Bolsonarismo e o terrorismo estocástico - Le Monde Diplomatique

EXTREMA DIREITA MUNDIAL

Bolsonarismo e o terrorismo estocástico

por Rudá Ricci e Luís Carlos Petry
9 de agosto de 2022
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O terrorismo estocástico revela mais do que uma mera disputa política. Revela uma sociedade adoecida e sedenta de mudança. Revela uma tarefa urgente que somente pode acontecer pela razão, limitando os impulsos da barbárie fascista.

Norberto Bobbio descreve o extremismo político como um movimento antidemocrático, que se opõe a qualquer moderação, e ressalta que a vocação de todo extremismo é a ação como ímpeto, como chamado à destruição do oponente. O terrorismo é uma vertente do extremismo, marcado pela vingança e pela capacidade de atingir o centro do poder com os atentados[1].

Ambos deixam um rastro: ações para a eliminação de um oponente, o uso sistemático da ameaça ou aplicação da violência contra um alvo nítido, a construção de um clima de desorganização política e a imprevisibilidade. Dotados de intencionalidade, eles procuram implantar o pânico político, assim como criar uma energia que empodera os grupos fanáticos terroristas.

É por este prisma que analisamos a série de atentados e assassinatos com motivação política que ocorreram na virada do primeiro para o segundo semestre de 2022 no Brasil, cuja sequência é reveladora de nítida intencionalidade.

Episódios de violência política

Em junho, o indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips são assassinados nas imediações da Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas. Tratou-se de uma retaliação contra as denúncias de pesca ilegal no território indígena. Desde o início do governo Jair Bolsonaro, ações depredatórias na região amazônica e ataques às populações indígenas foram incentivadas.

Em 16 de junho de 2022, um drone despejou um produto químico em manifestantes que aguardavam a chegada de Lula em Uberlândia. Algumas semanas depois, em 6 de julho, um tiro atingiu a janela da redação da Folha de S. Paulo e, no mesmo dia, um fanático atirou uma bomba caseira em comício de Lula no Rio de Janeiro. No dia seguinte, o veículo do juiz que mandou prender o ex-ministro da Educação foi vandalizado. E chegamos, então, ao assassinato de um dirigente petista que festejava seu aniversário. O assassino adentrou no local da festa atirando e gritando “Aqui é Bolsonaro” e “mito”.

Os fatos parecem claramente interligados e tendo como autoria fanáticos alimentados por bolhas extremistas ou “câmaras de eco” que disseminam diariamente o ódio, o racismo e a construção de um mundo paralelo, onde a realidade é apresentada como algo nefasto a ser combatido.

A onda terrorista foi motivada por Jair Bolsonaro em inúmeras declarações. Em meados de maio de 2022, Jair Bolsonaro incentivou a violência política afirmando que “um tiro só ou uma granadinha mata todo mundo”. No final de maio, em Jataí (GO), simulou um pescoço sendo atacado por um facão. Em 7 de julho, dois dias antes do assassinato do dirigente petista em Foz do Iguaçu, o presidente da República, em live semanal afirmou: “Você sabe o que está em jogo, e você sabe como deve se preparar (…) nós sabemos o que devemos fazer antes das eleições”.

No Brasil, acontecimentos políticos são percebidos como atos isolados, principalmente os de natureza violenta. A cultura popular brasileira dificulta sobremaneira a captura das intenções extremistas dado que se fia pela ordem, como recentemente revelado pelas pesquisas realizadas em favelas do nosso país[2]. A ordem social e política garantiria a possibilidade de sucesso pelo esforço individual. Assim, a natureza da disputa política estaria marcada pelo signo da disputa e ambição interpessoal, não por ideologias coletivas. Esta é a realidade que se depreende de pesquisas sobre o perfil do eleitor médio brasileiro[3]: não há clareza do papel dos cargos públicos que não estejam diretamente vinculados às práticas clientelistas nas quais o eleitor seja parte integrante. A totalidade dos eventos políticos violentos é percebida como inusitados e excepcionais.

