Bolsonaro testa sua popularidade na final da Copa América

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Bolsonaro testa sua popularidade na final da Copa América

por Rogério Lima Barbosa
12 de julho de 2019
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“É o povo vai dizer se estamos certos ou não.” Apesar da frase do presidente aparentar que pode haver uma dúvida, na verdade, ela é uma afirmação certeira. Porque os grupos que são ouvidos por Bolsonaro – militares e os grandes empresários -, dizem que ele está certo. Não é difícil conhecermos esse entendimento pela atuação dos militares caricaturados no General Eleno e seu ataque do machão que bate na mesa, e dos empresários que apóiam as manifestações a favor do presidente.

“É o povo vai dizer se estamos certos ou não.” A frase do presidente Jair Bolsonaro, aventada quanto à sua participação na final da Copa América, levanta uma dúvida pertinente ao nosso momento: à que “povo” ele se refere? Será que ele realmente se referia à etimologia da palavra de ser o conjunto de habitantes de um país, nesse caso o povo brasileiro? Fazer a pergunta é simples porque, às vezes, a resposta parece óbvia. Mas entender a pergunta e, mais importante, encontrar a resposta, pode exigir algum esforço.

O povo de um país é constituído pela interação de vários grupos sociais que interagem no mesmo território. Por serem grupos com diferentes demandas, eles se aproximam e se afastam para a formação do entendimento do que é ser o/a brasileiro/a. Isso não quer dizer que são grupos em paralelo e que não se cruzam. O sociólogo Norbert Elias já nos indicava que as relações de interdependências são naturais entre grupos e pessoas que ora estão mais próximas de um grupo e ora de outro. O que é certo dizer é que povo não é um conjunto homogêneo. Também, é certo que, quando o presidente fala de povo, ele não se direciona a toda população brasileira, mas aos grupos sociais que o acolhem como o “escolhido” ou, de acordo com os seus eleitores/as, o “mito”.

A partir da percepção de povo como a interação de grupos sociais que se vêm pertencentes a um determinado território, já conseguimos dar um passo para o entendimento da frase do presidente brasileiro. A função do presidente e de qualquer político é a de sempre falar. As pessoas querem ouvir o que o seu representante tem  a dizer pois são suas frases e argumentos que constroem a sua base eleitoral. Assim, considerando os comentários relacionados a grupos específicos que o presidente já pronunciou, seguramente, os quilombolas  que são pesados “em arrobas”, os índios que, “infelizmente não foram exterminados pela cavalaria”, os homossexuais que sabem que o presidente prefere “um filho morto em acidente que um homossexual e que filho gay se cura é na porrada!”, as mulheres que só não “merecem ser estupradas porque são feias” (por um acaso as bonitas merecem?), e as negras que não podem casar com rapazes brancos porque esses “recebem educação em casa” não fazem parte dos grupos sociais que o presidente delegou o poder de dizer, e ele aceitar, se o seu governo está certo ou não.

Se o presidente está atento em ouvir o não negro, o não índio, o não homossexual, a não mulher (feia, negra e as bonitas que merecem ser estupradas), então, ele se preocupa com o contrário disso: o homem, o branco e o hetero. Como não é possível essas pessoas estarem em um ambiente territorial sem qualquer direção, elas se organizam e se balizam por suas instituições. A importância das instituições para a organização social já era evidenciada pelo velho Durkeim que percebia a sociologia geral como a Ciência das Instituições. No entanto, a frase do presidente gera estranhamento na sua relação com as instituições brasileiras. No caso, as mesmas instituições que o livram de algumas acusações, constantemente, são provocadas pelo próprio presidente e pessoas a ele próximas. Afinal, quem não conhece a frase que o STF pode ser fechado por um cabo e um soldado? Não por acaso, as manifestações alinhadas a Bolsonaro não cansam de atacar o STF. Portanto, o presidente não dá quorum às instituições ou, pelo menos, àquelas devem respeitar a democracia.

Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante a final da Copa América 2019, entre as seleções do Brasil e Peru. Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

Em relação a democracia, que deveria ser a base de relação de qualquer país, já estamos cansados de ouvir o presidente que a ditadura matou  poucas pessoas, que ao invés de torturar, tinha que ter matado todas as pessoas que se organizavam contra o governo militar e ansiavam por uma abertura democrática. Sem contar a famigerada e vergonhosa aclamação ao militar Ustra. A preocupação do presidente em se apoiar em um representante militar, dentro da casa do povo, sinaliza para quem e com quem está as suas atenções. Outra, capciosa inferência do, a época deputado, é passar a imagem que  todo o exército era a favor da ditadura e às aberrações semelhantes ao militar Ustra eram aceitas.

