Caldo de arte e cultura que entorna da Amazônia

FESTIVAL ATÉ O TUCUPI

Caldo de arte e cultura que entorna da Amazônia

por Steffanie Schmidt
5 de agosto de 2022
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Protagonizado por artistas periféricos, Festival “Até o Tucupi” promove ocupação da capital amazonense com arte e cultura

Os vários círculos riscados de giz na lona preta estendida na praça, em frente ao Teatro Amazonas, estão delimitados: casa, escola, religião, amigos, universidade. São os diversos espaços de vivência experimentados por uma pessoa desde o nascimento. Na tarde de 25 de julho, Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, a história contada no espetáculo de palhaçaria feminina “Preciso Falar” demonstra que, para os corpos periféricos, essa espacialidade é regulada por marcadores eurocêntricos que determinam quem está dentro e quem pode fingir se encaixar.

O recado da artista Daniely Lima é claro: as vozes que, como ela, emergem em diversas frentes, não estão ali para se adaptar, mas para desfazer, desabituar o processo de apagamento dos que reivindicam um espaço que lhe é próprio, uma proposta que vem sendo encabeçada pelo Festival Até o Tucupi há 15 anos em Manaus.

Espetáculo “Preciso falar” da artista Daniely Lima durante o Festival Até o Tucupi, em Manaus. (Foto: Alonso Júnior)

Na capital que detém o maior PIB das regiões Norte/Nordeste, e é o oitavo maior do Brasil, da ordem de R$ 85 bilhões, o orçamento para a Fundação Municipal de Cultura, que divide espaço com o Turismo, é de R$ 33,6 milhões para 2022, ou seja, 0,5% do orçamento total da prefeitura, de R$ 6,3 bilhões.

“Quando você é jovem e periférico, percebe que arte não é para você: não há acesso a cursos, qualificação, a informação não chega. Você acaba refém de personagem de festa, onde o papel principal é da princesa, que segue padrão branco, europeu, enquanto a mulher negra fica encarregada do entretenimento das crianças, recebendo menos”, explica a atriz.

Conversa “Mulheres negras movem o Amazonas: direitos, vitórias e o futuro com nós!”

 

A decisão de contar sua história por meio da palhaça Lola, veio da reflexão sobre as situações de exclusão vivenciadas por ela, graduada em Artes Cênicas pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), uma exceção que ela percebeu logo de cara, pela falta de representatividade no âmbito acadêmico.

A partir dessa percepção, decidiu voltar sua pesquisa sobre palhaçaria para o recorte de gênero e raça, hoje em continuidade no programa de Pós-Graduação em Sociedade e Cultura da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). “Como a maioria dos jovens negros, eu não acreditava que poderia chegar a cursar uma faculdade. Somos cobrados a seguir uma carreira que mantenha nossa sobrevivência, que normalmente é trabalhar para alguém”.

Esse sentimento é partilhado pela promotora de Justiça, Karla Cristina da Silva Sousa, uma das convidadas para a roda de conversa “Mulheres negras movem o Amazonas: direitos, vitórias e o futuro com nós!”, que integrou a programação deste ano do festival.

“A impressão é de que a arte não nos diz respeito, de que ela não é para a gente, de que não podemos crescer por essa via porque precisamos primeiro nos estabelecer socialmente. E, mesmo depois disso, continuar passando pelas mesmas questões”. Durante a conversa, Karla Cristina contou que somente se reconheceu como mulher negra depois de se tornar promotora, ao não se reconhecer nas práticas de um espaço marcado pelo conhecimento europeu. A realidade está presente, inclusive, nos processos: 62% das vítimas de feminicídio são mulheres negras, retintas, mulatas, pardas, segundo a promotora. “A gente percebe que quando se ocupa um espaço como este é uma conquista coletiva: de mães, tias, avós, daquelas que lutaram antes de nós. Ser uma mulher negra não é só sobre você é sobre impactar vidas, mulheres, crianças; é preciso fomentar o sonho dos que vêm depois”, afirmou.