A rota da escalada do terrorismo político neste ano de 2022 indica motivações claras e protocolos empregados nas ações, a saber:

A dificuldade para reduzir a diferença pró-Lula nas sondagens de intenção de votos para as eleições de outubro gerou angústia no staff de Bolsonaro e criou um sentido de urgência para reverter este quadro político;

A perspectiva de recessão mundial em 2023 alterou a expectativa da campanha bolsonarista que, até o final de 2021, acreditava que com o fim das restrições de mobilidade em função da pandemia da Covid-19, poderia ser retomado o crescimento econômico o que, de fato, não ocorreu;

A reação inicial com a aprovação do Estado de Emergência pelo Congresso Nacional parece não ter convencido plenamente o governo federal de seu sucesso em termos de reversão do cenário eleitoral em virtude da frustração com o impacto político advindo da adoção do Auxílio Brasil em 2021;

Assim, o pêndulo entre o populismo de direita – orientado pelas políticas clientelistas sugeridas pelo Centrão – e discursos inflamados e próximos das tradições fascistas, vem caracterizando a oscilação política de Bolsonaro nos últimos 18 meses;

Por seu turno, a base social fanática se articula em uma miríade de agrupamentos organizados, em especial, nas redes sociais. Ao estímulo dos discursos beligerantes de Bolsonaro, repercutem suas hipérboles em câmaras de ressonância, impedindo qualquer reflexão ou argumento contraditório;

Nesses pequenos agrupamentos, a excitação constante aumenta a probabilidade de ações descoordenadas e solitárias, numa espécie de entrega e testemunho pessoal de sua crença e empoderamento;

A excitação fanática alimenta a construção de um mundo paralelo idealizado pelas câmaras de ressonância que interpretam a realidade adversa como fruto da sabotagem liderada por correntes de esquerda, corruptos morais e inimigos da liberdade e do sucesso individuais. Estes passam a ser alvos preferenciais do ataque dos fanáticos bolsonaristas.

Os atos terroristas são, então, percebidos como atos heroicos, que procuram barrar o avanço dos corruptores da sociedade e dos bons costumes. Atos de lobos solitários marcados pelo mal-estar interpretado como descaminho da humanidade que se apresenta anestesiada e incauta. Este roteiro vem estimulando a formação do que internacionalmente se denomina “terrorismo estocástico”, tema que será aprofundado mais adiante.

O presidente Jair Bolsonaro fala durante a convenção nacional do Partido Liberal (PL), no estádio do Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil
Exacerbação do individualismo

Richard Sennett publicou um conjunto de livros em que analisa a paranoia atual. Ele aponta as transformações no capitalismo e nas relações de trabalho que conduzem a modificações da estrutura subjetiva humana, que incidem sobre aspectos emocionais e comunitários, produzindo um fosso entre gerações e construindo a estrutura psíquica de resiliência no neoliberalismo. A dissolução dos laços fraternos e comunitários em prol de uma exacerbação do individualismo é o signo de uma crescente individualização, a uberização da vida e das relações humanas.

Muitos autores retrataram este paradoxo da solidão em meio a miríade de redes em que cada um de nós se vincula e a facilidade de comunicação. Trata-se de um verdadeiro mosaico em que cada parte forma uma mônada que não se articula naturalmente com as outras peças que compõem o cenário social.

Anthony Giddens sugere que nunca cada indivíduo foi instado tão intensamente a decidir acerca de tudo, tantas vezes num mesmo dia. Ele sugere que vivemos em uma “sociedade reflexiva”[4], uma outra modernidade que promove inseguranças e escapes individuais dos controles institucionais vigentes.

Nessa linha temos o cansaço que se abate sobre nós em função da exigência pessoal do desempenho individual numa organização social não apenas competitiva, mas atomizada (Byung-Chul Han). As amplas identidades profissionais e de classe, antes conformadas em espaços de trabalho das grandes plantas industriais, dão lugar à uberização ou serviços autônomos acionados por aplicativos.

Já Marcos Nobre sugere a emergência da “democracia digital”, se referindo a lógica dos algoritmos, seus usos e abusos políticos, mas, também, a aplicação da metapolítica – a manipulação da leitura do cenário político direcionando gostos sobre vestuário, artes e entretenimento para comentários indiretos sobre lideranças e ideologias – e a formação de coletivos e “bolhas”. Ele identifica nessa nova dinâmica a formação de oligopólios de agregação de opiniões[5].

