempo de trabalho”, clama no Libération o socialista Pierre Larrouturou, partidário da semana de quatro dias. Mas será que a luta pela redução da jornada esgota a questão da relação problemática com o tempo que abarca as sociedades ocidentais contemporâneas?Mona Chollet

Economista e romancista, o espanhol Fernando Trías de Bes é consciente de que as pessoas têm pouco tempo para ler, assim como ele para escrever. Dessa forma, há alguns anos publicou um relato que tem o bom gosto de ser, ao mesmo tempo, breve e recheado de abreviações.1 A narrativa segue as atribulações de um personagem comum batizado de TC, “tipo comum”. Funcionário de uma multinacional, TC ocupa um cargo decisivo: é encarregado de dissimular nos armários da empresa os recibos dos fornecedores, para que estes sejam obrigados a reenviá-los. Essa tarefa e o crédito contraído pela compra do apartamento familiar não lhe deixam tempo (T) para dedicar-se à paixão secreta desde sua infância: o estudo de formigas de cabeça vermelha (form de cbça vra).

Um dia, para seu desespero, calculou que ainda faltavam 35 anos para quitar sua dívida e dedicar-se integralmente às suas adoradas form de cbça vra. Decidiu, então, pedir demissão e fazer fortuna. E teve uma ideia brilhante: vender o que seus contemporâneos, assim como ele, buscavam incessantemente: o T. Começou o negócio com frascos de cinco minutos, que prontamente se esgotaram. Em seguida, ampliou a gama de intervalos temporais com garrafas de até duas horas. Mas o negócio genial desencadeou atribulações sociais e políticas que estavam longe de ser previstas.

A fábula de Trías de Bes tem o mérito de ilustrar o mecanismo da dívida como “usurpação do tempo”2 e, de maneira mais ampla, o estado de “fome temporal”3 que assola as sociedades ocidentais modernas. Estariam elas cegas pelo prestígio que confere o ritmo de vida frenético, prisioneiras de certa concepção da atividade e do destino humanos, a ponto de subestimar o bem essencial que representa o tempo e degradá-lo sem qualquer pudor? Detrás daquilo que, em geral, cada um entende como um dom natural ou como os acasos da existência individual, opera um “regime do tempo” – que não tem nada de fortuito, sublinha o sociólogo alemão Hartmut Rosa.

Ele distingue, nos tempos atuais, três formas de aceleração que se combinam: aceleração técnica (internet, trens de grande velocidade, micro-ondas); aceleração social (troca-se mais de emprego e de situação econômica ao longo da vida, substituem-se objetos com mais frequência); e aceleração do ritmo de vida (dorme-se menos, fala-se mais rápido, compartilha-se menos com os mais próximos, as relações estão muito intermediadas pelo telefone e pela televisão). Certamente, segundo a lógica de que a tecnologia está a serviço da sociedade, a aceleração técnica deveria assegurar a todos um cotidiano tranquilo e indolor; salvo que, se por um lado diminui bastante a duração de certos processos, também gera muitos outros. É mais rápido escrever mensagens eletrônicas que uma carta; o carro permite chegar mais rápido, mas ao mesmo tempo aumenta os deslocamentos, fazendo aumentar o tempo dentro de meios de transporte. A explosão do número de solicitações e possibilidades – consumo, indústria, lazer, internet, televisão – submete o indivíduo a permanentes arbitragens, que também consomem muito tempo.

O relógio, “moinho do diabo”

A tese de Rosa é que o fenômeno histórico da aceleração foi, no início, percebido pelas sociedades ocidentais como necessidade e promessa de progresso e autonomia. Hoje, contudo, desestabiliza as instituições e os cenários políticos que permitiram seu aparecimento. A aceleração se tornou uma “força totalitária interiorizada pela sociedade moderna”, um princípio abstrato e onipresente do qual ninguém escapa. No cotidiano, o indivíduo tem a impressão de não fazer outra coisa senão “apagar o fogo”, sem jamais parar para contemplar a própria vida; e as comunidades políticas perdem o controle sobre seu destino. Paradoxalmente, esse ritmo frenético vem acompanhado de um sentimento de inércia e fatalismo.

Se os âmbitos progressistas ainda não identificam o tempo claramente como desafio de uma batalha estratégica, é possível, pelo menos, constatar que essa categoria se tornou disputada e distribuída de forma muito desigual. Na França, as leis Aubry de 1999 e 2002 sobre a redução da jornada de trabalho proporcionaram férias suplementares, mas desestruturaram o ritmo dos assalariados pouco qualificados, que se viram submetidos a uma flexibilidade crescente. As agências de “serviços domésticos”, muitas vezes promovidas como fornecedoras de “tempo para si”, permitem que as classes mais abastadas se desocupem da limpeza ou do cuidado das crianças, oferecendo empregos ingratos e muitas vezes mal pagos a uma mão de obra em geral feminina, pobre e/ou imigrante.4 O tempo dessas “pequenas mãos” é tratado com extremo desprezo, assim como o dos desempregados e pobres, condenados a fazer filas em guichês de auxílio social:5 “Volte amanhã”. O mesmo acontece com o “direito à desconexão”: “Como é o chefe, o responsável pela manutenção dos edifícios, ele se autoriza a desligar o telefone quando bem entender. Por outro lado, as pessoas que estão sob suas ordens, os trabalhadores, são repreendidos se desligam o aparelho”, testemunha um assalariado.6

