SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL

Brasil, China e a nova geografia do combate à fome e alívio da pobreza

Como transformar experiências bem-sucedidas em políticas capazes de alcançar escala? 

Em uma ordem internacional mais plural, a cooperação entre Brasil e China mostra que o deslocamento dos centros de poder também passa pela circulação de políticas públicas, pela produção de conhecimento e pela formação de novas capacidades científicas. 

As primeiras décadas do século XXI, têm sido marcadas por uma gradual reconfiguração das relações internacionais. Em 2008, no mesmo ano em que a crise financeira global expunha fragilidades no centro tradicional da economia mundial, Fareed Zakaria popularizou a expressão “the rise of the rest” para descrever a emergência de novos centros de poder econômico, político e cultural para além do núcleo tradicional das potências ocidentais. Seu argumento não anunciava simplesmente a substituição de uma ordem comandada pelo Ocidente por outra dirigida pelo chamado Sul Global. Tratava-se, antes, de perceber uma distribuição mais plural das capacidades de influência, em um mundo progressivamente definido e dirigido a partir de mais lugares e por mais atores. 

Assim, o fortalecimento dos BRICS e a crescente densidade das relações entre Brasil e China tornam esse movimento especialmente visível. Países antes situados predominantemente como receptores de normas, recursos e modelos de desenvolvimento passaram a reivindicar maior participação na definição das agendas multilaterais. Questões historicamente associadas ao desenvolvimento (fome, pobreza, segurança alimentar e nutricional, desigualdade e proteção social) também passam a ocupar novos espaços na agenda internacional, enquanto experiências produzidas fora dos centros tradicionais começam a circular como possíveis referências para outros países. 

Crédito: Ricardo Stuckert/PR

A presidência brasileira do G20, em 2024, ofereceu uma expressão concreta desse movimento. Em 18 de novembro, durante a Cúpula de Líderes realizada no Rio de Janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, uma das principais iniciativas da presidência brasileira do grupo. A proposta colocou o enfrentamento da fome e da pobreza no centro de uma arena responsável por grande parte da riqueza, da população e do comércio mundiais. Em seu discurso de lançamento, Lula apresentou a permanência da fome em um mundo capaz de produzir alimentos em abundância não como resultado inevitável da escassez, mas como problema político e social. 

Vista pela abordagem das capacidades de Amartya Sen, essa agenda pode ser compreendida em termos ainda mais amplos. A pobreza não se resume à insuficiência de renda, assim como a fome não representa apenas uma quantidade inadequada de calorias disponíveis. Ambas restringem possibilidades concretas de escolha, participação e realização de modos de vida. Combater a fome e a pobreza significa, nessa perspectiva, ampliar capacidades e liberdades substantivas. A relevância política da Aliança está justamente em aproximar essa ambição de um problema mais concreto: como transformar experiências bem-sucedidas em políticas capazes de alcançar escala? 

Sua arquitetura procura responder a essa pergunta por meio de três pilares complementares. O Pilar Nacional concentra-se nas políticas e programas implementados pelos países; o Pilar de Apoio Financeiro busca aproximar essas iniciativas dos recursos necessários à sua execução; e o Pilar de Conhecimento reúne organizações acadêmicas, centros de pesquisa e outras instituições capazes de produzir evidências, oferecer assistência técnica e favorecer o intercâmbio de experiências. A própria Aliança define como um de seus objetivos centrais mobilizar e alinhar financiamento e conhecimento para ampliar políticas públicas baseadas em evidências e lideradas pelos próprios países. 

A lógica parece simples: boas políticas necessitam de capacidade de implementação, recursos e conhecimento. Mas o terceiro elemento abre uma questão menos óbvia. Se políticas e experiências devem circular entre países, como comparar realidades tão diferentes? E, mais especificamente, o que Brasil e China podem efetivamente aprender um com o outro? 

A tradição comparativa que remonta a John Stuart Mill oferece uma resposta inicial. Em Sistema de Lógica, seus métodos de concordância e diferença partem da observação sistemática daquilo que permanece comum e daquilo que varia entre situações distintas. Comparar, portanto, não pressupõe encontrar sociedades equivalentes. É precisamente a combinação entre aproximações e diferenças que torna a comparação analiticamente produtiva. 

Brasil e China dificilmente poderiam ser tomados como casos equivalentes. Diferem-se em escala demográfica, organização política, estrutura econômica, trajetória histórica e capacidades estatais. Essas diferenças, porém, não invalidam a comparação, constituem parte dela. Os dois países compartilham, por caminhos bastante distintos, experiências relevantes de transformação social e de enfrentamento da pobreza e da fome nas últimas décadas. 