A nova dinâmica política privilegia o alto engajamento de uma parcela dos internautas. É o engajamento que dá lugar as bolhas de extrema-direita nos EUA e aqui no Brasil. Michele Prado sustenta que essas bolhas estadunidenses alimentaram uma nova onda de extrema-direita – a anterior ocorreu entre 1955 e 1980, protagonizada pelo discurso macarthista e na formação de partidos de extrema-direita, como o Partido Independente Americano e, na Europa, no Front National e Progress[6].

Temos a emergência de uma lógica fascista, mobilizadora, popular, de tipo novo, alicerçada na manipulação de perfis capturados pelos algoritmos, uma potente base de dados que traça desejos e preferências de internautas ou usuários de smartphones para fins de indução e estímulos políticos, dentro de massas digitais e no espaço público.

Massas

O tema das massas sempre foi de grande interesse das lideranças fascistas e de extrema-direita. Por exemplo, Mussolini que, em entrevista, declarou: “Li toda a obra de Gustave Le Bon; e não sei quantas vezes reli sua Psicologia das Multidões. É uma obra capital, à qual volto muitas vezes, ainda hoje”[7].

Freud analisa os fenômenos de massa em A psicologia das massas e a análise do Eu (1920), O mal-estar na cultura (1930) e em seu Manuscrito inédito de 1931. Adorno produz seu aprofundamento em seus Ensaios sobre psicologia social e psicanálise (1972). Neles mostra que os fenômenos de massa se constituem através de dois mecanismos fundamentais que regulam a psique humana: a escolha de objeto afetivo-erótico e a identificação.

O primeiro objeto de escolha do sujeito é a mãe, fornecendo os modos particulares de relação com o mundo externo e os semelhantes, sua solidariedade, sua empatia e, fundamentalmente o seu exercício do amor. Numa linha temporal próxima, mas posterior, temos a entrada em ação dos três processos de identificação. O primeiro é a identificação com o pai, o modelo de si e daqueles que psíquica e inconscientemente estamos dispostos a seguir e, inclusive, substituir, tanto como sucessores naturais ou mesmo como opositores reconhecidos. Ela regula o quantum do masculino no domínio sobre o feminino que age dentro de cada um de nós podendo, em situações extremadas chegar a pulsões de poder e sadismo.

No segundo modo, temos a identificação com um traço, na qual tomamos um simples traço do outro com o qual nos identificamos: como estilo, jeito, tique e mesmo sintoma, o que explica muito do mimetismo que desenvolvemos de nossos ídolos, nas mudanças de comportamento e costumes. Na Alemanha nazista, o número de sujeitos que reproduziram o estilo de bigode de Hitler era notável, em uma modalidade estética de afirmação, como Führer. Uma identificação igualmente associada aos ídolos e líderes, como uma identificação vertical descendente e contribui para a formação de uma identidade de grupo entre indivíduos.

O terceiro tipo histórico é a identificação solidária: operada nos processos sociais de convivência humana. Ela se dá em moções de desejos inconscientes, que abrem a porta do inconsciente transindividual que nos atravessa nas relações sociais. Ocorre inconscientemente ao captarmos nos semelhantes formações de desejo que nos são análogas ou quando enfrentamos situações conjuntas e reagimos de forma espontânea, automática, com comportamentos coordenados com nossos semelhantes. Aqui temos a identificação horizontal e solidária.

Nas massas, estas estruturas funcionam de forma conjunta. Os sujeitos da massa desenvolvem um vínculo com o líder através da identificação vertical descendente, absorvendo traços dele, e a identificação horizontal solidária sendo responsável pelo cimento de sua reunião em uma massa como um corpus orgânico em movimento, em ações coordenadas, as quais referenciadas aos desejos e moções que capturam do líder e de uns dos outros, via o inconsciente transindividual. O sujeito individual se dilui na unidade formada por muitos na massa em um sujeito coletivo suscetível da manipulação por parte do líder, através de ações discursivas.

É neste momento, que as ações discursivas do líder e/ou seus representantes menores locais entra em ação, na manipulação das massas as promovendo como turbas violentas, através da sugestão e do contágio, configurando disparadores psíquico-discursivos. Estes trabalham na construção de um imaginário fantástico, que se regula pela potencialização bajuladora e narcísica dos membros da massa, em oposição e demonização aos adversários, e os conduz a ações violentas contra ao estado atual do mundo. O apego dos sujeitos à massa mostra a resiliência do sujeito alienado e ressentido, na busca de sua fuga da atomização de si, nas bordas da paranoia, tal como sugere Adorno.

