“Broken Spectre” de Richard Mosse ou a impotência perante a ganância global
Broken spectre é um fenômeno de ilusão de ótica em que a pessoa vê a própria sombra gigante projetada na névoa, rodeada pelas cores do arco-íris, Mosse constrói imagens que denunciam a devastação infinita da floresta tropical com imagens em infravermelho
Excesso e grandiosidade são palavras que normalmente a crítica tem usado para descrever e comentar o trabalho que o artista irlandês Richard Mosse (Irlanda, 1980) vem realizando nos últimos anos. Em 2017, foi o vencedor do conhecido prêmio de fotografia e sustentabilidade Prix Pictet, com fotos impactantes realizadas com uma câmera de vigilância de alta tecnologia, que detecta o calor humano há 30 km de distância e, como lembra o artista, é considerada uma arma perante a lei internacional. Com essa câmera ele registrou o cotidiano de refugiados no Oriente Médio e norte da África dando ênfase e expondo ao mundo a imensa crise migratória dos últimos tempos.
Com Broken Spectre (2018-2022, 74 min.), vídeo-instalação (chamarei de filme/documentário), Mosse dá continuidade à sua “missão” de pôr em evidência catástrofes ambientais e humanitárias apresentando imagens em grande escala acompanhadas de música marcante. A trilha sonora, vale lembrar, é produzida pelo músico e compositor australiano Ben Frost e, assim como as imagens, nos intriga e conduz do exterior ao interior da Amazônia ganhando relevo, incomodando, causando dor aos ouvidos das pessoas mais sensíveis, que são permitidas sair da sala antes que o filme acabe, visto que o volume ultrapassa 80 db.
A música é dramática, às vezes, confunde-se com o som da motosserra que é usada em várias cenas que registram a derrubada de árvores centenárias. Nesse sentido, pode-se dizer que a música é a tradução da fúria, do desespero. É o eco abstrato de uma comunicação que busca maneiras diversas de se fazer ouvir, apesar dos ruídos que camuflam o que está acontecendo com/na floresta.
As imagens, desde o início do filme, são elaboradas com técnicas diversas que são alternadas, características encontradas em outros trabalhos de Mosse: ora vemos imagens filmadas em infravermelho, imagens de satélite, ora close-ups em preto e branco vão surgindo na tela panorâmica, cerca de 20 metros. Impossível não ser impactados pela grandiosidade dessas imagens que lembram as fotografias de Sebatião Salgado, só que em dimensões muito maiores.
As preocupações ambientais e humanitárias que atravessam Broken Spectre, leva-nos até o documentário de outros dois artistas brasileiros: Chico Faganello e Dauro Veras. Refiro-me a Espírito de Porco, 2009, HD, 52min., que foi realizado nas cidades de Seara e Concórida, Oeste do Estado de Santa Catarina, Sul do Brasil. Região cujo desenvolvimento se deu pela suinocultura e que, atualmente, pode ser considerada o maior laboratório vivo que tenta encontrar o equilíbrio entre os danos causados ao meio ambiente e as políticas sustentáveis, tal como, o documentário apresentava há quase vinte anos atrás.
Ao contrário do que observamos em Broken Spectre, em Espírito de porco o maior impacto não está relacionado ao visual ou relacionado à tecnologia na criação de imagens ou às grandes dimensões. O impacto está relacionado à simplicidade das cenas, ao humor e à ironia refinada que conectam o cinema à literatura para falar de contradições e problemas ambientais relacionados à criação industrial de suínos. Tais características já estão anunciadas no título, que é uma expressão popular bem conhecida no Brasil, tal como enfatiza Caroline Pompeo em “Saiba a origem e o significado de ditados e expressões”, texto que está disponível no jornal Gazeta do Povo. Neste texto, há uma compilação de expressões populares e dentre elas está a expressão “espírito de porco”, que “designa uma pessoa inconveniente, atrapalhada, incômoda.” E é destacado ainda que “no Brasil Colônia, os escravos faziam todo tipo de trabalho, mas tinham verdadeiro pavor de abater porcos. A crença dizia que os espíritos suínos atormentavam seus algozes durante a noite.” (Carolina Pompeo, Gazeta do Povo, 06/06/2015) No documentário o protagonista reclama e dá alguns exemplos relacionados à essa expressão: “existe quem me veja como imunda encarnação do mal. Superstição e ignorância não farão parte desta história, […]”. Mas, continua demonstrando como é insultado pelos humanos: “Os humanos tratam o nome porco de maneira rude. Se entre vocês há os que acumulam riquezas à custa do esforço alheio, são os porcos capitalistas. Se batem nas fêmeas, são os porcos chauvinistas. Há os que comem como um porco. Para esses, a miséria é porca.”