O impacto da pandemia de Covid-19 tornou a realidade do marcador social evidente, principalmente no âmbito cultural. Produtora cultural e ativista do segmento, Michele Andrews lembra que foi preciso brigar pela criação de projetos que garantissem alguma remuneração para os trabalhadores da Cultura, área periférica dentro das políticas públicas e onde os negros são, também, os mais atingidos. “Estamos o tempo todo criando espaços, escrevendo projetos para que cada vez mais corpos negros ocupem a cidade como um local político”, afirmou. “Vejo o festival como essa ferramenta. Precisamos ficar reafirmando isso sempre”.

Andrews é uma das fundadoras do Coletivo Difusão, que promove o Festival Até o Tucupi dentro dessa perspectiva desde 2007.  O intercâmbio entre regiões e as bandeiras antirracista, de visibilidade Lgbtqia+, igualdade de gênero e emergência climática foram pautas constantes nas edições ao longo dos 15 anos de realização ininterrupta e gratuita.

Mais de 58 mil pessoas participaram das atividades ao longo dessa trajetória. Foram realizados 244 shows, mais de 90 atividades de formação com mais de 2.400 profissionais participantes. Entre performances, espetáculos de teatro, de dança, exposições, exibições de cinema, entre outros foram 150 atividades. Ao todo, mais de 900 profissionais técnicos já trabalharam na realização do Festival.

 

Emergência Climática

O canto indígena que ecoa no centro de Manaus pede licença e bênçãos para o início do painel “Diante do fim do mundo: arte, ciência e emergência climática”, um debate com mulheres indígenas e afro-ameríndias, realizado em cima do maior cemitério indígena da cidade, o Sítio Manaus, local conhecido como marco inicial da capital amazonense e onde está o Museu da Cidade. No local, estão expostos vestígios de existência milenar de povos originários por meio de remanescentes arqueológicos encontrados durante a reforma do prédio, em 2004. A atividade foi organizada pelo Coletivo Proteja.

O encontro, uma das atividades do Festival Até o Tucupi, acontece em frente ao Centro de Medicina Indígena Bahserikowi’i, um projeto voltado ao fortalecimento da identidade étnica, cultural e da organização social dos povos originários, que funciona há seis anos em uma casa histórica localizada na Rua Bernardo Ramos, na lateral do museu.

Painel “Diante do fim do mundo: Culturas, Ciências e Emergências Climáticas”. Foto: Alonso Júnior.

 

“Nós temos um olhar ocidental sobre o que é a arte. Eu não me reconheço nas artes que são colocadas como cultura nesses espaços da arte. Para gente, este ato representa também mudar essa perspectiva do que é arte, do que é cultura porque a nossa existência se dá a partir desses conceitos sem que a gente se reconheça nesses espaços como museus ou grandes óperas”, afirma Vanda Witoto, primeira amazonense vacinada e liderança do Parque das Tribos, comunidade que abriga várias etnias em território urbano.

Ela lembra que o modo de ser povos indígenas é a própria cultura, uma vez que não está dissociado com o que se produz, com o que se cria, com tudo o que se consome. “Então, neste momento, pensar as mudanças climáticas a partir desse modo de vida dos povos indígenas é a possibilidade de continuar a existência de um futuro mais humano para todos, onde a gente se reconheça enquanto natureza, enquanto floresta, enquanto rio, enquanto terra e território. Nós essa floresta que precisa estar conectada com a produção com todo um modo de pensar e ser no mundo”.

A espiritualidade indígena tem feito um chamado para todos há muito tempo. É o que alerta Carla Fernandes Dessana, que vive na capital há onze anos e trabalha no Centro de Medicina Indígena. O objetivo do espaço é mostrar que o conhecimento indígena também é válido. “Temos formas de tratar e ver a doença diferente do povo branco. As mudanças que vão interferir no clima têm que começar por nós. Nós estamos doentes, separados da natureza. Meu pai diz que somente um corpo cura outro corpo”.