Imagem, texto, áudio ou mesmo um conjugado dos três criam o disparador psíquico dirigido às massas para incitá-las às ações determinadas e violentas, as transformando em turbas ou mesmo produzindo nelas lobos solitários. Forjam um evento precipitante para um dado comportamento esperado. As condições para se identificar estes disparadores são:

mensagens do líder da massa realizadas publicamente em canais de grande difusão: jornais, televisão, lives, vídeos e redes sociais;

serem formadas por várias mensagens, algumas possuindo sentido aberto e outras direcionando para uma intencionalidade;

a existência de uma série histórica de mensagens do líder (de acordo com os critérios temporais da construção de uma liderança fascista);

delimitação de um comportamento ou atitude voltados contra os inimigos eleitos e demonizados pelo líder fascista;

apresentação da mensagem sob forte tônus afetivo-emocional denotando estado de urgência, apelo ou denúncia.

Quanto maior o ambiente social de tensão e polaridade ideológica, mais eficientes as mensagens que funcionam como disparadores psíquicos. Elas precisam de, pelos menos duas situações. Um ambiente de conflito social, de crise e de correspondente engajamento da massa que segue o líder. Elas necessitam ser em número abundante, em uma série histórica e de conteúdo aparentemente variável, mas que direcionem a agressividade para o adversário demonizado. Com o mecanismo de comunicação com a massa e sua estrutura de vinculação com o líder descritos, os disparadores psíquicos são instrumentos de manipulação e incitação à ação. É a ação que tem desenvolvido Bolsonaro, desde o momento em que iniciou seu périplo como deputado federal, e o que tem mimetizado seguidores seus, sem tanto sucesso[8].

Assim, sugerimos a compreensão de um duplo movimento que, embora conectados, possuem lógicas próprias. De um lado, um movimento que envolve personalidades sádicas ou em sofrimento mental, ainda que egosintônicos, predispostas à explosão emocional e à reação violenta não necessariamente contra os fatores que estimulam seu sofrimento ou perversidade; e, de outro, a ação planejada de captura dessas tortuosas personalidades para a ação política violenta.

O tédio agudo ou a humilhação social levam à busca, em dadas circunstâncias e relacionado ao grau de sofrimento do indivíduo, de excitação que dê sentido à sua vida. Erich Fromm ressalta o quanto a violência grupal é excitante, despertando a emoção que o confronto motivado pelo líder da massa causa, mesmo frente aos riscos de vida[9]. No caso de vivências entediantes e carentes de aventuras, o envolvimento com atos coletivos ofensivos a grupos adversários “deve ser compreendida como um desejo de pôr fim à rotina maçante da vida cotidiana”[10]. Na massa, o estímulo ativador da violência produz essa falsa forma de excitação.

A obediência cega ao líder advinda de personalidades frágeis e dependentes que seguem o incitador autoritário, funciona como um sistema de retroalimentação em que o líder se esforçará na construção de uma imagem coletiva de segurança, apresentada em suas mensagens dirigidas contra interesses corruptos que maculam valores tradicionais, a honra e a dignidade. Nesse caso, o líder trabalha na construção de uma massa que pode ser conduzida a atos violentos. Seus componentes fundamentais são a crueldade e sadismo, bem como uma relação de objeto com o outro perversa.

Será nesse sentido que os discursos políticos que representam um inimigo poderoso e insinuante, que manipularia a boa-vontade dos ímpios, moldam o ambiente favorável para a ação daqueles líderes (perversos) que sentem satisfação intensa em perseguir e destruir o outro: os sujeitos da massa que seguem o líder são capturados pelas campanhas de ódio que se dão em série e adotam características estocásticas.

Guerra cultural

Este é o movimento político e social que se articula internacionalmente, no renascimento dos movimentos de extrema-direita nos últimos cinquenta anos. A primeira característica deste movimento internacional é o foco na disputa de valores e da hegemonia cultural, que denominam de “guerra cultural”. Nos EUA, se autodenominam de far-right, se constituem em movimentos reacionários, portanto, anti-institucionais, de ataque à ordem social e política instalada.

