BOLSONARISMO SEM BOLSONARO?

Capital político, narrativas de perseguição e desafios eleitorais em 2026

Ao analisar esse cenário, é fundamental considerar a disputa pela liderança da extrema direita em 2026. Quem será o representante desse espectro político? O bolsonarismo sobreviverá sem Bolsonaro?

Nos últimos anos, a extrema direita no Brasil tem desempenhado um papel central na configuração do cenário político, frequentemente “dando a linha” em questões sociais e políticas sobretudo pelo fato de ter ascendido na política institucional a partir das eleições de 2018. No entanto, esse panorama vem passando por transformações, especialmente diante do contexto atual do governo Lula, que, apesar de sua baixa popularidade, estratégias de comunicação questionáveis no primeiro ano de mandato e problemas econômicos, como o aumento do custo de alimentos, ainda exerce muita influência na dinâmica política do país. Ao analisar esse cenário, é fundamental considerar a disputa pela liderança da extrema direita em 2026. Quem será o representante desse espectro político? A questão central reside na possibilidade de o legado de Bolsonaro ser herdado por alguém de sua família, como seu filho, ou por um indivíduo que tenha sido apadrinhado por ele. Essa questão é crucial para compreender o futuro do movimento bolsonarista e sua continuidade. 

No que tange ao capital político de Bolsonaro, é importante refletir sobre o que ainda permanece de sua influência. Apesar das controvérsias e do desgaste, uma base de apoio ainda se mantém, sustentando o bolsonarismo enquanto narrativa. Essa narrativa, por sua vez, se apoia na ideia de perseguição uma estratégia discursiva que muitos utilizam para fortalecer sua posição e mobilizar seguidores. A política contemporânea muitas vezes se estrutura em torno de uma lógica de perseguição que mobiliza o imaginário de uma ameaça constante, reforçando identidades e a lógica do eu versus o outro: o inimigo que deve ser destituído. 

Nas últimas semanas, a família Bolsonaro esteve em evidência por diversos motivos: seja pela fuga de Eduardo Bolsonaro para os Estados Unidos, pela viagem de Carlos Bolsonaro com sua família para Portugal ou pelo motivo principal: as medidas restritivas impostas por decisão do ministro Alexandre de Moraes, a pedido da PGR, e foram mantidas pela Primeira Turma do Supremo. As quais, se descumpridas, podem levar à prisão do ex-presidente. Desde então, Eduardo Bolsonaro tem adotado uma narrativa de perseguição política contra sua família e como repostas têm se atrelado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump na tentativa de destituir a soberania brasileira, mobilizando assim práticas que são presentes na lógica miliciana. 

As milícias, conforme analisa Bruno Paes Manso, são grupos que operam a partir da lógica da intimidação e do controle territorial, impondo suas próprias regras e lucrando com serviços que deveriam ser públicos ou acessíveis. Segundo Paes Manso, essas organizações funcionam como “empresas da violência”, cobrando por segurança, transporte, moradia e outros serviços básicos, ao mesmo tempo, em que reprimem e silenciam qualquer forma de oposição ou organização comunitária. Essas práticas milicianas geram um ambiente de insegurança e medo para a população, que se vê obrigada a pagar por serviços essenciais sob coerção. Além disso, esse domínio territorial impede o desenvolvimento econômico e social das áreas controladas, inviabilizando o empreendedorismo, a criação de empregos e a realização de atividades produtivas, ao mesmo tempo em que consolida o poder local de líderes criminosos. 

Nesse contexto, as posturas de Jair Bolsonaro e de seu filho Eduardo Bolsonaro se tornam ainda mais preocupantes. Ambos mantêm um discurso ambíguo e muitas vezes elogioso em relação a práticas de segurança baseadas na violência e no controle territorial, práticas essas associadas historicamente ao modus operandi das milícias. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, já fez declarações defendendo o uso da força como instrumento legítimo contra adversários políticos e sociais, reforçando uma visão autoritária e excludente do papel do Estado. 

Apesar disso, parte de sua base política tenta construir uma narrativa de “perseguição política” contra Jair Bolsonaro, buscando desviar a atenção de investigações e denúncias que envolvem seu entorno político, inclusive com suspeitas de relações com milicianos no Rio de Janeiro. Essa retórica vitimista, no entanto, contrasta com a própria prática de poder da família Bolsonaro, marcada pelo apoio a agendas de endurecimento penal, pelo estímulo à militarização e pelo desprezo às instituições democráticas, tentando incansavelmente enfraquecer a democracia “estando dentro dela”. 