Filha de Durvalino Fernandes Dessana, um dos kumuã – pajés – que atendem no Centro de Medicina, Carla conta que todos os elementos da natureza como a água, a terra, o ar, a floresta são protegidos por um ser responsável que não é mais respeitado. “Antigamente pediam permissão, estabeleciam um limite para plantar. Hoje o homem vai derrubando tudo, não tem respeito pelos donos da floresta e isto é o que está nos trazendo doenças”, conta.

Carla Dessana durante atividade do painel “Diante do Fim do Mundo”. (Foto: Alonso Júnior)

 

Essa realidade já traz consequências diretas para a alimentação dos povos indígenas. A alteração dos períodos de vazante e cheia dos rios, segundo Carla Fernandes Dessana, vem interferindo na produção de roça dos povos do Alto Rio Negro, uma comunicação com a natureza que está sendo alterada. Ela afirma que não se consegue mais saber quando é tempo de plantar porque os rios estão cheios por mais tempo e em elevações cada vez mais extremas. “As questões climáticas estão relacionadas com o desenraizamento cultural. Não tem como falarmos disso sem tocar nos processos de colonização. O capitalismo faz um processo de ruptura total é como se planeta não fosse parte de nós, mas um produto para ser explorado”, afirma Marklize Siqueira, assistente social, mestre em Sociologia e ativista feminista.

Ela lembra que a pandemia demonstrou a falta de preparo do Estado para atuar em questões emergenciais. Além disso, ela denuncia a prática da “indústria dos desastres naturais”, alimentada pelo poder público que opera em “caráter emergencial” todos os anos, a exemplo do período de cheia, que permite mexer no orçamento público sem justificativas.  “Esses temas não estão dissociados das vivências de cada um. A grande beleza do festival é conseguir fazer uma imersão na cultura da cidade, trazendo para dentro deste espaço sujeitos protagonistas que fazem essa cultura para que tenham direito a voz, para falar de suas experiências e de questões emergenciais da sociedade. Precisamos multiplicar isso, isso precisa fazer parte do cotidiano da cidade”, afirma Siqueira.

“O festival é uma expressão de arte e não tem como falar disso sem falar dos povos indígenas. A gente sempre tem que trazer essa expressão da nossa cultura e da nossa identidade para o centro dos debates”, afirma a ativista indígena Sâmela Sateré, responsável pela mediação do painel. O Amazonas abriga a maior população originária do Brasil com 168.700 pessoas, segundo último censo, de 2010.

 

Efervescente como um caldo quente

Tucupi é um caldo que se toma quente, principalmente na Amazônia, onde o calor e a umidade são o tempero do modus vivendi que transparece na moda, na música, na gastronomia. Uma cena diversa sempre esteve viva, circulando fora dos espaços mainstream encontrados nos folhetos turísticos, uma cena que chamou a atenção do Coletivo Difusão, grupo criado em dezembro de 2006 a partir dessa vivência por um grupo de jovens que atuava no setor cultural independente da cidade.

Foi assim que em abril de 2007 nasceu a primeira edição do Festival Até o Tucupi, uma plataforma pensada para servir de espaço de circulação, difusão e trocas entre artistas de expressões artísticas periféricas de Manaus. Ao longo de 15 anos, a programação é pautada por demarcadores como identidade de gênero, raça, etnia e geo localização.

É o único festival de artes integradas independente voltado para valorização das artes, hoje, um ponto chave na cidade para escoamento de produções artísticas e para a troca de tecnologias que visam a transformação social da cidade através da Cultura.

“A cena contemporânea da cultura no contexto amazônico traz movimentos muito diversos como o da palhaçaria feminina, hip hop, teatro indígena, todos em diálogo com a arte. Os festivais é que estão reverberando essas vozes, que ganham mais força na última década, quando ainda vinha tímidas diante de uma soberania eurocêntrica”, afirma o artista–antropólogo Luiz David Vieira Gonçalves, professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA).

Como pesquisador e professor, ele vem acompanhando esse processo de reconexão com a própria identidade, dialogando com novas estéticas, que não conseguem ser acompanhadas pelas políticas públicas. “As mídias digitais foram um instrumento importante de flexibilização e de rompimento de fronteiras geográficas, amplificando realidades e momentos que se conectam ao mundo global. Há uma velocidade de criatividade, uma fome de produzir, algo intenso que o poder público não acompanha e que poderia incentivar promovendo esses intercâmbios de forma mais constante”.