Além disso, vale ressaltar que o protagonista de Espírito de Porco é um porco-defunto que narra sua própria história, à la Machado de Assis. Há muitas camadas eruditas e criativas neste documentário que nos convidam a refletir, a tocar e a compreender questões difíceis relacionadas ao desenvolvimento industrial da suinocultura e a preservação do meio ambiente na região que contém “uma das maiores concentrações [de porcos] do mundo”.
Em Broken Spectre o olhar aéreo, de cima para baixo, não é casual e, assim como em Espírito de Porco, está relacionado à expressão que nomeia o filme. Broken spectre é um fenômeno de ilusão de ótica em que a pessoa vê a própria sombra gigante projetada na névoa, rodeada pelas cores do arcoíris. No entanto, mais que apresentar a projeção de uma imagem gloriosa que, normalmente, é vista por um piloto de avião, Mosse constrói imagens que denunciam a devastação infinita da floresta tropical com imagens em infravermelho. Em outros momentos, contemplamos a imensidão das pastagens dedicadas à criação de gado e ficamos perplexos com a quantidade de animais existente na paisagem que, aos poucos, transforma-se em uma “massa” aglomerada de bois sendo encaminhados para o abate.
No documentário de Mosse, mesmo observando de cima, se sente o fogo queimando nas imagens abstratas que apreendem o olhar e o fixam à tela gigantesca. Com a mesma qualidade imagética somos introduzidos, inseridos no interior desta grande imagem devastada que revela a ferida aberta da floresta: minas, frigoríficos, queimadas. Já no documentário de Faganello e Veras somos introduzidos na história por um olhar curioso, de baixo para cima, acompanhado pela música que funciona como pano de fundo, que também é assinada por Chico Faganello. Estamos diantes de close ups que apresentam fragmentos: os pés do porco, a lama, o esgoto e os vermes que lembram, não por acaso, a epígrafe do livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estás memórias”. Na sequência, uma imagem panorâmica apresenta a paisagem em vários planos que nos ajudam a adentrar à geografia acidentada do Oeste de Santa Catarina.

Em Espírito de Porco, a reflexão e o registro sobre o que está acontecendo na região é feita sutilmente e, como já foi mencionado anteriormente, o tom irônico e cômico dá uma leveza ao documentário, que é narrado, maravilhosamente, por Renato Antunes, como pode ser conferido na passagem em que a mãe do protagonista nos é apresentada: “uma reprodutora F1, filha de um macho de raça Pietran e de uma porca Large White.” Conclui a apresentação dizendo que “os porcos são números, vivem no mundo de números”. Ou seja, estão “desumanizados”, não carregam mais os nomes dóceis da infância de antigamente. E as reflexões exitenciais continuam: “Mas, para que nós servimos?” Ao longo deste documentário, além deste protagonista que segue entrevistando os humanos, instigando-os a refletir sobre o paradoxo vivido, há fragmentos de textos que, lembram títulos de capítulos de um livro que nos guiam: “Onde o homem se emporcalha, o porco se humaniza”. Há muitos outros pontos que merecem nossa atenção. Por isso, vale a pena assistir este documentário (está disponível na íntegra no YouTube) que também pode ser lido como se fosse um livro autobiográfico de um porco que retorna para resgatar sua dignidade.
Voltando a Broken Spectre, quero enfatizar que a beleza cinematográfica e tecnológica impera e é, sem dúvida, impecável. E é neste ponto que nos deparamos com o que chamarei simplesmente de retomada da brutalidade, que também está presente em O Espírito de Porco. A palavra brutalidade tem suas raízes no latim brutus e, no passado, estava relacionada à irracionalidade, ao peso das feras, dos animais. No entanto, com a evolução fonética passa a ser uma característica atribuída também aos humanos. Novamente, o que se observa é que a brutalidade que está normatizada e normalizada, revela, também, a apatia desses mesmos humanos, que somos todos nós, que observamos e somos observados, como diria Geroges Didi-Huberman, sem reação e, neste caso, sem força, exaustos, impotentes diante do horror que tende a aumentar e a apresentar outras faces.
Além das imagens e da música impactantes, há outra voz que surge, quase no final do filme, a de uma mulher que está rodeada por outras pessoas, dentre elas algumas mulheres grávidas. É bom sublinhar que é uma mulher indígena que, no mesmo tom da música, projeta sua voz na língua de seus ancentrais, que podemos acompanhar pela tradução disponibilizada na legenda. Ela denuncia o ataque violento realizado anteriormente à sua comunidade. Pede socorro e suplica aos espectadores que não transformem sua dor em simples espetáculo, como ela mesma está cansada de ver.