Jair Bolsonaro cercado por apoiadores apontando para a sua tornozeleira eletrônica

A sobreposição entre discurso político e práticas milicianas revela um projeto de poder autoritário que se apoia na lógica da violência como forma de governar, controlando territórios, intimidando opositores e impedindo o livre exercício da cidadania e isso se alinha com diretamente com os últimos acontecimentos. No âmbito internacional, ações como a comemoração da senadora Damares Alves e da deputada federal bolsonarista Bia Kicis pela revogação do visto dos ministros do STF também possuem impacto. Essas ações envolvem relações internacionais, especialmente entre Brasil e Estados Unidos, podendo influenciar a percepção do Brasil no cenário global. 

Mas voltemos a perseguição. Ao focar na teoria de Lacan, podemos compreender a narrativa de perseguição ao Bolsonaro como uma manifestação do desejo de reconhecimento. Lacan afirma que o sujeito busca no “Outro” esse reconhecimento para constituir sua identidade (Lacan, 1960). Nesse sentido, a perseguição pode ser interpretada como uma tentativa de afirmar uma posição no “Outro”, uma busca por validação ou reconhecimento que, muitas vezes, se manifesta por meio de ações ou discursos de ataque. Como Lacan explica, “o desejo do sujeito é o desejo do Outro” (Lacan, 1960), indicando que a luta por reconhecimento é fundamental na formação da subjetividade. 

Essa narrativa de perseguição também reflete uma dinâmica de identificação com o “Grande Outro”, onde o sujeito busca afirmar-se ao confrontar aquilo que representa uma ameaça ao seu reconhecimento ou à sua imagem. Safatle (2018) complementa essa análise ao afirmar que “a política contemporânea se estrutura muitas vezes em torno de uma lógica de identificação com figuras de autoridade que simbolizam o reconhecimento desejado, mesmo que de forma conflituosa ou paranoica”. Assim, a discussão lacaniana nos ajuda a compreender que esse movimento não se limita ao campo político-institucional, mas revela uma tentativa de suturar a falta constitutiva do sujeito, falta essa intensificada pela perda de capital simbólico e político. Nesse cenário, o discurso de perseguição funciona como um mecanismo de reposição identitária e de reafirmação de pertencimento, diante do risco de desintegração do lugar de autoridade anteriormente ocupado. 

Diante desse quadro, é preciso retomar a ideia de capital simbólico herdado por Jair Bolsonaro. Seu poder não se sustenta apenas nos cargos que ocupou, mas sobretudo na imagem construída junto a uma base que o reconhece como líder de um projeto antissistêmico, que se diz perseguido pelas instituições e que mobiliza afetos como ressentimento, medo e revolta. Esse capital simbólico alimentado por uma estética da virilidade, pelo messianismo antipolítico e pela conexão com redes evangélicas, militares e digitais é o que permite que, mesmo afastado formalmente da cena institucional, Bolsonaro ainda permaneça como figura de referência da extrema direita. 

O desafio para 2026 reside exatamente na possibilidade de transferência ou esvaziamento desse capital. O bolsonarismo sobreviverá sem Bolsonaro? Seu legado poderá ser encarnado por figuras como seus filhos, como Tarcísio de Freitas ou Michelle Bolsonaro? Ou veremos uma fragmentação da extrema direita em múltiplas candidaturas, sem a mesma capacidade de unificação simbólica e mobilizadora? 

Essas são questões centrais para o próximo ciclo eleitoral. O capital simbólico de Bolsonaro, embora ameaçado por investigações, restrições judiciais e pelo próprio desgaste político, ainda se mostra resiliente. A grande incógnita será a capacidade ou não de convertê-lo novamente em capital político eleitoralmente eficaz, especialmente diante de um cenário em que o bolsonarismo pode perder sua principal figura de identificação, mas ainda mantém sua estrutura de afetos, redes e estratégias de mobilização intactas. Portanto, compreender esse processo de transição entre a herança simbólica e a disputa por sua reapropriação será fundamental para analisar os rumos da extrema direita no Brasil e os contornos da democracia brasileira em 2026. 

Camila Galetti é professora do Instituto Federal de Brasília (IFB) e doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília. 

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