Em 2007, a primeira edição do festival trouxe um line-up marcado pela cena hip hop que despontava em Manaus. Quinze anos depois, essa cena volta aos palcos do festival com a força das mais de 50 rodas de batalha de rima espalhadas pela cidade e a ponte com a cena nacional e regional: artistas locais como Lary Go & Strela e Kurt Sutil têm o mesmo engajamento que a rapper paraense Nic Dias e a multiartista trans, Jup do Bairro. A prova social é o coro que entoou todas as letras durante o show de encerramento, no último dia 30, na área externa do prédio do Palacete Provincial, centro de Manaus.

A MC Anna Suav, produtora audiovisual e cultural, é um reflexo do intercâmbio e fortalecimento da cena alternativa amazônida. Nascida em Manaus, ela iniciou a carreira em Belém (PA), hoje sua arte está consolidada entre as duas cidades.

O rapper manauara Kurt Sutil iniciou a caminhada no rap nessa mesma época, a partir das batalhas que acontecem no bairro Tancredo Neves, Zona Leste de Manaus. Considerado uma das expressões mais autênticas da cena, por conta das letras flow e líricas diferenciadas, ele retrata questões ligadas à violência policial, saúde mental, amor, controle pela religião, que transparecem também na estética visual de seus trabalhos como videomaker. “É muito difícil para gente conseguir cantar com uma estrutura dessas, onde somos tratados muito bem, uma coisa que não é muito comum”, afirma Sutil.

Com uma caixa de som antiga e sem muito alcance, a batalha do BK – Brooklin de Manaus – acontece todas as sextas-feiras, a partir das 19h, na Praça Paulo Jacob, localizada na av. 7 de Setembro, em frente à sede da Secretaria de Estado de Cultura (SEC). A roda de disputa de rimas é mais representativa da cidade, reunindo MCs de todas as zonas. Desde o final de 2017, ela acontece de forma independente, tocada por um grupo pessoas que atuam na cena.

Yan Saffa é um dos organizadores. Ele atua como Mestre de Cerimônia oficial da batalha e conduz as disputas há cinco anos, além de ser compositor. No último dia 27.07, foi o responsável por apresentar a Batalha Lado Norte, edição especial realizada no bairro Cidade Nova, Zona Norte da cidade, dentro da programação do Festival Até o Tucupi.

Em um dia de jogo do Flamengo, vários moradores pararam para assistir a cena. “Não costumo ouvir esse som, mas a gente acha interessante. É uma oportunidade para nós que não temos nada por aqui. A gente sente falta dessas coisas”, afirma Dione da Silva, 46, que todas as noites leva filha de três anos para brincar no local.

Uma família do município de Barreirinha – a 330 quilômetros de Manaus – também participou do evento pela primeira vez. A noite marcou ainda a estreia de Thiago Luiz Nogueira dos Santos, 18, que ficou sabendo nas batalhas. Ele recebeu a divulgação de um amigo, pelo WhatsApp e foi a pé para poder participar. Conseguiu ajuda dos próprios amigos MCs para se inscrever.

O contato com o universo rap veio de família: o pai coleciona discos da época em que também rimava, ainda nos anos 80. Ana Vitória, 19, chegou ao mundo do rap pela mesma origem: o pai dançava break e costumava ouvir rap. Aos 12 anos ela despertou para o mundo das rimas e não parou mais. Hoje, a Jogadora MC, como é conhecida, é uma das presenças constantes na Batalha das Minas, realizada no BK. “O festival ajuda a mostrar que temos vários talentos rappers na cidade, que a nossa cultura é linda além do Boi Bumbá”, afirma.