Oswald Splenger, Julius Evora e Renè Guénon são as referências mais citadas[11]. Na Europa, o movimento de extrema-direita foi galvanizado pela Nouvelle Droite francesa, que desde os anos 1960 se organizava no combate à esquerda e disseminava o conceito de guerra cultural. A orientação política segue a disputa de valores, e seu campo de batalha sempre foi a cultura, não a política diretamente, mas a ocupação dos jornais, das universidades, dos teatros, humor, cinema. As lideranças desta corrente francesa foram Allain de Benoist, Guillaume Faye e Dominique Venner. Faye se tornou um radical crítico das sociedades de mercado que debelariam a identidade europeia e seu discurso atraiu jovens que constituíram o Geração Identitária (GI), articulação que atua nas redes sociais para divulgar uma “luta pela reconquista do território francês”, que o movimento afirma ter sido “perdido para imigrantes”.

Os movimentos contemporâneos de extrema-direita se organizam sempre ao redor de um líder carismático perverso que prolifera discursos irracionais cuja motivação é o enfrentamento da ordem democrática, como nas comunicações proferidas nos dias que antecederam o 7 de setembro de 2021, no conclame à derrubada das instituições legislativas em Brasília.

O líder carismático nem sempre é considerado pelos formuladores dos movimentos extremistas de direita como consciente de seu papel histórico, mas sugerem que são aríetes necessários para a implantação do caos e aceleração da transição da sociedade moderna para a futura sociedade tradicional e honrada. Esta era a conclusão que chegaram Steve Bannon sobre Trump e Olavo de Carvalho sobre Jair Bolsonaro.

Não tão visível como as movimentações dos líderes carismáticos, temos as estruturas de comunicação interna e os manipuladores de algoritmos nas redes sociais. Sua intenção é  construir uma ampla rede de pequenos coletivos, altamente excitados pelas mensagens que estimulam o viés de convicção. Não se trata de uma organização monolítica como as encontradas no século XX, mas sim de um mosaico onde os diversos agrupamentos não dialogam entre si, mas se orientam pelas informações e comandos do núcleo organizador central do líder[12]. Ao menos três perfis distintos são o foco e recebem estímulos específicos: a) os com baixa convicção e sugestionáveis; b) os com valores radicais (racistas, misóginos, sexistas, homofóbicos e tradicionalistas), mas não afetos à ação direta; c) e os fanáticos, violentos e aptos para a ação direta, muitas vezes, de natureza terrorista e envolvidos em uma guerra santa de purificação.

A manipulação deste gradiente de perfis vai do uso da metapolítica (operando com gostos e crenças para inserir sutilmente críticas enviesadas ao comportamento político) à construção de “câmaras de eco” em alguns coletivos virtuais que ressoam constantemente apelos apocalípticos e chamados do líder carismático.

Os atos simbólicos de rua e as manifestações públicas envolvendo os diversos agrupamentos e coletivos fanáticos revelam seu potencial político e agressividade. Aqui se encontram grandes atos de confronto com instituições políticas que plantam o medo entre os segmentos ponderados da sociedade, projetando uma força política extremista que nem sempre é real.

Também é neste momento que se desencadeiam atos terroristas de natureza estocástica. Estocástico devido ao fato de que ele é o efeito de um conjunto de mensagens e sugestões de ações que são processadas pelos indivíduos da massa fascista e atomizados em sua ação.

O enfrentamento do terrorismo estocástico se dá, portanto, em ao menos três dimensões.

A primeira, das redes informais que se formam e por onde se irradiam gatilhos psíquicos que levam às manifestações de intolerância e autoafirmação grupal, além dos atos terroristas solitários. Tais redes podem ser identificadas e desbaratadas, justamente porque disseminam valores e alvos políticos nítidos e possuem, no caso brasileiro, uma identidade geral: o bolsonarismo. As instituições brasileiras têm plenas condições para investigar essas redes e localizar as “câmaras de eco” e os estímulos à ação direta para atingir alvos políticos e implantar o pânico na sociedade.

Uma segunda dimensão é a do líder carismático e seu staff. Todo líder carismático constrói sua prática a partir da narrativa e retórica emocional, pela construção apocalíptica e intervenção urgente para alterar os rumos em curso no mundo. O líder carismático se apresenta como um misto de profeta e herói, embalado pela demagogia, pela biografia comum com a base da sociedade. É daí que surge a empatia inicial que mobiliza emoções contra “os de cima”, os poderosos da política, da cultura e da economia. O líder carismático de extrema-direita faz escaladas discursivas. Num primeiro momento, valoriza os desprovidos de poder e cria uma identidade coletiva pela negação aos poderosos que procuram dominá-los. Em seguida, testa a força política e de representação e se lança na arena política. Se bem-sucedido, avança nas críticas à ordem vigente para, então, atacar instituições e  a ordem política instalada.

