Bloco Ilú Obá De Min leva a cultura afro-brasileira ao Festival d’Automne, em Paris
O grupo, que marcou presença em um dos festivais mais renomados do mundo artístico entre os dias 14 e 20 de setembro, está em uma missão de expandir fronteiras geográficas e culturais
“Um marco de reconhecimento da herança artística do Ilú como instituição global”. É assim que Daiane Pettine, coordenadora executiva do ecossistema Ilú Obá De Min, descreve a passagem do grupo pelo Festival d’Automne, em Paris. O evento aconteceu entre os dias 14 e 20 do mês, e reuniu música, teatro, educação e vivência.
Essa não é a primeira vez que o Ilú é reconhecido fora das fronteiras brasileiras. O grupo já esteve na Colômbia, Bolívia, Estados Unidos e, agora, se apresentou pela primeira vez na Europa. “Quem sabe um dia, não estaremos no continente africano? Esse é um sonho também!”, afirma Beth Beli, mestra, presidente e fundadora do bloco.
Beth aponta que a expansão do grupo é uma espécie de ‘reencontro’. Para explicar isso, ela remonta à diáspora africana: “As mulheres negras são diversas… eu posso ter meus antepassados do Congo, ela pode ter da Etiópia, e outra pessoa pode ter de outro lugar. Mas, desde criança, eu observava que nós éramos um povo, que só de se ver na rua, a gente se reconhecia”.
“Nós somos muitos e fomos separados.
Esse é o momento do nosso reencontro com nós mesmos”
Beth Beli
Ilú Obá de Min: Universidade sem paredes
O ecossistema Ilú Obá De Min nasceu há 21 anos como um bloco de carnaval, protagonizado por mulheres negras, na cidade de São Paulo. Beth aponta que são mais de 400 mulheres de diferentes faixas etárias, assistidas por cerca de 50.000 pessoas em seu cortejo tradicional. “A integrante mais nova tem 4 anos de idade, e a mais velha, 84”, diz ela. O grupo se coloca como um espaço para celebrar essa pluralidade e potencializar o protagonismo feminino negro: são 23 mulheres negras na direção do ecossistema.
“Quando eu estou lá na frente, na regência, eu vejo um mar de mulheres negras”, diz Beth. A presidente do bloco ainda complementa: “Mesmo nesse oceano, a gente consegue ver que cada uma delas são diferentes. No Ilú, essas pessoas não precisam ser reduzidas a algo, não existe alguém contando a história por elas. Elas podem ser quem elas quiserem.”
Com o passar dos anos, o grupo começou a investir na ideia de expansão. “É claro que o bloco é o nosso principal projeto, mas o Ilú também é uma instituição educacional da cultura”, diz Daiane. Para a diretora-executiva, a educação deve sempre vir primeiro. O grupo tem livros, álbuns musicais, contribuiu e foi tema de teses de mestrado e doutorado. Além disso, organiza rodas de conversa e valoriza a troca de saberes pela tradição oral.

Crédito: Divulgação Ilú Obá De Min
Beth chama a atenção para um ponto importante: tudo isso foi feito sem grandes patrocínios financeiros. É de se esperar que no caso de um apoio substancial, o Ilú seja capaz de avançar ainda mais em seus projetos: capacidade e força para produzir é o que não falta. Isso porque, para elas, o Ilú é um espaço de formação política e de “pensar e criar o mundo em que queremos viver”. Para isso, a expansão para diferentes áreas da cultura e da educação é fundamental.
“Se a gente não escreve, as nossas histórias não vão estar nas universidades”
Beth Beli
Daiane aponta que o grupo atua como uma ‘Universidade sem paredes’: é um ambiente de desenvolvimento cultural e intelectual, que preza pelo registro e manutenção de sua cultura. O grupo entoa seus cantos em Iorubá, idioma da família linguística nígero-congolesa e o próprio nome “Ilú Obá De Min” significa “mãos femininas que tocam para o rei Xangô”.
O Festival d’Automne
Criado em 1972, o Festival é um dos eventos mais importantes da agenda cultural parisiense, reunindo mais de 250 mil pessoas todos os anos. O evento mescla manifestações artísticas de teatro, música, dança, cinema e arte visual. Ao longo da semana, o Ilú exibiu filmes, promoveu rodas de conversa, oficinas de percussão afro-brasileira e encerrou sua presença com a apresentação do cortejo.
Daiane explica a sensação logo nos primeiros dias do evento: “nós fomos recebidas de maneira muito calorosa”. Ela aponta que ficou surpresa ao notar que o Ilú Obá De Min já era conhecido pelo público – que esperava com uma certa ansiedade a presença do grupo.
“O Ilú só poderia ter nascido no Brasil, mas esse evento nos marca como instituição de diálogo global”, comenta a diretora-executiva. Com essa visão, Daiane enxerga a música como idioma universal dessa conversa. “Trazemos o som dos nossos tambores para dialogar com as mulheres parisienses, da Nigéria, de Gana, do Congo… nós já sabemos que esse som comunica com as brasileiras, mas ele também consegue se conectar com as pessoas do mundo inteiro”.
Grupo se apresenta em Paris.
Crédito: Ilú Obá De Min
Beatriz La Corte é parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.