Enxergar essa realidade além do tradicional passa pela dificuldade logística para quem faz música na Amazônia. Esse foi um dos obstáculos observados pela produtora cultura Fernanda Martucci, da Agência de talentos Let’s GIG, de São Carlos (SP). Convidada para ministrar oficina e atendimento de artistas selecionados para a imersão “Gestão de Carreira: juntando as peças”, durante o Festival Até o Tucupi, ela ressalta que essa dinâmica fica ainda mais difícil para iniciativas independentes, que contam com recurso próprio sem nada que ajude a equilibrar esse custo.

“Quando se fala de Amazônia, a gente entende que há uma dificuldade logística das circulações que façam com o que cenário cultural tenha uma dificuldade maior. Estar fora de um grande centro impacta na distribuição do que é produzido. Fazemos essa analogia por estarmos sediados no interior de São Paulo e, não me lembro de ter visto nenhuma banda do Amazonas em eventos por lá”, explica.

No entanto, Fernanda destaca que justamente por isso, esse é um lugar com potências criativas, uma cultura rica que cria força própria para acabar vencendo as barreiras. “Os festivais têm esse efeito de, ao proporcionar o intercâmbio, nos torna agentes multiplicadores que acaba divulgando o um pouco dessa realidade em outros locais”, completou.

“O painel foi pensado para que a Agência dialogasse sobre a experiência deles junto ao agenciamento de artistas que já estão no eixo SP-Rio, mas também promovesse a intersecção com a realidade da Amazônia, que é transpassado por temas como mulheres negras, emergências climáticas, Lgbtqia+. No fundo, a gente monta palco pra falar de política”, aponta Elisa Maia, uma das coordenadoras do Até o Tucupi.

 

Quem não performa não é visto

Recente na cena manauara, a cultura ballroom começou em 2019 na capital amazonense com alguns artistas que em contato com o cenário nacional, promovem os primeiros eventos do estilo voguing em 2020, estilo de dança criado nos anos 1960 que se popularizou na década de 1980 em Nova York, a partir do movimento ballroom, expressão da cena LGBTQIA+ negra e latina da época. Os bailes promovidos por coletivos que se identificam como houses, espaços de acolhimento entre os membros, são o palco da performance autêntica e de disputas “baseadas no amor”, como define Ísis Matagal, membro da House Matagal, que promoveu o evento “Bumba Meu Vogue”, dentro da programação do Festival Até o Tucupi.

Poses abstratas, que remetem ao desfile das modelos da Vogue, flexibilidade e movimentos fluídos combinados a gestos precisos dos braços em formas geométricas marcam as apresentações.

 

Categoria porta-estandarte durante a disputa “Bumba Meu Vogue”. Foto: Alonso Júnior.

 

Categorias temáticas de disputa de performance como face, runway e best dressed ganharam temas regionais como “boto e yara”, porta estandarte de boi-bumbá e Uirapuru para demonstração de criação e moda e evolução.

“A cena se formou a partir de grupos de pessoas trans, LGTB que se encontrava nas praças e precisava de um espaço seguro para se manifestar artisticamente. Hoje, minha casa é o espaço de ensaios, de trocas, de conversas e aconselhamentos. A partir dessa criatividade é que montamos nossa apresentação”, afirma Xuri La Plata, 22, mother da House of La Plata, responsável pelo acolhimento de outros membros. O figurino e a performance da casa foi a vencedora da categoria Uirapuru.

Simas Zion, 22, foi um dos precursores da cena, ganhou as duas outras categorias. Estudante de Dança na Universidade do Estado do Amazonas (UEA), já trabalhou em aberturas de shows de drags brasileiras como Pabllo Vittar, Lia Clark e Aretuza Lovi. Começou seus estudos sobre a cultura Ballroom/voguing em 2016, acompanhando a cena brasileira.

Zion é reconhecido pelo estilo e influência na cena. O ritmo é frenético: ele se apresenta, auxilia os demais, posta nas mídias digitais e comenta. É o administrador do perfil oficial @ballroom.mao, que divulga os eventos da cidade.

Autoafirmação e cuidado mútuo são as marcas evidentes da cultura ballroom. Ao final do baile, que acontece no meio da noite, todos se ajudam a organizar o espaço – uma vez que nem todas as casas noturnas aceitam receber esse tipo de evento – e vão embora juntos. Por uma questão de segurança e de apoio coletivo.