A dimensão da experiência chinesa é conhecida. Em aproximadamente quatro décadas, cerca de 800 milhões de pessoas deixaram a condição de pobreza extrema segundo a linha internacional utilizada pelo Banco Mundial, resultado que corresponde à parcela expressiva da redução mundial da pobreza extrema no período. O próprio Banco Mundial considera a velocidade e a escala desse processo historicamente sem precedentes, embora ressalte que o resultado não decorre de uma única política, mas da combinação entre crescimento econômico, transformação estrutural, infraestrutura e políticas progressivamente direcionadas aos grupos ainda vulneráveis. 

O Brasil percorreu outra trajetória. A partir dos anos 2000, consolidou uma arquitetura de proteção social e segurança alimentar e nutricional que articulou transferência de renda, alimentação escolar, valorização institucional da agricultura familiar e mecanismos de participação e coordenação pública. O país deixou o Mapa da Fome pela primeira vez em 2014, voltou a integrá-lo posteriormente e, segundo o relatório SOFI de 2025, registrou no triênio 2022-2024 prevalência de subalimentação inferior a 2,5%, retornando à condição de país fora do Mapa da Fome da FAO. 

Colocar essas trajetórias em perspectiva não significa procurar um modelo chinês a ser reproduzido pelo Brasil ou um modelo brasileiro a ser transplantado para a China. A questão é outra: quais políticas foram mobilizadas, que instituições lhes deram sustentação, como foram implementadas, quais capacidades estatais permitiram que alcançassem determinada escala e quais elementos são indissociáveis das condições históricas de cada país? É entre aquilo que converge e aquilo que resiste à transferência que se encontra uma das partes mais férteis da comparação. 

É nesse espaço que se insere o projeto Boas Práticas em Políticas Públicas de Combate à Fome e Alívio da Pobreza entre Brasil e China, desenvolvido no âmbito da cooperação entre a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). Seu propósito é identificar, sistematizar e colocar em diálogo experiências dos dois países, conectando a pesquisa acadêmica ao Pilar de Conhecimento da Aliança Global. 

Essa perspectiva comparativa esteve presente na VII Escola de Inverno do Grupo de Estudos e Pesquisas em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (GEPAD/UFRGS), dedicada ao tema Estratégias de Combate à Fome e à Pobreza: Reflexões a partir do Brasil e da China, organizada como produto das atividades do projeto. Em uma das aulas, sobre crises globais e sistemas alimentares, participaram Shenggen Fan, da China Agricultural University, e José Graziano da Silva, do Instituto Fome Zero. Mais do que simplesmente representar duas experiências nacionais, as intervenções revelaram convergências importantes sobre os desafios contemporâneos da segurança alimentar e nutricional. 

Fan destacou que a transformação dos sistemas alimentares é condição para alcançar objetivos nacionais de desenvolvimento. Seu argumento chama atenção para uma mudança de perspectiva: assegurar alimentos em quantidade suficiente já não basta, a qualidade, nutrição, saúde e sustentabilidade precisam integrar a própria noção de segurança alimentar e nutricional. Ao discutir os riscos contemporâneos, defendeu ainda que a eficiência das cadeias de abastecimento deve ser acompanhada pela construção de resiliência, inclusive mediante redundâncias capazes de reduzir a vulnerabilidade diante de choques e pelo intercâmbio de tecnologias. 

Graziano, partindo de outro percurso intelectual e institucional, chegou a preocupações próximas por outra via. “Deixar os mercados decidirem o que nós comemos não vai dar certo”, afirmou ao discutir a expansão dos alimentos ultraprocessados e a necessidade de maior capacidade regulatória do poder público. Em outro momento, ressaltou que o comércio internacional de alimentos nem sempre absorve choques: em determinadas circunstâncias, pode transmiti-los de um país a outro. A segurança alimentar e nutricional, portanto, precisa ser pensada também a partir da capacidade de resistência e adaptação dos sistemas alimentares. 

Há algo revelador nessa convergência. Partindo de sociedades, instituições e experiências distintas, Fan e Graziano deslocam a discussão para além da simples disponibilidade de alimentos. Nutrição, sustentabilidade, regulação pública, resiliência, tecnologia e governança passam a integrar um mesmo problema. As diferenças permanecem (inclusive quanto ao papel do Estado, do mercado e das formas de coordenação), mas deixam de ser obstáculos à comparação para se tornarem perguntas de pesquisa. 

O mesmo ocorre no plano internacional. Na Escola de Inverno, Fan chamou atenção para os movimentos protecionistas nos Estados Unidos e na Europa e para as possibilidades abertas por uma maior aproximação entre Brasil e China. Graziano, por sua vez, enfatizou a tradição chinesa de cooperação Sul-Sul e a necessidade de fortalecer formas multilaterais de governança para responder a problemas alimentares que ultrapassam fronteiras nacionais. Em ambos os casos, segurança alimentar e nutricional aparece ligada a uma questão maior: que instituições serão capazes de coordenar respostas coletivas em uma ordem internacional mais fragmentada? 