As mulheres, em seu conjunto, são submetidas a uma pressão particular. Em julho de 2012, o Movimento Vie Féminine, da Bélgica, dedicou sua semana anual de estudos ao tema. Com o título “Retomemos o poder sobre o tempo” (www.viefeminine.be), o artigo sublinha que, além de assumir o essencial das tarefas domésticas, elas desempenham o papel de “amortizadoras temporais” na empresa, onde em geral trabalham meia jornada, e na esfera privada, responsáveis pela “carga mental da organização dos diferentes tempos da vida em família”. São também vítimas das “mentalidades ainda sexistas que associam o feminino com devoção aos outros”. Uma enfermeira confessa em eco: “Quando faço algo para mim, sempre tenho a impressão de estar abandonando alguém”.7

Se, ao longo das últimas décadas, o trabalho se intensificou e tende, em certas categorias de assalariados, a invadir a esfera pessoal, sua duração oficial não para de baixar desde o início da época moderna. Os sujeitos possuem mais tempo livre, mas estão mais submetidos ao ritmo infernal da vida coletiva.8 Além disso, sublinha Rosa, dedicam o tempo livre a atividades de pouco valor aos seus próprios olhos, como assistir à televisão: sofrem uma espécie de inibição que os impede de fazer aquilo que realmente têm vontade.

Nada de surpreendente até aí, porque o problema do tempo não é somente quantitativo – sempre no sentido de falta –, mas também qualitativo: não sabemos mais ocupá-lo, domesticá-lo. A concepção de tempo atual foi forjada pela ética capitalista, de origem protestante, porém amplamente secularizada:9 é um recurso abstrato que “deve ser usado da maneira mais intensiva possível”.10 O historiador britânico Edward P. Thompson relatou a resistência das primeiras gerações de operários quando viram que o tempo de trabalho imposto era definido pelo relógio, pela sirene ou pelo ponteiro, e não pela tarefa cumprida.11 Com essa regularidade, perde-se o hábito espontâneo de alternar períodos de trabalho intenso e períodos de ócio, que Thompson considera como o ritmo natural do ser humano.

É a divisão rigorosa do tempo que ordena a disciplina não só na fábrica, como também na escola, instituição que visa domesticar precocemente o futuro trabalhador: em 1775, em Manchester, o reverendo J. Clayton se inquietava de ver as ruas infestadas de “crianças maltrapilhas desocupadas, que não somente perdiam tempo, mas também criavam o hábito de brincar”. A dimensão repressiva da empresa aparece claramente quando o teólogo puritano Richard Baxter sugere a cada um, antes da generalização dos relógios de bolso, consertar “seu relógio moral interior”. Mais recentemente, em 2005, na Alemanha, o secretário democrata cristão da Justiça do estado de Hesse havia sugerido a necessidade de “vigiar os desempregados” por meio de “braceletes eletrônicos” para que pudessem reaprender a “viver nas horas normais”.12

A lógica da rentabilidade e da competitividade, própria da atividade econômica (“a concorrência não dorme jamais”), se estende a todos os âmbitos da vida. O tempo livre – quanto mais difícil conquistá-lo, mais precioso – também deve ser empregado de forma eficaz. Contudo, essa reticência diante do risco de dilapidá-lo pode custar caro e resultar em uma desvantagem que, nesse caso, seria comum de alto a baixo na escala social: “Não mais que o explorador, o explorado não tem a possibilidade de dedicar-se sem reservas às delícias do ócio”, escreve Raoul Vaneigem. Assim, “sob a aparente apatia do sono, desperta uma consciência de que o cotidiano maçante do trabalho o exclui de sua realidade rentável”.13 Com essas palavras, Rosa diz que, se quisermos retomar o controle do curso da história individual e coletiva, é necessário, em primeiro lugar, se libertar dos “recursos temporais” para a distração e a ociosidade, e reaprender a utilizar “mal” o tempo.

O que está em jogo, acrescenta, é a possibilidade de “se apropriar do mundo” e evitar que ele se transforme em um lugar “silencioso, frio, indiferente e até hostil”. Rosa também menciona um “desastre da ressonância na modernidade tardia” que mantém o sujeito contemporâneo em um estado de estranhamento do mundo de sua própria existência.14 Antes do reino do relógio – que os camponeses cabilas na década de 1950, conta Pierre Bourdieu, chamavam de “moinho do diabo” –, as maneiras de medir o tempo relacionavam naturalmente os seres humanos, seu corpo e o ambiente concreto. Os monges birmaneses, conta Thompson, se levantavam na hora em que “havia luz suficiente para ver as veias das mãos”; em Madagascar, um instante era o tempo de “fritura de um grilo”.

Dado que a crise do tempo tem suas raízes profundas na história da modernidade, não há soluções superficiais ou imediatas. Por isso, é preciso considerar com cautela iniciativas como o movimento europeu slow (“lento”): slow food para a gastronomia,15 slow media para o jornalismo, cittaslow para o urbanismo. Nos Estados Unidos, o pensador Stewart Brand supervisiona, no Deserto do Texas, a construção do “relógio do longo agora”, que supostamente funcionará por 10 mil anos e devolverá à humanidade o sentido do longo prazo. O projeto perde poesia quando se descobre que o financiador é Jeff Bezos, fundador de Amazon: é pouco provável que seus empregados, obrigados a camelar o dia todo em lugares superaquecidos, tirem dessa atividade um grande conforto existencial.



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