O desafio de encontrar espaços seguros é o mesmo para a nascente cena grime, gênero de música surgiu na periferia de Londres (Inglaterra), no início da década de 2000, mesclando batidas do hip hop e música eletrônica. A sonoridade chamou a atenção da administradora de empresas Yasmin Feitosa, e do designer, artista visual e DJ Saulo, criadores da marca de roupa @cepecompany, uma referência ao bairro Compensa, localizado na zona centro-oeste de Manaus.

“Começamos a promover o evento Toca do Rato para divulgar nossa marca, mas já estamos na quarta edição. Foi criando vida própria porque criamos um espaço de música eletrônica que não segue os padrões branco-europeu, além de nos preocuparmos em fazer um rolê acessível para a galera que já enfrenta várias dificuldades e custos para sair na night”, explica Yasmin.

A estética do evento e das roupas valorizam e exaltam a cultura de favela. “A gente sabe que a cor da pele influencia, então criamos um conceito traduz a autoestima de quem é da periferia”, afirma Saulo.

Com a proposta de promover o questionamento sobre o que é arte fora do circuito de debates, o artista Odacy Silva, 48, se vestiu de argila branca para a performance “Suspenso”, contemplada pelo edital do Festival Até o Tucupi. Dependurado em uma das pontes do Igarapé do Passarinho, localizado na Zona Norte da cidade, o curso d’água tem as margens tomadas pelo lixo.  O local foi escolhido por ele pela memória afetiva que carrega, uma lembrança de banho tomado nas águas límpidas, durante a infância.

“A cidade estava crescendo para esta região e já era previsível que este pedaço de água iria se perder”, conta. Durante mais de uma hora, a apresentação de Odacy chama a atenção de quem passa: carregadores de sucata, motoqueiros, motorista, passageiros à espera do ônibus, vizinhança.  Kaysson Mendes da Silva, 15, gravou quase toda a performance. “Nunca tinha visto nada igual, nem no circo” É muita força, equilíbrio e concentração”.

Franciedson Monteiro de Assis, 48, morador do local, correu para perto porque pensou que se tratava de suicídio. O local que remete à morte, ganhava uma homenagem baseada na vida.

O corpo que bailava no ar provocou a comentário de quem criticou a apresentação. “Não gosto disso, não gosto de arte, nem de filme, música, nada, só assisto novela”, afirmou uma moradora que não quis se identificar. Atenta, acompanhou os movimentos do artista quase até o final.

“A arte tem esse poder, te leva para locais maiores, nunca antes sentidos ou experimentados”, afirmou Odacy Silva.

 

Festivais Independentes

Com 11 atrações na Mostra de Música em sua edição de 15 anos, o Festival Até o Tucupi trouxe uma seleção que foi do rap e do queer rap de Lua Negra, à música de beiradão contemporânea de Mady e Seus Namorados, passando pela sonoridade Folk experimental regional de Dan Stump e Um Trevo, além da banda instrumental Jacintas.

MC Anna Suav no palco do Festival Até o Tucupi. Foto: Leo Leão.

 

“O festival acaba refletindo esses espaços, a curadoria tem essa preocupação de criar espaços para que o público possa ver o que está rolando nos movimentos da cidade”, afirma Elisa Maia, cantora e produtora cultural, uma das organizadoras do Festival Até o Tucupi e membro do Coletivo Difusão. “Já tivemos edição que foi mais para o metal, outras para o pop amazônico, o que estiver pautado e que não é mostrado, como forma de projetar a arte e os artistas da Amazônia em mercados competitivos”.

Ela destaca que ao longo de 15 anos de realização, o festival passou a representar um local de resistência, principalmente pela necessidade de ser um espaço de diálogo e provocação de reflexões urgentes da sociedade. “E em segundo lugar, ainda é sobre valorização da cultura que reflete nossas identidades e o quanto isso gera e fortalece uma autoestima local, amazônica”, afirma.