O profundo trabalho realizado pelo projeto Memórias da Ditadura, alerta a mentira dessa proposta porque houve resistência dentro dos quartéis quanto ao golpe de 1964. O direcionamento do exército era criticado pelos “legalistas” e as poucas ou quase nenhuma preocupação em divulgar essas informações tem dois impactos imediatos: calam qualquer voz que pode tentar um arejamento de ideias; segundo, arrisca  apagar a realidade que a ditadura também foi movida na arena civil. As consequências dessa narrativa impactam na manutenção da eterna briga binária, e que ajuda somente quem detém o poder, do bem contra o mal.

Ainda vale a pena, para esse texto, lembrarmos que o presidente não se preocupa com os trabalhadores. Porque esses são o problema que fomenta a demasiada carga tributária sobre os empresários e, portanto, devem optar em ter mais direitos ou emprego. O presidente não se importante  em dar uma declaração destas. Chega a ser cínica em um país onde a taxa de desemprego aumenta em par e paço com a uberização da vida.

Assim, ao não negro, o não índio/a, o não homossexual, a não mulher (feia, negra e as bonitas que merecem ser estupradas) somam-se a não democracia e o não trabalhador/a. Não é o momento de argumentar se as pessoas que estão no “não” possuem consciência que o apoio ao presiente reforça a sua condição de excluído. Pelo contrário, é, simplesmente, apontar que o presidente não os tem em conta. No popular, essas pessoas “não apitam” no cotidiano do presidente. Porque quem faz isso são os empresários que, como ele, são os “heróis” do Brasil, e as forças ligadas a segurança, em específico a área militar, que contou com a participação direta do presidente para atenuar os impactos da reforma da Previdência.   Portanto, considerando os grupos pertencentes ao “não… povo” os eleitos do presidente são os brancos, homens, heterossexuais, empresários e militares. É esse pessoal que dirá para o presidente se ele está certo ou não.

Apesar da frase do presidente aparentar que pode haver uma dúvida, na verdade, ela é uma afirmação certeira. Porque os grupos que são ouvidos por Bolsonaro – militares e os grandes empresários -, dizem que ele está certo. Não é difícil conhecermos esse entendimento pela atuação dos militares caricaturados no General Eleno e seu ataque do machão que bate na mesa, e dos empresários que apóiam as manifestações a favor do presidente.

Os ouvidos e alma do presidente são dos grupos representados pelos militares e empresários. Porque, para os demais, seus ouvidos são moucos para as vaias no Maracanã, seus olhos e coração são frios diante da constatação de ter o governo eleito mais mal avaliado em início de mandato.

O contexto da frase do presidente tinha a final da Copa América e o apoio ao ministro Sérgio Moro como pano de fundo. Certamente, a esperança do presidente era ser ovacionado na final da Copa, em pleno estádio Maracanã. É impressionante como o presidente consegue apequenar os temas que chegam até ele. Nesse caso, fez de um tema extremamente delicado para o seu governo, um caso de manifestação em estádio de futebol. O seu “povo” escolhido é o que consegue comprar um ingresso de R$ 260 a R$ 890 (que representa 26% a 89% do salário mínimo). O presidente já falou que não gosta de pobre e esperava encontrar o apoio do seu povo escolhido, no Maracanã. E não conseguiu! Mesmo que a Globo continue destoando de grandes jornais internacionais, esmeirando-se para encontrar os aplausos da final da Copa América ao presidente, suas congêneres fora do Brasil não somente chamam a atenção para as vaias como não se esquivam de adjetivar Bolsonaro como extremista e fascista.

O exercício empreendido até aqui, poderia simplesmente se resumir ao conhecimento público que a base eleitoral do governo é militar. Mas caminhos curtos não ajudam a conhecer todo o cenário. E o que vivemos atualmente é o de exclusão. E o presidente não se importa em excluir todos aqueles grupos que não fazem do seu entendimento de povo, para achar os seus iguais e, assim, tentar fazer um governo dos e para os “escolhidos”.

 

Rogério Lima Barbosa é mestre e doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra – Portugal;  membro do Health, Technology and Society Research Group, Universidade de Exeter – Inglaterra; pós-doutorando PNPD/CAPES – Programa de pós-graduação em saúde da criança e da mulher – IFF/FIOCRUZ.

 

 



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