Eis mais um momento em que temos a confirmação de que a brutalidade se repete; de que a violência sofrida pelos povos indígenas anteriores ainda está presente e segue em processo… Portanto, é importante sublinhar a importância desta cena, pois é a voz dessa mulher indígena, desesperada, que denuncia as atrocidades do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro ao mundo. É esta voz que ganha relevo e visibilidade e, assim ressurge, retirando o fôlego do espectador, não pela denúncia em si, mas pela consciência de sua fragilidade diante da brutalidade humana, sem fim. É a voz dessa mulher que foi calada há mais que “quatro séculos” que ressurge potente e imensa no presente. Neste momento, a grandiosidade tecnológica se rende à força desta mulher fazendo sentido, ajudando a ampliar esta e outras vozes que foram silenciadas.
Por isso, Richard Mosse, assim como Chico Faganello e Dauro Veras, é certeiro em suas escolhas. Mosse usa sua experiência como correspondente de guerra, que foi no passado, para tocar nesta feriada aberta que é a exploração contínua que acontece na floresta tropical; Chico Faganello e Dauro Veras também trazem o olhar investigador do jornalismo. Todos apresentam um olhar empático com toda a população: pessoas, animais e plantas que são afetados pela ganância global.
Broken Spectre faz parte do programa dedicado à arte contemporânea chamado Annex, que desde 2019 convida artistas para apresentar uma perspectiva original sobre o tema da exposição em andamento nas galeiras anteriores do museu Central de Utrecht. Desse modo, o expectador que senta para assitir ao filme/documentário já percorreu a exposicão “Geteken, de Naturr” | “Assinado pela Natureza”, que nos convida a refletir sobre como a relação entre a natureza e humanidade tem mudado dramaticamente ao longo de quatro séculos.
Paineis verdes com textos explicativos apresentam perguntas em tom filosófico que guiam os leitores/obsevadores ao longo da exposição: “A humanidade está sujeita a forças maiores do que ela mesma? Ela pode dominar a natureza? Ou é uma parte inseparável de toda a vida na Terra e, portanto, deve ouvir o que a natureza tem a dizer?”
As imagens apresentadas nesta exposição são em sua maioria desenhos ou gravuras, além de objetos e um filme do artista brasileiro Jonathas de Andrade: O peixe, 2016. Ao adentrarmos às primeiras galerias somos apresentados às paisagens, em sua maioria, vazias, poucas árvores e algumas pessoas, que registram os arredores e a cidade de Utrecht há uns quatrocentos anos. Mais ou menos uns 100 desenhos e gravuras que fazem parte da grande coleção de paisagens de Munnicks van Cleeff, que ficou conhecida como “Atlas de Munnicks van Cleeff”, é o tema central da exposição.
Para dialogar com essas paisagens há, também, trabalhos de artistas modernos como Piet Mondrian, Charley Toorop e contemporâneos Peter Vos, Anne Geene, Raquel Maulwurf. Além de algumas pinturas da própria coleção do museu que nunca haviam sido exibidas anteriormente: “Portrait of a Girl on Her Deathbed”, de Niwael e “Pink Mirage”, de Ben Sledsens.
Esta exposição que nos leva a um ponto específico no passado da cidade de Utrecht vai, aos poucos, mostrado a necessidade de diálogo, de se repensar o presente com o aprendizado adquirido, com as experiências catastróficas já conhecidas. Por isso, diferentes momentos da história da arte nos são apresentados, para enfatizar a relação de nós humanos com a natureza, para relembrar momentos de medo, momentos de dominação, momentos de fúria que nos conectam e, por sua vez, chegam ao auge com Broken Spectre, que suspende o momento prensente. Momento esse de aflição diante da extrema exploração não somente da natureza pelo homem, mas do homem por ele mesmo. A única certeza que se tem quando o filme acaba é que não podemos ficar paralizados, é necessário fazer algo imediantamente, já!
Broken spectre, de Richard Mosse, está em exibição, pela primeira vez na Holanda, no Museu Central de Utercht até 29 de março de 2026.
Maria Salete Borba (Nena Borba) é artista visual, professora de desenho e doutora em Literatura. Dedica-se aos estudos da relação entre texto e imagem, campo no qual organizou os livros “Contatos e Contágios: Escrituras Sobre Valêncio Xavier” e “100 anos em 100 filmes: escritos sobre cinema”. Em sua produção artística, realizou exposições e mantém uma escrita constante sobre as conexões entre literatura e outras linguagens artísticas.