Dessa forma, o Até o Tucupi está inserido na rota de festivais independentes do Brasil, filiado Associação Brasileira de Festivais Independentes (Abrafin), articulação criada em 2005 e retomada há dois anos com o objetivo de dialogar com o poder público ações em favor do segmento de música.

A Pandemia do Covid-19 afetou esse mercado e a consequente empregabilidade: o setor de economia criativa perdeu mais de 900 mil postos de trabalho somente na primeira onda da pandemia de Covid-19, segundo documento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado em janeiro.  Em 2020, mais de 130 festivais brasileiros de música assinaram o manifesto “Festivais Unidos em Tempos de Crise”, cuja primeira luta conjunta foi a defesa da Lei de Emergência Cultural.

A pandemia também escancarou a necessidade de criação de mais ferramentas que garantam acesso aos editais e recursos que levem em conta raça e classe, segundo Elisa Maia. Ela destaca que foi notória a dificuldade de parte da classe em se manter informado ou continuar produzindo na quarentena, por enfrentar obstáculos como falta de internet e de dispositivos como smartphones e computadores.

Como primeiro festival realizado no pós pandemia, o Psica, que acontece há dez anos em Belém, representou um marco na retomada das atividades do setor. “Analisamos todos os dados de contaminação e de vacinação, que serviram de argumento para a autorização do poder público. De certa forma, nós ajudamos o Estado a entender como iria voltar às atividades de shows presenciais”, afirmou Jeft Dias, um dos criadores do Psica.

Nessa perspectiva, representantes de festivais independentes, incluindo Belém e Brasília, além de representantes da Abrafin, debateram o cenário nacional durante o encontro “A Amazônia e os festivais de música”, dentro da programação do Até o Tucupi. Do Amazonas, a Feira Urbana de Alternativas (FUÁ), o Festival de Música indígena Kariwa Bacana, o Festival Cultural Lgbtqia+ “Miga Sua Lôca” marcaram presença.

“Os festivais são pontos de encontro onde acontecem grandes trocas que movimentam a cultura e a economia criativa”, afirma Ricardo Rodrigues, representante dos festivais da região Sudeste na Abrafin.

“Não existe cena sem coletividade. Ajudamos muito no processo de escuta para a construção da Lei Aldir Blanc, além de auxiliar, inclusive com dados, a retomada das atividades em todas as regiões do país. Os festivais são como um guarda-chuva para a cena cultural da cidade; eles abarcam muitas camadas culturais”, explica a vice-presidente da Abrafin, Sara Loiola, representante dos festivais Rojão de Brasília e Yalodê. “Como cidade turística, Manaus tem que pautada na cena cultural”, completou.

Sissy Mendes, produtora e organizadora do FUÁ, lembrou que no Amazonas, o poder público se coloca como produtor e não como fomentador do cenário cultural. “Por que não contratar, via chamada pública, produtores locais para realizar os grandes Festivais que estão na agenda da cidade? É como o Estado competisse com quem realiza esse tipo de evento”.

“O Estado precisa pensar cultura de maneira transversal junto a todas as outras pautas e pastas, mas fica nítido que enquanto as gestões não pensarem cultura como política pública, estaremos fadados a sempre ficar esperando o que cada gestor ‘vai fazer’, qual festival ‘vai criar’, e resumir a política cultural a um edital por ano que ‘premia’ poucos, enquanto investe milhões em suas próprias produções”, aponta Elisa Maia, que também é representante do Norte junto à Abrafin.

Durante a conversa, ela destacou que o edital “Amazonas Cultura em Rede”, lançado em 2021, foi uma reivindicação do Coletivo Difusão junto à Secretaria de Estado de Cultura para fomento a projetos que contemplassem a cadeia produtiva da cultura de forma colaborativa, como encontros, mostras, festivais e circulação de apresentações artísticas.

O Festival Até o Tucupi de 2022 foi contemplado nesse edital e contou também com o apoio da Fundação Nacional das Artes (Funarte), através do Prêmio Funarte Festivais de Música e do Sistema Operacional da Música (SOM).

 

Por Steffanie Schmidt, do Coletivo Proteja

 



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