É nesse ponto que a discussão retorna à Aliança Global. Sua relevância talvez não esteja apenas em reunir mais uma coalizão internacional em torno de objetivos já amplamente reconhecidos. O aspecto potencialmente novo está na tentativa de criar mecanismos pelos quais políticas, financiamento e conhecimento possam circular de maneira articulada e na possibilidade de que experiências formuladas no Sul deixem de aparecer apenas como objetos de intervenção para se tornarem também fontes de aprendizado. 

O projeto Brasil-China procura materializar essa agenda em escala concreta. A aproximação entre pesquisadores dos dois países, a recepção de delegações e pesquisadores chineses, as atividades de campo, a Escola de Inverno, a produção e sistematização de textos e a construção de espaços permanentes de divulgação e intercâmbio constituem partes de um mesmo esforço. Mais do que um conjunto de produtos acadêmicos isolados, essas iniciativas ajudam a construir relações capazes de sustentar a circulação de conhecimento entre instituições brasileiras e chinesas. 

Essa dimensão merece atenção porque o sistema internacional não se transforma apenas quando muda a participação relativa dos países no PIB mundial, no comércio ou nas instituições multilaterais. Ele também se transforma quando mudam os lugares a partir dos quais problemas são formulados, experiências são reconhecidas e soluções passam a circular. 

Durante boa parte da história recente, a cooperação internacional para o desenvolvimento foi imaginada predominantemente em uma direção: conhecimento, financiamento e modelos de políticas partiam dos centros do Norte e eram adaptados às sociedades do Sul. Essa geografia não desapareceu, nem deixou de produzir assimetrias. Mas tornou-se mais complexa. China, Brasil e outros países passaram não apenas a receber políticas e conhecimentos, mas também a produzir experiências que circulam internacionalmente e a construir seus próprios espaços de cooperação. 

É nesse sentido que vale retornar a Zakaria. O “rise of the rest” não precisa ser compreendido apenas como a ascensão de novas economias ou como disputa pela redistribuição do poder entre Estados. Uma ordem internacional mais plural exige também novas capacidades de interpretar seus problemas e produzir respostas para eles. Isso significa criar instituições, redes científicas e pesquisadores capazes de operar entre diferentes contextos nacionais, traduzir experiências e reconhecer tanto aquilo que pode ser compartilhado quanto aquilo que permanece específico. 

O projeto Brasil-China não apenas observa esse processo de transformação. Em sua própria escala, participa dele. Ao aproximar experiências nacionais, formar pesquisadores, produzir conhecimento e criar canais de diálogo entre universidade e política pública, contribui para a constituição de novos circuitos de cooperação. Comparar Brasil e China, portanto, significa mais do que colocar lado a lado duas trajetórias de enfrentamento à fome e à pobreza. Significa acompanhar (e participar) da construção de uma nova geografia da produção e da circulação do conhecimento em um sistema internacional no qual as respostas para problemas globais já não precisam partir exclusivamente dos centros tradicionais de poder. 

 

Todos os autores integram o projeto “Boas Práticas em Políticas Públicas de Combate à Fome e Alívio da Pobreza entre Brasil e China” (UFRGS/MDS). 

 

Ângelo Belletti é doutorando em Sociologia (PPGS/UFRGS), Mestre em em Desenvolvimento Rural (UFRGS/PGDR), Especialista em Gestão do Agronegócio (USP/ESALQ), e Licenciado em História (IFCH/UFRGS). 

Bernardo Calheiros é graduando em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

Bruna Vanazzi é técnica em Meio Ambiente pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS-BG) e graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 

Cátia Grisa é professora nos Programas de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural (PGDR/UFRGS) e Dinâmicas Regionais e Desenvolvimento (PGDREDES/UFRGS), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento (GEPAD). 

Giuliana Cadorin é doutoranda em Sociologia Rural na China Agricultural University, mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural pela Universidade de Brasília e bacharel em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.  

Pedro Bazanelli é mestrando em Políticas de Desenvolvimento Internacional na China Agricultural University (CAU), em Pequim, e graduado Engenheiro Agrônomo pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP).  

Pedro Dias é mestrando em Social Policy & Social Management pela China Agricultural University e bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade de São Paulo (2020-2024). 

Sergio Schneider é professor de Sociologia do Desenvolvimento Rural e Estudos Alimentares na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil, e presidente eleito da IRSA (International Rural Sociology Association) para 2026-2030. 

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