Finalmente, a terceira e mais complexa dimensão: a das personalidades mais afetas ao discurso extremista. Aqui reside o problema mais complexo porque se relaciona com as desventuras da sociedade brasileira, extremamente desigual. Ressentimento e elitismo se fundem com a ética do trabalho. Um segmento considerável da sociedade brasileira considera que as dificuldades pessoais e familiares podem ser superadas com esforço individual. Assim, políticas sociais promocionais seriam humilhantes porque partiriam, hipoteticamente, da avaliação discriminatória da incapacidade de alguns brasileiros atingirem sucesso por seu próprio mérito. Tal leitura promove a aproximação de segmentos desfavorecidos ao discurso do líder extremista, anti-establishment. Um caminho tortuoso de autoexpiação de sua condição marginal, como se negando favores e invocando seu ingresso no mundo dos afortunados.

Não se trata de uma empreitada simples o enfrentamento do extremismo bolsonarista. Exige tempo porque dialoga com valores e crenças, com emoções e traços de personalidade, com o desejo legítimo de camadas populares demonstrarem seu valor e ascenderem ao mundo da estabilidade social.

O terrorismo estocástico revela mais do que uma mera disputa política. Revela uma sociedade adoecida e sedenta de mudança. Revela uma tarefa urgente que somente pode acontecer pela razão, limitando os impulsos da barbárie fascista.

 

Rudá Ricci é doutor em Ciências Sociais e presidente do Instituto Cultiva. Luís Carlos Petry é doutor em Comunicação e Semiótica, psicanalista, topólogo e professor aposentado pela PUC-SP.

 

[1] Citado por SEIXAS, Eunice Castro. “Terrorismos”: uma exploração conceitual . Revista de Sociologia Política 16 (suppl) • Ago 2008 • https://doi.org/10.1590/S0104-44782008000300002

[2] Ver MEIRELLES, Renato & ATHAYDE, Celso. Um país chamado Favela. São Paulo: Editora Gente, 2014.

[3] Ver série histórica Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB), survey nacional pós-eleitoral realizado pelo CESOP/Unicmap desde 2002.

[4] GIDDENS, Anthony et all. Modernização Reflexiva. São Paulo: Editora UNESP, 1997.

[5] NOBRE, Marcos. Limites da Democracia. São Paulo: Todavia, 2022.

[6] PRADO, Michele. Tempestade Ideológica. São Paulo: Lux, 2021.

[7] Bosc, Olivier. (2010). Gustave Le Bon, um mito do século XX?, In: Mil novecentos. Revisão de História Intelectual, 2010/1 (n° 28), p. 101-120., disponível em: https://www.cairn.info/revue-mil-neuf-cent-2010-1-page-101.htm.

[8] Como, por exemplo, Sara Winter, Sérgio Reis, Alan dos Santos e outros. Lembremos que Bolsonaro goza, como presidente, de certo nível de imunidade.

[9] No caso, os níveis de excitação dos sujeitos podem vir a sobrepujar seus impulsos de autopreservação.

[10] FROMM, Erich. Anatomia da destrutividade humana. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1970, p. 322. Ver RICCI, Rudá. Fascismo Brasileiro. Curitiba: Kotter, 2022, pp. 179-182.

[11] Evora e Guénon construíram o que comumente é conhecido como Tradicionalismo, uma vertente de extrema-direita que funde uma profunda crítica à modernidade e liberalismo com a pregação da superioridade dos valores tradicionais – honradez, respeito e hierarquia. Evora chegou a apoiar o nazismo e seguidores de suas teorias propõem a instalação do caos para acelerar a decadência da modernidade. Ver TEITELBAUM, Benjamin. Guerra pela Eternidade: o retorno do Tradicionalismo e a ascensão da direita populista. Campinas: Editora da Unicamp, 2020.

[12] Ver EMPOLI, Giuliano Da. Os Engenheiros do Caos. São Paulo: Vestígio, 2019.



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